30.12.07

Só 7 Quilômetros

Não seria fácil levantar. Ângelo havia chegado às 4 da manhã. Como todo bêbado, estava otimista. Durmo 6 horinhas e levanto pra correr, havia pensado.
Acordou com o despertador e a cada apito, sua cabeça latejava. O aparelho tocou por quase um minuto até que Ângelo conseguisse alcançá-lo, se rastejando. Sua língua estava seca e grudenta. O gosto de sua boca era uma mistura de cigarro e saliva seca.
Com muita dificuldade abriu a gaveta do criado mudo e a vasculhou em busca de um Tylenol - colocado ali estrategicamente. Encontrou a cartelinha. Havia apenas 1 comprimido.
- Obrigado, Senhor!
Com mais dificuldade ainda se levantou. Estava só de cueca. Foi cambaleando, tropeçando, se escorando, até a cozinha. Segurava o comprimido com a mão fechada.
Abriu a geladeira e recebeu a primeira luz do dia. Seu apartamento havia sido planejado para ficar completamente escuro.
Na geladeira não havia muita coisa: 1 caixinha de leite, algumas frutas, 2 garrafinhas de água, algumas latas de cerveja e uma garrafinha de Gatorade.
Tacou o comprimido na boca e virou a garrafinha de isotônico. Enquanto o líquido descia gelado empurrando o comprimido esôfago abaixo, Ângelo pensava na noite anterior. Havia se divertido muito, bebido muito, dançado muito, fumado muito. Lembrava-se também de Natália. Conhecera a menina em um pub havia algumas semanas. Ela era linda: cabelos pretos e olhos de jabuticaba. Ela o impressionara com sua maturidade. Natália era 4 anos mais nova. Depois daquele dia haviam se encontrado algumas vezes e ela o havia convidado para um jantar entre amigos em sua casa. Ângelo congelara. Acabara de terminar um longo relacionamento e não pretendia se envolver tão rápido. Decidira então não ir ao jantar. Disse a ela que tinha um compromisso com a família, um aniversário, e que, infelizmente, não poderia ir.
Mas durante toda a noite, mesmo estando entre seus melhores amigos, só havia pensado nela. Pensava agora, cara, tá na hora de parar de fugir.
Nesse momento, o telefone tocou. Era Márcia, a amiga que o havia apresentado a Natália.
- Fala, Má.
- E aí? Como foi a balada ontem?
- Foi lôco.
- Pois é. Mas você dançou. A Natália beijou o Rodrigo, primo da Cláudia, ontem.
Pensou rápido. Não queria demonstrar a raiva que sentia.
- Ah...
- É. Mas ela disse que foi só um beijo. Que ele insistiu muito e acabou vencendo pelo cansaço.
- Sei.
- E aí?
- O quê?
- Não tá puto?
- Não , meu. Não temos nada um com o outro.
- Tá bom. Se esconde mesmo, meninão.
- Márcia, se liga. E deixa eu ir que eu vou correr.
- Tá certo. Vai lá. Beijo.
- Beijo.
Estava puto.
Abriu a persiana da sala esperando a luz do sol. O céu estava cor de chumbo. Abriu a janela e estendeu a mão para fora. Nenhuma gota, nenhuma desculpa: teria mesmo que correr. Vestiu-se e colocou o tênis. Antes de sair, checou o celular. Sem bateria. Conectou o aparelho na tomada e foi correr.
Sempre criava situações em sua mente para se incentivar a correr. Às vezes imaginava que receberia um prêmio milionário ao completar os 7 quilômetros. Outras vezes se via sendo recebido por uma multidão de fãs. E ainda havia ocasiões em que se imaginava desfilando em cima do carro do corpo de bombeiros. A música "Eye of The Tiger" também ajudava, mas só pensava nela no fim do trajeto.
Dessa vez, porém, não pensou em nada. Correu. Sentia suas pernas, cada passada, cada pisada, seu calcanhar pressionando a sola do tênis contra o asfalto. Percebia o peso de seus braços e o movimento de sua cabeça que pendia levemente para a direita devido a um pequeno desvio em sua coluna.
Ao concluir pouco mais da metade do percurso sentiu um pingo de chuva acertar sua cabeça. Pensou, tô fudido. Continuou correndo.
O pingo se transformou em chuvisco. O chuvisco rapidamente se convertou em um pé d'água. Não parou de correr.
Como toda chuva de verão, não durou muito. Mas Ângelo estava ensopado e continuou correndo até terminar os 7 quilômetros de sempre.
Chegou em casa e foi tirando a roupa. Planejava tomar um banho imediatamente, mas seu celular tocou.
Ao olhar no visor do aparelho o número que o chamava não era conhecido. Hesitou um pouco e acabou atendendo.
- Alô?
- Ângelo?
- Quem é?
- É a Natália.
Decidiu que não ia mais fugir. E nunca mais deixaria de correr.
O Corpo e A Mente

Ele sente
Ele vibra
Cada poro aberto
Cada pêlo enraizado

Ela planeja
Ela estuda
Cada neurônio ativo
Cada impulso controlado

Tudo se guia pelos sentidos
Dança, se movimenta
Leve e pesado
Não existe certo e errado

Tudo se guia pela razão
Administra, se detém
Forte e suave
Não existe certo no errado

No calor, se refresca
No frio, se aquece

Na necessidade, luta
Na riqueza, se poupa

Não faz contas
Sente até onde dá

Tudo no papel
Calcula até onde dá

"Quero ficar à toa
Deixo a vida me guiar"

"Quero ter o controle
Minha vida vou guiar"

"Não vivo sem dúvida
A graça do não saber"

"Não vivo sem certeza
O amanhã quero prever"

24.12.07

Desencaminho

Te reencontrar
Ontem ficou há não sei quanto tempo
Mas hoje ainda existe brasa
Assopro
Você me incendeia

Vivemos longe
Você aqui
E eu lá
E ainda tem mais

A cabeça nos segura
Nossos corpos quase se entregam
Alto lá!

Seus nós precisam ser desatados
Não há pressa
Nos descobrimos, redescobrimos
Na hora certa, tudo a seu tempo

21.12.07

Entra Em Mim

Seu olhar
Parece foi feito pra mim
E o meu nome
Soa tão bem na sua voz
Sou mais leve nos seus braços
Imensos abraços

O calor do seu corpo
Existe só pra me aquecer
E os seus pêlos, a sua pele
Te envolvem só pra me entorpecer

A sua boca
Os seus lábios e língua
Têm mais sabor na boca minha
Suas mãos e seus dedos
Que me exploram, me controlam

Nós dois juntos
Estou cansada e quero mais
Meu corpo molhado
Não é só transpiração
É inspiração

Por isso digo
Entra em mim
Entre gemidos
Entra em mim
Perco os sentidos
Entra em mim

Você é meu
E sua sou

20.12.07

Sujo

Unhas sujas
Tento escondê-las
São feias, grotescas
A poeira preta por baixo
Não quero revelá-las

Coloco as mãos no bolso
Cruzo os braços
Não há maneira
Elas acabam sempre aparecendo
E mostrando a sujeira que há em mim

19.12.07

Mais uma contribuição do meu querido André http://neuroghost.blogspot.com/:

Viajantes

Foste em viagem
E eu aqui permanecido
Como se tivesse ido…
Para dentro
E bem noto que o centro
De toda distância que se fez
Não é teu avião que partiu
Mas o "eu" mesmo que sumiu

Como se detalhasse os dias
A tua espera
Numa outra esfera
Também passada no estrangeiro
Este passageiro melancólico
Atônito, desatento de si
Exilado no país interior.

Foste embora por uns tempos
E eu aqui aos meus relentos
Mais distante de mim
Que tua distância do Brasil.


Distância

O amor é feito de distâncias
Vai longe quando perdido
Mas tão próximo se ampara
Quando vivido
Que nem distância permanece

Ausente
O apaixonado se esquece que um dia…
Um dia ele próprio existiu
Neste ponto então,
Só existe o amor sem distância
Entre ele…
E o corpo da amada.
Somos Comida

Não adianta
Pode passar creme
Fazer drenagem linfática
Passar a semana no SPA
Você sempre será o resto do que você foi um dia
Espero que você goste de "mexidão"

18.12.07

Terrorista Emocional

Lembro-me com carinho de cada uma das minhas 6 ex-mulheres. E lembro-me com muita clareza o que fez cada uma delas desistir de mim. A minha grande sorte sempre foi o meu charme inicial. Cativo sempre ao primeiro olhar, no primeiro bate-papo, no primeiro beijo, na primeira transa. O meu trunfo é a capacidade de me adaptar a cada uma delas. Porém, como disse alguém, o seu ponto forte é a sua fraqueza. E a minha é exatamente essa. Posso esmiuçar os detalhes de cada fim de relacionamento. Mas com certeza a minha inconstância (ou a minha adaptabilidade a novas situações) foi, certamente, ponto comum em todos os fins.
A primeira foi Priscila. Éramos muito jovens. Não éramos mais virgens, no entanto. Estávamos na faculdade. Acho que cursávamos o segundo ano. Acabávamos de descobrir o prazer do sexo livre e queríamos agora algo mais profundo. O fato de já sermos grandes amigos com certeza contribuiu para que acabássemos nos unindo nos laços nem tão sagrados assim do matrimônio. Sempre acreditamos, e, realmente, ainda acredito, que um casamento deveria ser baseado em bom sexo acompanhado de muita conversa. Mas, como já disse, éramos jovens demais e não estávamos preparados para as peças que a vida prega na gente. Eu com meus 22 anos, no auge de minha libido perturbada, não poderia esperar ser fiel a Priscila, por mais redondos que fossem seus seios perfeitos, por mais lourinhos que fossem seus pêlos pubianos, por mais rosados e doces que fossem seus mamilos, por mais suculenta que fosse sua bocetinha. Uma frase que repetirei sempre, e que como vai perceber, amigo leitor, não é minha, nem de ninguém, é de todos: se eu soubesse naquela época o que sei hoje... Na verdade, não adiantaria nada. Eu não pensava ainda com a cabeça de cima. E perdi Priscila comendo sua priminha do interior que havia vindo passar as férias conosco.
A segunda foi Renata. Também na faculdade. Nos conhecemos em uma festa. Era uma grande amiga de um grande amigo de Priscila. Estávamos em uma rodinha de amigos fumando maconha, quando isso ainda não era politicamente incorreto, ou pelo menos ainda não achávamos que era, que isso fique bem claro. E numa das voltas que o baseado deu, segurei sua mão. Eu juro por Deus! Acreditei ter encontrado a mulher da minha vida ali. O toque de sua mão na minha me fez arrepiar inteirinho - e o fato de ela não estar usando soutien naquele dia também ajudou. Renata era muito madura. E quando eu decidi largar a faculdade para abrir um bar próximo à universidade, a pretexto de ser fiel aos meus ideais, fez com que ela simplesmente se desinteressasse por mim. Senti muito sua falta, mas a cerveja me fez esquecê-la rapidamente e me trouxe Vera.
Vera era como eu. Adorava beber de segunda a segunda. Adorava trepar. Nos conhecemos no bar, obviamente. Nessa época eu já me preparava para fechá-lo. Já havia percebido o quão estúpido havia sido ao largar a faculdade. Na última noite em que o bar ficou aberto comi Vera em cima do freezer. E nos apaixonamos. Fiquei com ela até me formar. E daí nossos caminhos se transformaram. Ela continuou sendo de esquerda e eu me encantava com o neo-liberalismo defendido por minha chefe no escritório. Também me encantava com suas cruzadas de perna.
Minha chefe (nunca a palavra "minha" foi tão bem empregada) era mais velha, mais madura, divorciada. Me sentia um menino de novo com o quanto aprendia com ela sobre análise de mercado e kama sutra. Mas ela era séria demais. E no dia em que não consegui mais achar graça na sua carranca conservadora, ela percebeu a minha volatilidade. Me deixou antes que eu a deixasse. Melhor assim. Terminar relacionamentos nunca foi o meu forte. Acabar com eles sim. Destruí-los. Vê-los agonizar. Essa sim é a minha especialidade. Nunca acreditei em esforço para manter um relacionamento. Afinal, cresci assistindo filmes de Hollywood. Não se poderia esperar algo diferente de mim. O que me leva a Carolina.
Eu já com quase 30 anos pensava que havia chegado a hora de amarrar a coleira. E havia mesmo. Mas eu ainda não estava pronto. Talvez nunca esteja.
Conheci Carolina em uma viagem de férias. Minha primeira vez na Europa. Trombei com ela em uma badalada balada, badalada balada, badalada balada em... Barcelona. A princípio eu não tinha a menor intenção de beijá-la. Acho que ela também não. Estávamos os dois tão carentes de brasileiros - imagine, eu estava havia apenas 2 dias na Espanha - que só queríamos conversar sobre política, feijoada, pão de queijo e guaraná. Não que ela não fosse bonita. Era linda! Perfeita! Mas não foi isso que nos uniu a princípio. Foi simplesmente o prazer de conversar com alguém que falava sua língua. Alguém que entendia as piadas que você fazia. Alguém que tivesse algo em comum. E o tempo que passamos juntos na Europa foram os melhores 6 meses da minha vida. As conversas eram fantásticas. Falávamos de tudo: antigos casos, unha encravada, decoração, machismo, feminismo. O sexo era perfeito: nem filme pornô, nem novela das seis. Mas ao regressarmos ao Brasil, eu então com 29 anos, em pleno retorno de Saturno, comecei a reavaliar tudo. Reavaliava a minha vida pessoal, a minha vida profissional, mas não tomava decisão alguma em relação a nada. Simplesmente não conseguia. Meu terapeuta diz que eu não queria tomar decisões. Essa foi a maneira que encontrei, ainda segundo meu terapeuta, de sabotar mais um relacionamento. E eu dizia: não! A culpa é da minha mãe.
Quando cheguei nos 30, finalmente uma decisão. A de não mais me envolver se não fosse para sempre. Devo ter ficado solteiro por umas duas semanas, até conhecer Giovana. Entre Carolina e Giovana houveram outras por quem me apaixonei, mas não tão importantes como aquelas que considero minhas 6 ex-mulheres.
Giovana talvez tenha sido a mais importante. Ou talvez eu tenha essa impressão por ela ter sido a última. Nos conhecemos no trabalho. Como eu já disse, havia decidido ficar solteiro. Então, qualquer mulher que começasse a conversar comigo, passaria a ser tratada como uma freira. Sempre tive umas fantasias meio sacanas, sabe? O fato é que conviver com uma mulher bonita e inteligente diariamente sem nunca tê-la fodido vai contra a minha natureza. Pensava que Giovana não seria a primeira. Era casada à epóca. Ou melhor, morava junto, o que dava no mesmo. E estava cada vez mais desgastada pelo relacionamento. Aparentemente seu marido era apenas uma versão piorada de mim mesmo. Um pouco mais jovem, mais afoito, ainda não muito experimentado na arte de tornar uma mulher completamente satisfeita.
Sim, eu sei fazer isso. Mas me saboto. Já nem sei mais se faço isso inconscientemente, como afirma meu terapeuta, numa tentativa infantil de frustrar os planos de ter netos de minha mãe, ou se o faço deliberadamente.
Fato é que convivendo com Giovana diariamente tinha eu todas as oportunidades de mostrá-la o quanto eu era interessante se comparado ao cara com quem ela dividia o mesmo teto havia quase 3 anos. Eu era o cara bem sucedido que ela acabara de conhecer. Representava o novo com tudo que há de positivo nessa palavra. E também ficou muito fácil pra ela, com aquele sorriso de musa, aquele rosto de atriz de cinema, aqueles seios perfeitos, me convencer a abandonar os planos de ser solteiro.
Giovana tinha seu apartamento. Eu tinha o meu. Mas insistimos em morar juntos imediatamente. Fomos morar no dela. Pulamos algumas etapas importantes para a construção de um relacionamento saudável. Claro, tudo isso é um blá-blá-blá pré-fabricado. Estou racionalizando uma questão para mais uma vez fugir do fato de que na verdade sabotei o relacionamento. Morar com ela era muito fácil. Ela cuidava de tudo. Eu simplesmente sentava no sofá. Àquela altura eu já não podia imaginar que separaria mais uma vez. Já estava até pensando em ter filhos. Mas Giovana era forte demais pra deixar se levar em um relacionamento nitidamente sem futuro. Não seria o fato de ela ter mais de 30 que a faria aceitar qualquer um. E isso só me faz admirá-la mais.
Ela finalmente me botou para fora da casa e da vida dela há duas semanas.
E cá estou eu, escrevendo esse diário, como me recomendou meu terapeuta, esperando minha próxima vítima.

17.12.07

Esperando

Raquel havia decidido usar seu horário de almoço naquele dia para ir ao banco. Havia recebido um bônus do escritório por ter sido escolhida a funcionária do mês. A grana extra, e inesperada, era muito bem vinda. Porém, Raquel reavaliava se era mesmo uma boa idéia trabalhar desse jeito. Ela estava agora à frente de 3 projetos no escritório, trabalhando com 5 equipes diferentes. Ela nem conseguia conversar com suas equipes pessoalmente. Tudo era feito via e-mail. Assim como fazia com seu marido e suas duas filhas. Precisava acreditar que aquele esforço compensava, mesmo não tendo tempo de fazer as unhas e pintar os cabelos. O problema era entrar no elevador, a única hora em que se via no espelho, e perceber os fios grisalhos, como penetras em uma festa: poucos, mas insistentes.
O bônus havia sido pago em cheque e Raquel pretendia usar sua quase uma hora de almoço para sacar o dinheiro e depositar a grana em sua conta. Não queria esperar os dois dias que o cheque demoraria para ser compensado. Raquel não esperava nem elevador. Quantas vezes já não havia subido, ou descido, os 8 andares do escritório só para não ficar parada. Além disso, aquilo dava a ela um certo alívio, deixava sua consciência mais tranqüila: estava se exercitando.
Por volta de uma da tarde, Raquel pegou sua bolsa e, já que o elevador estava em seu andar, não desceu pelas escadas. Ao chegar no térreo o acensorista lhe disse que precisava sair do elevador ali. Havia uma suspeita de vazamento de gás no subsolo, onde ficava a garagem, e o único jeito de chegar até seu carro seria passando por fora do prédio e entrando pelo portão automático por onde entravam os veículos.
- Conversa com o segurança na saída do prédio. Ele abre o portão pra senhora entrar na garagem.
Raquel passou rapidamente pela mesa onde ficavam os dois seguranças responsáveis pelo controle de entrada de pessoas no prédio. Eles disseram a ela que assim que a avistassem no monitor, abririam o portão. Raquel pensou, vou ter que esperar esses dois me perceberem lá. Pensou que perderia preciosos segundos.
Ao chegar ao início da rampa que descia para a garagem, percebeu como ela era íngrime. De dentro do carro não se notava. Percebeu também que um carro acabara de sair da garagem e o portão começava a se fechar. Se eu correr, eu pego o portão aberto, pensou.
A distância entre o início da rampa e o portão era só de uns 50 metros. Mas a inclinação e o fato de estar calçando sapatos de salto alto talvez houvessem desencorajado outras pessoas. Mas não Raquel. Partiu numa corrida cambaleante enquanto o carro subindo a rampa piscava os fárois enquanto subia em sua direção. Raquel desviu-se do retrovisor com muita agilidade enquanto soltava um sonoro palavrão. Quase em frente ao portão percebeu que a abertura não seria suficiente para sua altura. Então, fez o impensável: se jogou no chão e rolou por baixo do portão enquanto ele se fechava.
Seus joelhos ardiam muito, assim como as palmas de suas mãos. Seu sapato direito estava a uns 5 metros de seu corpo e a alça de sua bolsa havia se rasgado. Se levantou batendo as costas das mãos contra a saia, antes branca e agora coberta por uma poeira negra.
Como sempre fazia, passou direto pelo manobrista com um simples aceno de cabeça. Não conseguia esperar que ele buscasse o carro. Dessa vez, no entanto, percebeu que ele se segurava para não rir após assistir àquela cena digna de um filme de ação.
Entrou no carro e nem precisou esperar pelo portão. Já havia sido aberto.
A uns 16 quarteirões dali estacionou o carro. Estava, finalmente, em frente ao banco. Desceu um pouco atrapalhada. Pensava na reunião que teria às 2 horas e imaginava se sua secretária teria se lembrado de todos os preparativos.
Ao entrar no banco, percebeu que a fila estava bem curta. Fez o sinal da cruz. Porém, ao colocar a mão dentro da bolsa, notou que o cheque não estava lá. Lembrava-se de ter colocado ele dentro da bolsa. Estava solto, mas estava dentro da bolsa. Não tinha tempo para conjecturar, decidiu passar na padaria da esquina e comer uma coxinha. Não podia mais perder tempo.
Ao chegar de volta ao estacionamento do escritório e parar o carro, o manobrista veio a seu encontro:
- A senhora deixou cair esse cheque e esse batom quando deu aquele rolamento ninja na entrada da garagem.
- Ah, obrigado!
E foi para o elevador, agora liberado, meio enrubescida. Decidiu que participaria da reunião e sairia imediatamente para pegar o banco ainda aberto. Daria tempo.
Como havia planejado, houve tempo para a reunião e ainda para um bate-papo rápido com seu chefe sobre algumas coisas que ainda precisavam ser acertadas. Saiu rapidamente e em menos de 15 minutos estacionava na porta do banco novamente.
Para a sua satisfação, a fila ainda estava bem curta e foi atendida antes de completar a segunda ligação para sua secretária. Pegou a grana e foi se dirigindo para a porta. Assim que passou pela porta, um rapaz se aproximou:
- Moça, a senhora tem horas?
- Quatro e quinze.
- Hora de passar a grana pra cá.
Raquel não acreditava naquilo. Depois de todo o sacrifício para tirar o maldito dinheiro vinha uma filho da puta e a roubava. E o cara nem tinha se dado ao trabalho de esperar na fila.
Pensou em todo o tempo que havia gasto nos projetos, no tempo que poderia ter passado com sua família, nos dois anos seguidos sem férias.
Decidiu conversar com seu chefe. Tiraria férias assim que concluísse seus projetos. Sem desculpas, sem adiamentos.
E tinha que falar com ele agora. Não podia esperar mais nem um segundo.

15.12.07

A Estante

Tadeu estava enlouquecido com a tese de mestrado. Quanto mais lia a respeito do tema, mais sua pesquisa aumentava, e encontrava outro viés, e mais outro, e mais outro... Resolveu ligar para seu orientador.
- Alô!
- Professor? É o Tadeu.
- Tudo bem?
- Tudo. E com o senhor?
- Tava. Até você me chamar de senhor. Já te falei.
- Foi mal. Bom, eu tava querendo perguntar se o senhor... ou melhor, se você tem mais algum material ou alguma fonte que possa me ajudar lá na tese. Tô ficando meio perdido.
- Tá tendo dificuldade de cercar o tema, né?
- É. É bem por aí.
- Por que você não vem até a minha casa. Talvez você encontre alguma coisa na minha biblioteca.
- Não quero te atrapalhar.
- Imagina. Mi casa, su casa.
Tadeu achou meio estranho o tipo de ajuda oferecida pelo professor. Mas não estava em condições de julgar nenhum tipo de auxílio. Muito menos estava em posição de recusar qualquer coisa que fosse. Juntou suas coisas na mochila e foi para a casa de seu orientador.
Tadeu já havia estado ali em outras ocasiões. Uma vez para receber orientações, quando o professor tinha estado doente e tinha se ausentado da universidade por algumas semanas. Em outras duas ocasiões, havia estado lá para duas festas organizadas pelo professor. No entanto, nunca havia entrado na tal biblioteca. Nem mesmo sabia que ela existia. Sempre imaginava que o professor tivesse um enorme acervo de livros na área, mas nunca algo tão amplo que pudesse ser chamado de biblioteca.
A casa era bem grande e arejada. A porta de entrada dava para uma sala de estar enorme com um sofá em "L" e vários outros móveis. Uma televisão de plasma coroava a decoração. O professor o recebeu na sala. Vestia apenas um robe e tinha uma taça de vinho branco nas mãos. Tadeu achou um pouco estranho, mas pensou, bom, é domingo e o pobre homem também é filho de Deus.
O professor sorria muito enquanto guiava Tadeu até a biblioteca. Falava sobre os quadros na parede, comentava a decoração da casa... Tadeu apenas o seguia e ia respondendo com monossílabos as perguntas trivais que aqui e ali o professor o fazia.
- Bem, é aqui.
O professor abriu duas portas pesadas de madeira que ficavam no final de um corredor. A biblioteca na verdade era um escritório. Havia uma enorme mesa de madeira no centro, com uma cadeira bem alta. Esta mesa estava coberta de papéis com anotações que Tadeu mal conseguia decifrar. No canto direito havia uma outra mesa com um computador e à esquerda um aquário imenso com um único peixe dourado. Tadeu pensava na ironia que era ver aquele peixe, cuja memória mais antiga datava de menos de 5 segundos atrás, nadando sozinho naquele infinito de água. No fundo da sala havia uma enorme estante de livros. O pé direito da casa era bem alto, e a estante ia do chão até o teto, de ponta a ponta da parede recheada de livros. Próximo a porta de entrada, havia um sofá de dois lugares.
O professor entrou na frente de Tadeu e se sentou no sofá. Colocou a taça de vinho sobre uma mesinha de canto que havia ao lado do sofá e ajeitou o robe, como se este fosse um traje de gala.
- Bom, acho que você deve encontrar algo de útil aqui. Se não se importa, ficarei aqui com você enquanto procura. Esta sala tem um valor muito alto pra mim e não gosto de deixar ninguém aqui dentro sem que eu esteja junto.
- Claro. Não tem problema algum. Só não queria te atrapalhar em nada, nem interromper o seu descanso.
- Não se preocupe. Eu não tenho nada para fazer hoje mesmo. Enquanto você estuda, vou ler um pouco. - e pegou um livro que estava no chão, perto do sofá.
Tadeu finalmente encarou a estante. Era realmente gigantesca. Assustava só de olhar. Começou a zanzar de um lado para o outro lendo o que havia escrito nas capas dos livros. Tudo parecia ser útil e pensava, se houvesse uma maneira de eu simplesmente sugar toda a informação da cabeça do professor... Tadeu pensava que, obviamente, o professor teria lido todos aqueles livros. Além disso, conhecia a tese de Tadeu como ninguém. Provavelmente, conhecia-a melhor do que o próprio Tadeu. Por que ele simplesmente não sugeria um autor, um volume?
Tadeu olhava e olhava para a estante e simplesmente não conseguia decidir que exemplar puxar de lá. Pensava que deveria decidir rápido. Não queria tomar muito tempo de seu orientador. Mas ao mesmo tempo achava que seria julgado pela escolha que fizesse. Se eu pegar o livro errado, ele pode desistir de me ajudar, pensava. Arriscou uma olhadela por cima do ombro. Queria ver se o professor estava lendo de verdade ou se apenas o observava com seus olhos de juíz. O professor parecia bem absorvido pela estória.
Tadeu voltou-se novamente para a estante. Foi e voltou umas duas vezes até o final da parede coberta de livros até que viu algo que chamou sua atenção. O problema é que o livro estava na parte mais alta da estante. Não havia nenhuma escada à vista. A cadeira próxima a mesa tinha um estofado de couro impecável que realmente não combinava com sapatos sujos. Antes que tivesse alguma idéia ou criasse coragem para interromper o professor e perguntar como ele alcançava os livros mais altos, ouviu o homem dizer:
- Tadeu, preciso ver meu almoço. Quase me esqueci. Estava assando um peixe. Já volto.
Tadeu pensou, é minha chance. Primeiro pensou em tirar os sapatos e usar a cadeira mesmo. Mas previu que, mesmo descalço, seu peso deixaria marcas naquela cadeira tão sofisticada. Então decidiu usar a mesa. Agarrou-se a ela e tentou puxá-la para perto da estante. Mas a maldita mesa pesava toneladas e o máximo que conseguiu foi movê-la alguns centímetros ao preço de um barulho irritante de madeira atritando com madeira. Deixou um pequeno arranhão no assoalho. Sua idéia não daria certo. Precisaria de pelo menos mais uma pessoa para ajudá-lo a aproximar a mesa da estante. E ainda assim achava que o estrago no chão seria grande.
- Merda!
Tentou trazer a mesa de volta para o lugar. Gotas de suor começavam a brotar em sua testa e suas costas. Nem tanto pelo esforço físico, mas pelo nervosismo.
Olhou para a estante mais uma vez e percebeu que as prateleiras eram bem grossas. É minha única saída, pensou. Tirou o sapato do pé esquerdo e o colocou na segunda prateleira, mais ou menos na altura de seu joelho. Deu um impulso e se agarrou à prateleira mais alta com as duas mãos enquanto seu pé direito ficou no ar, tentando dar equilíbrio. Se esticou um pouco para a direita, tentando alcançar o livro e ouviu um rangido. Estancou. Nenhum movimento por parte da estante. Prestou atenção aos ruídos da sala para perceber se o professor se aproximava. Silêncio completo. Novamente, se esticou para a direita e ouviu outro rangido. Antes que pudesse se soltar da estante, ela pendeu para a frente e desabou, sobre Tadeu e sobre a mesa. Tadeu bateu as costas com força no chão. A estante teve sua queda interrompida na altura da mesa, mas centenas de pesados volumes caíram sobre o rapaz. Tadeu tinha a impressão de estar presenciando um terremoto, pelo barulho e pelos golpes que recebia de cada livro que acertava sua cabeça, seus braços e seu tórax. Tudo aconteceu muito rápido, mas para Tadeu os livros pareciam ser infinitos. Esperou tudo que havia para cair terminar de cair.
Tadeu sentia dor por todo o seu corpo. Começou a se mover embaixo da montanha de livros. Finalmente se desvencilhou de todos os obstáculos. Sua cabeça doía e ao passar os dedos entre os cabelos, percebeu que um pequeno galo se formava.
Ao se colocar de pé, analisou o estrago. A estante parecia intacta, mas os papéis em cima da mesa haviam se espalhado pela sala. A mesa havia se movido e deixado quatro riscos atrás de cada perna.
Virou-se para a porta e viu o professor parado observando tudo.
- Eu sinto muito, professor.
- Deve mesmo.
- Eu arruinei tudo.
- Não. Você pode encarar as coisas dessa forma, mas olhe em volta. Você simplesmente derrubou uma estante. Ela caiu sobre seu corpo. Tomou um susto e foi só. Mas você ainda está vivo. Os livros ainda estão aí. Pare de choramingar. Sacode a poeira do corpo e coloque tudo de volta no lugar.
Tadeu abaixou os olhos e foi arrumar a bagunça.

14.12.07

Feliz Aniversário

Marcos acordou com o telefone tocando. Era sua mãe que desejava um feliz aniversário. Ele mesmo nem se lembrava. Depois de desligar, se levantou e foi para o trabalho.
No escritório, o chefe o chamou:
- Marcos, pode vir um segundinho na minha sala?
Marcos foi pensando que estavam armando alguma surpresa. Estariam todos escondidos e quando ele entrasse: Surpresa!
Não foi o que aconteceu. Seu chefe tinha uma pasta nas mãos com os relatórios de desempenho da equipe:
- Marcos, você tem deixado a desejar ultimamente, viu?
- Tenho passado momentos dificéis. Vou melhorar.
- Já tivemos essa conversa antes e você sempre diz a mesma coisa.
- É sério. Estou reorganizando umas coisas. As coisas vão melhorar.
- Olha, por todas as coisas que você já fez pela empresa, eu vou te dar mais uma chance. Mas no mês que vem, vão haver cortes. E você está nessa lista. Sair dela só depende de você.
Marcos só olhava para baixo. Não conseguia encarar o chefe. A vontade dele era de subir na mesa e chutar a cabeça do filho da puta.
- Bom, é só isso. - concluiu o chefe.
Marcos se levantou e quando abriu a porta para sair, seu chefe disse:
- Ah, Marcos, ia me esquecendo. Feliz aniversário.
- Valeu. - respondeu secamente.
Ninguém mais no escritório se lembrou do aniversário de Marcos. Mesmo com os avisos no quadro. Havia um comunicado com o nome de todos os aniversariantes do mês. Marcos era o único que fazia aniversário em junho no escritório.
Por volta das 4 e meia resolveu ir embora. É meu aniversário, pensou.
Ao deixar o escritório naquele dia, Marcos decidiu se dar um presente e passou em um restaurante Tailandês. Um colega do escritório havia recomendado. Entrou no restaurante e sentou na primeira mesa vaga, próximo à janela. O garçom trouxe o cardápio.
Ao olhar os preços, Marcos se arrependeu de ter entrado ali. Chamou o garçom:
- Amigo, tem algum tipo de promoção para aniversariantes?
- Não, mas se você quiser posso cantar "Parabéns Para Você".
Marcos se levantou e deixou o restaurante. Antes de ir para casa, passou no drive thru do McDonald's.
No caminho para casa foi pensando, será que minha mulher preparou uma festa surpresa para mim? E foi imaginando entrar na sala, as luzes estariam todas apagadas, e, de repente, todos os seus amigos, incluindo seu chefe, estariam esperando por ele. Acenderiam as luzes e começariam a cantar "Parabéns". Teria bolo de chocolate, brigadeiro, salgadinho e muita cerveja.
Entrou em casa e se lembrou de que não era casado. Foi recebido por um silêncio de velório.
Tirou o sapato, desapertou a gravata e o cinto, pegou uma cerveja na geladeira e foi ver TV até o sono chegar.
Se Eu Fosse Poeta

Sou feliz: não sou romântico
Não choro por amor, não sofro
Mas e se eu fosse?

Pensaria no passado
Em tudo que deu errado
E usaria mais um "se"
Ou mais dois, ou mais três

Se tivesse percebido isso
Se tivesse dito aquilo
Se não tivesse dito nada

Mas "se" é coisa de gente fraca
Poetas, meninos apaixonados

Eu sou feliz:
Não escrevo versos
Prefiro ler jornal
Vinte e oito vezes
Eu girei em torno do sol
Outras pessoas
Outras coisas
Giraram em torno de mim

Algumas delas
Por girarem muito rápido
Saíram da minha órbita
E foram circundar outros astros

Outras ainda vêm chegando
Atraídas pelo meu campo gravitacional

13.12.07

Menina Imã

Seu olhar tem mil formas
Olhar de menina, criança
Olhos de feiticeira, encanta
Profundidade oceânica

Sua boca me hipnotiza
Lábios cor-de-rosa
Seu sorriso alimenta
Minha alma, meu espírito

Tudo que há em você
Me instiga, me excita
Aguça os meus sentidos

O desconhecido não mete medo
Atrai
A Terapeuta

Seu olhar me acompanha
Tenta me desvendar
Se falo, às vezes me apanha
Tenta me analisar

Eu só te observo
Te admiro, te desejo
Isso não nego

Suas palavras, esparsas
Gotas para a minha sede
Insisto em ser seu comparsa
Você escapa da minha rede

Não me calo e
Continua me observando
Por vezes aqui e ali
Com seus beijos vou sonhando
Amnésia

Acordo
Não sei onde estou
Tudo a minha volta
Móveis, objetos, quadros na parede
Tudo é estranho

Vejo um porta-retrato
Não sei quem são
Encontro um espelho
Não me reconheço

Esbarro em um diário
As linhas falam de amor
Uma estória que terminou
Não me lembro, continuo lendo

Muita dor, muito pranto
Decepção, desilusão
Fim de caso
Fim da página

Sobre a mesa, uma carta
Onde ela diz:
"Não dá mais!
Acabou! É o fim!"

Nada disso me toca
A dor no diário
A ruptura na carta
Não sei quem é ela
Nem mesmo quem sou

Melhor assim

11.12.07

Vantagens e Desvantagens

Luciana chegou em casa depois de mais um longo e cansativo dia de trabalho. Estava grávida de 8 meses, mas seguia trabalhando. E dizia que trabalharia até o dia do nascimento de Vitor. Queria aproveitar a licença maternidade inteira já com o bebê no colo. Havia calculado tudo com a ajuda de Carlos, seu marido. Iria até imendar as férias na licença para ter mais tempo com seu rebento.
Entrou no apartamento e foi tomar banho. Era muito difícil manobrar para entrar no box do chuveiro com aquele barrigão. Enquanto tomava banho Carlos também chegou. Já foi entrando no banheiro.
- Oba! Banho em família. - gritou ele.
- Nem vem. Já tem gente demais aqui dentro.
- Ah... então vou assistir.
Depois do banho, os dois sentaram na sala. Luciana adorava fazer drama em relação a carregar o bebê para conseguir arrancar pequenos favores de Carlos.
- Ai, amor, tô tão cansada. Parece que eu tô carregando uma mochila cheia aqui na frente. É até difícil equilibrar, sabia?
- Mas tá tão linda!
- Não sei onde você vê beleza aqui. Tô parecendo uma elefanta. Acho que minha barriga nunca mais vai voltar ao normal.
- Que nada. Cê tá maravilhosa e vai voltar a velha forma rapidinho.
- Quero ver. Amor, sabe que eu precisava ir no banco amanhã?
- É? - Carlos se levantou do sofá e foi pegar uma cerveja na cozinha.
- E é tão difícil ir até lá na hora do almoço. Sabe, eu preciso comer. O Vitor é uma draguinha.
- Sei. - Carlos já tinha um sorrisinho matreiro no canto da da boca.
- E ir ao banco me toma tanto tempo...
Carlos se antecipou ao pedido:
- Já sei. Cê quer que eu vá pra você, né?
- Ai, cê faz isso por mim, amor?
- Claro que faço. Agora me dá um beijinho.
- Mas sem assanhamento, viu? Cê sabe que eu não fico confortável.
- Só um beijinho, gata.
E ficaram ali de namorico no sofá até a hora de ir para a cama. Quando se deitaram, antes de apagar a luz, Carlos teve uma idéia:
- Gata, e se eu passar pra te pegar e formos almoçar juntos amanhã?
- Mas, amor, e o banco?
- Ué, melhor ainda. Você não vai perder o tempo de pegar ônibus para ir até lá. E tem mais. Você pode furar a fila com esse barrigão, né?
- Ok. Você venceu.
E foram dormir.
Estólia

Um menino de pouco mais de três anos pega um ônibus com seu tio para visitar seus avós no interior. O ônibus parte da rodoviária quando a noite já vai alta. Mas o menino não tem sono.
- Tio, lê uma "estólia"?
- Tá. Cadê o livro?
- Tá aqui.
- Ok.
O tio lê a estória. O menino ouve atentamente. Faz uma pergunta aqui e ali. Mas não quer interromper. Apesar de saber a estória de cor, não quer perder a fluidez. Então, apenas ouve com os olhos arregalados. A estória termina.
- Tio.
- Diga.
- Posso lê uma "estólia" também?
O tio ri um pouco.
- Claro que pode. Vou adorar.
O menino pega outro livro.
- Tio, vô lê a "estólia" dos animais.
- Que animais?
- O leão, a "gilafa", a onça...
- Legal. Lê aí, então.
O menino começa a acompanhar as linhas da estória com o dedo.
- O leão teve filhotes. Aí, a "gilafa" teve filhotes. E o filhote da "gilafa" "ela" amigo do leão. Acabou a "estólia". Sua vez, tio.
E entrega o livro ao tio. O tio lê mais uma estória e, ao terminar, pede ao menino que também leia outra. O menino responde:
- "Agola" não dá mais, tio. Tá muito "esculo".

10.12.07

Contraste

Borboletas e abelhas voando por sobre as flores
Os ônibus cuspindo fumaça, estranhos odores
Pássaros buscando companhia para o verão
Meninos descalços, pedindo, sem educação

Moças conversam, gargalham, brincam
O guarda e o motorista, tensos, brigam
O colorido das folhas nas árvores frondosas
Placas de propagandas, um tanto enganosas

A cidade tem seus tons de cinza
Tem seus tons de verde, linda

9.12.07

What do you really feel?

Do you really feel what you say you feel?
Or do you say you feel like that because you expect people to expect you to say you feel the way you say you feel?
How much of what you say you feel is true?
How much of what you say is true?
How much of what you feel is true?
And if you really feel what you say you feel, can you choose not to feel it?
And if you don't, what do you get from saying you do?
And if you can choose what to feel, why do you choose what you say you feel?

Are there any answers to those questions?
Or have the questions answered themselves?
Natureza Morta

Quatro vassouras verdes
Penduradas em ganchos alaranjados
Combinando com o cestinho de pregadores
Também alaranjado
A bicicleta azul e verde
As paredes e o armário brancos
As roupas penduradas no varal
Os vasos de flor
De toda cor
E a barata morta no canto
Lindo!
A Pele

Sento no sofá
E caio no sono
Acordo com você

Suas pernas já me envolvem
Seus lábios me acariciam
Seus braços ao redor do meu pescoço

Entre nós
Só nossas roupas
Tiro sua blusa
Sinto o calor molhado dos seus seios

Você se movimenta
Me obriga a me despir
Entro no seu mundo
Duas almas em expansão

8.12.07

Alma, Substantivo Feminino

Sei lá o que eu quero
Sei que não é isso
Quero alguém que me olhe
Alguém que veja meus olhos

Um ser duro como rocha
Mas que chore ao meu lado
Que me peça ajuda
E que me socorra também

Alguém que brigue, que lute
Não um ser estático
Quero dinâmica, atitude
Energia com delicadeza

Quero alguém que me penetre
Alguém que adentre minh'alma
Anseio por alguém que me entenda
Sem eu ter que me explicar

Quero um abraço apertado
Daqueles que me enclausuram
Mas ao mesmo tempo protegem
Me sufocam, mas me deixam respirar

Quero não ter que dizer
Que é isso que eu quero

7.12.07

Chuva e Moto

Reinaldo havia combinado de visitar Léia e Pedro. Eles haviam acabado de ter seu primeiro bebê. Era um domingão no meio de feriado. Não havia trânsito algum. Eram onze horas da manhã quando acordou e o sol brilhava alto no céu. Ao abrir a janela todo o rosto de Reinaldo se transformou em um sorriso.
- Dia perfeito para andar de moto!
Pensava nas cervejas que tomaria com Pedro, no almoço que Léia cozinharia, nos risinhos e chorinhos da bebezinha, e na deliciosa trajetória até a casa deles, de moto.
Colocou uma bermuda, uma camiseta e calçou um tênis. Pegou o capacete e uma jaqueta jeans. Para a volta, ele pensou.
Já dentro do elevador, descendo para a garagem, dava uma conferida no visual. Estava admirado do tanto que havia rejuvenescido após 2 meses de ter se separado. Ainda pensava em sua ex-mulher, mas estava agora exatamente onde queria estar. Tá certo que se continuassem juntos ele realizaria o sonho de ter filhos muito mais cedo, mas a que preço? Cláudia era uma super mulher, mas eles dois juntos, definitivamente, não funcionavam. Eu posso esperar mais uns dois anos, pensava.
A liberdade que experimentava era algo totalmente novo e ao mesmo tempo atraente. E a moto representava tudo aquilo.
Lembrava-se rindo do dia que havia dito a sua mãe sobre a moto:
- Mãe vou comprar uma moto.
- O quê? Por quê? Você só pode estar querendo me matar. Viu, Nestor, seu filho quer me matar! Quer me matar!
Nestor, o pai de Reinaldo, apenas olhava para ele com um sorrisinho no canto da boca e acenava com a cabeça como quem dizia: Vá em frente! Virou-se para Mirna, a mãe de Reinaldo e disse:
- Agora ele é MEU filho, né? Quando ele se formou ele era nosso filho. Me lembro muito bem.
Reinaldo tinha que sair da sala para não gargalhar na frente dos dois.

Bons tempos o agora.

Ao chegar na garagem, não se conteve, namorou a moto por uns bons 5 minutos antes de subir e dar a partida.
Algumas voltas pelo bairro e muitas aceleradas depois, ele estacionava em frente ao prédio onde moravam Léia e Pedro. Tocou o interfone, falou com o porteiro e subiu.
Como havia previsto, havia uma bela mesa preparada: pães de queijo e almôndegas. Pedro já o recebeu entregando uma cerveja. Léia estava no quarto alimentando Giordana, a bebezinha. Ela era linda e, como todo bebê querido, muito desenvolvida para a idade.
Pedro e Reinaldo comiam e bebiam quando Léia saiu do quarto.
- E aí, Rê?
- Pô, sua cabeçuda, já disse para você não me chamar de Rê. Parece nome de mulher.
- Oi, Rê. Já fez as unhas hoje? - Pedro não deixava escapar uma oportunidade de sacanear Reinaldo.
Passaram o resto do dia rindo e brincando com Giordana. Lá pelas 6 da tarde, Reinaldo se levantou da mesa e proferiu as mesmas palavras que sempre dizia ao ir embora da casa de Pedro:
- É dura a dor do parto, mas...
- Brinca mesmo. Não foi você que experimentou. - Léia acrescentava. Os três caiam na gargalhada.
Assim que Reinaldo pôs a mão no capacete, um temporal se formou.
- Se fudeu! - disse Pedro quase caindo da cadeira de tanto rir.
- Cara, são essas coisas que valem a pena quando se tem uma moto: as estórias para as gerações futuras.
Se despediram e Reinaldo foi para o elevador. Enquanto descia, pensava, ainda bem que a roupa de chuva está no Top Case.
Ao sair do elevador, no entanto, percebeu um problema que se apresentava. Teria que correr até a moto, que havia ficado estacionada a uns 50 metros da entrada do prédio. Colocou o capacete sobre um dos sofás que ficavam no lobby, e foi falar com o porteiro.
- Ô chefe, eu vou na moto buscar a roupa de chuva. Cê abre o portão pra mim quando eu voltar?
- Sem problema.
Correu até a moto, abriu o case, pegou a capa, ainda deixou a chave cair no chão, pegou-a novamente, fechou o case e voltou para dentro do prédio.
Enquanto lutava para entrar dentro da roupa, a porta do prédio se abriu novamente. Uma mulher entrava um pouco cambaleante e sorridente. Estava um pouco "alta", mas Reinaldo ficou embasbacado com sua beleza.
- O que está acontecendo aqui? - perguntou ela com um sorriso no canto da boca.
- Estou lutando com minha roupa.
- Cê vai sair? Nessa chuva?
- Ué, cê num acabou de chegar?
- Mas eu vim de carro.
- E eu vou de moto.
- Ah, essa eu quero ver.
- Então você é minha convidada a assistir.
Terminou de colocar a roupa e a chuva se intensificou. Foi andando para o lado da porta bem lentamente e parou. Ficou olhando a chuva engrossar. Cacete! Nesse pé d'água até com essa roupa eu vou me encharcar, pensava.
- Então?
Ela havia se sentado no sofá. Reinaldo se virou e viu que suas pernas eram perfeitas. Tirou os olhos rapidamente dali. Tentou disfarçar.
- Não era eu que iria assistir você? - ela perguntou com um sorrisinho na boca.
- É, mas agora estamos assistindo a chuva. - tentou desviar o assunto. Sentia seu rosto queimando ao ter sido pego no flagra. Ela continuava sorrindo.
- Você mora aqui?
- Não, vim visitar um casal de amigos.
- Não é a Léia e o Pedro?
- É. Cê conhece eles?
- Claro. Sou vizinha de porta deles.
- Ah, legal. Conhece a Giordana?
- Ela é linda, não é?
- Linda.
Continuaram falando de Giordana. E Reinaldo finalmente se apresentou.
- Ah... meu nome é Reinaldo.
- Legal. - ela respondeu. Não sorria mais.
Reinaldo achou melhor ir embora. Foi se dirigindo para a porta quando ouviu a moça gargalhar atrás dele.
- Isso sempre funciona. - ela ria e ria.
Reinaldo não estava entendo.
- Desculpa. Dá pra explicar o que é tão engraçado?
- Você disse seu nome e eu fechei a cara. Todo homem fica puto com isso. - e ria mais.
Reinaldo sorria sem graça.
- Vamos subir pra casa da Léia e esperar a chuva passar. - ela propôs.
- É. Acho que é melhor, até a chuva parar.
Reinaldo começou a tirar a roupa de chuva, mas foi interrompido:
- Reinaldo, não tira essa roupa. Tá muito engraçado. A Léia vai rir muito. Cê tá parecendo um astronauta.
Reinaldo sorriu de novo e concordou com a cabeça. Ela abriu a porta do elevador pra ele e disse:
- E o meu nome é Patrícia, viu?

6.12.07

Sala de Espera

Era dia de dentista. Roberto já sabia. Acabara de se levantar e o celular tocara lembrando-o desse compromisso. Resolveu dar uma olhada nos dentes enquanto colocava pasta na escova. Pensava, o que será que ele vai dizer hoje, que tem placa, que tem tártaro.
Como a maioria das pessoas que já estiveram em um consultório odontológico, Roberto odiava visitar o dentista. Porém, ele não tinha medo do que o dentista fosse fazer. Não tinha medo de qualquer dor que pudesse sentir enquanto estivesse sentado... ou melhor, deitado, de boca aberta, a mercê do inimigo número 1 das fábricas de guloseimas. Não, isso não. O problema era a sala de espera.
A sala de espera de dentistas ou médicos é sempre a pior parte da consulta. Seja para quem tem medo da consulta em si, ou para quem simplesmente odeia esperar. Estar na sala de espera te emperra a vida. E para Roberto isso era uma tortura. Roberto sempre trabalhou como programador. Nunca teve que cumprir horário, mas trabalhava de 12 a 14 horas por dia. Ter que ficar em uma sala, parado, ao lado de pessoas estranhas, sem ter o que fazer era algo que ele mal podia suportar.
Mas dessa vez seria diferente. Roberto estava preparado para tudo. Levaria seu laptop. Poderia adiantar algum projeto em que estivesse trabalhando. Ou mesmo jogar paciência. Não, isso não ia rolar. Ele nunca conseguira jogar paciência, por motivos óbvios. Além do laptop, Roberto também levaria uma revistinha de Sudoku. Era sempre importante ter um plano B. E se existia algo que conseguia transportá-lo de onde estivesse eram os desafios de Sudoku.
Checou a mochila antes de sair de casa. O laptop estava devidamente armazenado dentro da mochila, juntamente com sua revistinha. Pegou as chaves do carro e deixou o apartamento.
Passou algum tempo no trânsito. Tempo esse que usou para se colocar em dia com as últimas notícias transmitidas pelo rádio de seu carro.
Enfim, chegava ao consultório. Estacionou o carro na garagem que ficava no subsolo e tomou o elevador. Em sua companhia, um senhor de espesso bigode e ainda mais espessas lentes nos óculos. O senhor lia uma revista e assobiava uma bossa nova. Mas Roberto estava concentrado no display do elevador. Enquanto acompanhava os números que iam crescendo, contava mentalmente: mil e um, mil e dois, mil e três, mil e quatro... No décimo andar, o senhor desceu do elevador. Antes que a porta se fechasse, Roberto ainda o informou:
- Esse elevador é muito bom. Leva apenas 5 segundos para subir cada andar.
O senhor o olhou por um momento, mas sem saber o que dizer, apenas acenou com a cabeça e seguiu seu caminho.
O elevador continuou subindo até o décimo primeiro andar, onde Roberto desceu.
Pegou a direita no corredor à sua frente e caminhou até a sala 1111. Era lá o consultório da Dra. Ângela. Entrou e se dirigiu a secretária.
- Bom dia! Tenho uma consulta agendada para as 8 horas.
- Bom dia. Só um momento, por favor - Roberto já esperava aquela resposta e foi se dirigindo para a poltrona mais próxima.
Mas antes que pudesse sentar:
- Senhor Roberto de Souza. O senhor já pode entrar. A Dra. Ângela o aguarda.
Por um instante, Roberto ficou paralizado. Tinha um olhar bobo e um sorriso idiota na face. Não acreditava na sua sorte.

5.12.07

O Artesão

Um artesão tentava
Criar a mais bela escultura
Fazia e refazia a mesma peça
Aparava, limava, talhava
Não era boa o bastante
Nunca

E ele continuava trabalhando
Com formão, com martelo
Até que a peça sumia
E ele então recomeçava

Um dia desistiu
Parou o entalhe no meio
Decidiu não terminar a peça
Simplesmente a jogou longe
E nunca mais pegou no formão

Meses, anos, décadas se passaram
O artesão sempre se lembrava
Com pesar e com ternura
Da peça que jogara fora

Até que certa vez
Passando por um povoado
Distante e distinto de seu próprio
Encontrou uma feira de artesanato

Decidiu admirar as peças

E qual não foi sua surpresa
Ao rever aquela beleza
A mesma peça que antes jogara fora
Enfeitava aquela feira agora

"Quanto quer por esta peça?"
Perguntou ao vendedor
"Essa peça não está à venda.
Seu valor é incalculável.
Não se conhece o autor."

"Mas fui eu quem a fez.
Eu que a esculpi."

E o vendedor então
Entregou-lhe ferramentas
Depois, um bom pedaço de madeira
"Então faça algo para eu ver."

Mas o artesão já não sabia mais manusear as ferramentas
"Estou velho e sem prática."

"Sem saber se é verdade,
Se foi mesmo você quem a esculpiu,
Não poderia entregar-lhe a peça.
Por outro lado,
Se não mente,
E é, de fato, o artista
Não merece também a peça.
Desperdiçou seu dom."
Tecnologia a Serviço do Progresso

Liana começava a pensar em desistir. Era o quinto Cd que tentava gravar e não conseguia. Duas mensagens de erro, um Cd "queimado" literalmente - devido à velocidade excessivamente alta do gravador -, e outros dois que, simplesmente, decidiu-se: não seriam gravados. A pergunta era: quem decidiu? Liana pensava, eu não decidi. Foi o computador? Foi o Cd? Quem decidiu?
Resolveu, finalmente, ler o manual de instruções do gravador.
- Perfeito!
Estava em inglês. Ler os textos para o mestrado era uma coisa. Era sua área. Ela já conseguia prever o que as frases diziam antes mesmo de terminá-las. Era fácil, moleza. Mas ler um manual de instruções dissertando acerca de um aparelho que se revelava cada vez mais misterioso era uma estória completamente diferente. Mas não tinha outra opção.
Começou a ler o manual. A leitura era até bem fluente. Algumas palavras transbordavam. Seu vocabulário simplesmente não podia contê-las. E eram palavras relevantes.
- Já sei. Vou procurar um tradutor online.
Entrou na internet e por alguma razão a sua página inicial - obviamente o Google - não carregava. Clicou no botão atualizar do navegador. Nada.
- Mas será o benedito?!
Foi checar os fios atrás do computador. Nesse momento pensou que as pessoas que projetavam computadores eram um bando de idiotas. Onde já se viu todas as entradas e portas ficarem na parte de trás. O computador sempre "dá pau". Essas conexões deveriam ficar mais acessíveis.
Se agaixou e tentou entrar por debaixo da escrivaninha. Percebeu que não caberia. Deduziu que teria que arrastar a mesinha maldita. Ficou de pé para perceber as conseqüências de tal ato. Havia uma quantidade absurda de coisas sobre o móvel. Tantas eram as coisas que ela própria não se lembrava de ter colocado a maioria delas ali. Bibelôs, vasinhos coloridos, cristais, dois incensários de cerâmica, um mini-gaveteiro cheio de clipes para papel...
- Dai-me forças, ó Senhor!
Como se segurasse a própria vida, agarrou-se a escrivaninha e, com movimentos muito lentos e extremamente calculados começou a movê-la. Percebeu um anjinho de vidro se desequilibrar e parou subitamente. O anjinho foi ao chão e se estilhaçou. Nessa hora pensou em se sentar no chão e chorar. Lembrou de uma de suas músicas favoritas:
- Big girls don't cry
.
Foi até a lavanderia buscar jornal velho para embrulhar o anjinho estilhaçado. Enquanto o embrulhava viu um anúncio de apartamento com "lazer completo".
- Show!
Terminou de embrulhar o anjinho e deu a ele o funeral merecido. Abriu a tampa do lixinho do escritório e o jogou lá dentro. Voltou a encarar a escrivaninha:
- Decifra-me ou te devoro.
O telefone tocou. Era seu pai. Contava de seu último fim de semana. E já no fim da conversa perguntou:
- Como vão as coisas?
Liana descreveu toda a sua aventura mal-sucedida ao tentar gravar o maldito CD. Procurou evitar palavrões, mas em diversos momentos não se conteve, ao que seu pai gargalhava. Antes de desligar, ele disse:
- Sabe quando eu vou comprar um computador? No dia em que eles funcionarem como uma televisão: você aperta um botão, ela liga; aperta de novo, ela desliga.
- Ai, pai! Só você mesmo, né, figurinha?

4.12.07

insônia

mente torta
corpo impotente
pés sujos
braços pendurados
olhos avermelhados
barba por fazer
dedos inquietos
a tela continua em branco
até quando?

3.12.07

10 Minutos

Quero tentar escrever
Não sei sobre o quê
Meu tempo é curto
E o talento não é muito

Talvez falte só inspiração
Pra compensar, muita ação
Talvez essa fonte tenha secado
Seria uma pena, um pecado

Sem tempo
Sem inspiração
Quem vai salvar minha produção?
Longa Espera

Pedro havia trabalhado bastante.
Levantou-se às 6:30 em ponto e foi para o trabalho. De manhã, teve reuniões infindáveis sobre questões impossíveis de se resolver. Checou emails, deu telefonemas, recebeu telefonemas, respondeu emails, ajeitou o quadro que ficava perto do bebedor, e foi almoçar.
O almoço teve que ser rápido, pois assim que colocou os pés para fora do prédio onde trabalhava, seu celular tocou, lembrando-o que havia marcado de encontrar um cliente;
- Por volta da uma hora. - havia dito.
No caminho, comeu uma barra de cereal e tomou uma garrafinha de água. Depois de encontrar com o tal cliente, passou no McDonald's e pediu uma salada, para não pesar na consciência.
Voltou ao escritório para analisar custos e escrever relatórios. O que fez por boas três horas initerruptas. Com as conclusões da análise em mãos, encarou mais duas horas de reuniões, agora com um pouco mais de efetividade.
Antes de tirar o casaco de cima da cadeira para ir embora, ainda assinou dois comunicados que seriam passados para sua equipe.
Sorriu. Foi pra casa.
Entrou na sala e já foi tirando a camisa. Sua mulher o esperava:
- Nossa, amor!
Entrou debaixo do chuveiro e tomou um banho rápido, menos de 5 minutos. Saiu do chuveiro e disse para sua mulher:
- Agora é a minha vez de cuidar dela!
E pegou sua filha no colo.

2.12.07

O Varal

Leonardo acordou naquele domingo depois do meio-dia. Sabia que havia muita coisa para ser feita mas se permitiu ficar na cama até mais tarde. Pô, sou filho de Deus também, né, pensou. Quando finalmente conseguiu se colocar de pé, Tânia já o esperava na cozinha. Ela também havia se levantado há pouco tempo e o aguardava com o café pronto.
- Bom dia, meu bem!
- Bom dia.
Leonardo se abaixou para dar um beijo em sua testa. Ela sorriu para ele.
- Cê tá lembrando que tem que arrumar o varal, né?
- Tô. Pode deixar. De hoje não passa.
Tomaram o café da manhã e enquanto Tânia ia ler o jornal, Leonardo foi para os fundos da casa para iniciar os trabalhos dominicais, como ele chamava esses pequenos consertos que fazia pela casa, sempre aos domingos, pois era quando tinha tempo.
Olhou para o varal: estava todo embolado. Era um desses varais sofisticados com duas peças de plástico em cada ponta. Uma mesma linha ia e voltava de uma peça para a outra formando 5 varais. Com a última chuva, as linhas haviam se enrolado.
Leonardo, primeiro, desmontou as peças de plástico para soltar as linhas e fez a primeira constatação: as linhas estavam amarradas com nós. Cegos.
- Tânia! - gritou - será que você consegue soltar esses nós?
- Nem vem! - ela respondia também gritando lá de dentro - Fiz a unha ontem...
Leonardo pensava e não via outra saída: teria que cortar as linhas para conseguir arrumar o varal. Puxou novamente as peças de plástico para perto de onde ficavam fixadas e calculou a distância e o tanto de corda que precisaria. Ainda tentou mais uma vez soltar os nós. Usou as unhas, depois os dentes, e, finalmente, já estava futucando entre o nó com o canivete suiço que seu pai havia lhe dado. Nada! Os nós estavam mesmo muito apertados.
É, vou ter que cortar, pensou resignado. Tentou medir mais uma vez a distância entre as paredes opostas às quais ficavam fixas as peças de plástico. Não posso cortar demais, avaliava, ou vou perder a linha. Pegou o canivete, respirou fundo e...
- Seja o que Deus quiser!
Depois de cortar as linhas, tudo ficou mais fácil. Passou a primeira volta, fazendo o primeiro varal, passou a segunda, a terceira, a quarta e...
- Merda!
Havia cortado demais. A linha agora não era suficiente para formar 5 varais.
- Que foi? Por que cê já tá bufando? - era Tânia que havia ouvido o sonoro "merda" de Leonardo.
- Cortei demais a porra da linha.
- Pois é. Você devia ter analisado melhor. Não tem como emendar esse tipo de linha.

Quando a ação é definitiva, pensar duas vezes não é o bastante.

1.12.07

Malditos Sapatos

Lucas se levantou naquela segunda-feira muito calmo. Não havia marcado nada para aquela manhã. Era muito bom poder se levantar sem a sensação de estar perdendo a hora. Começou a visualizar todo o seu dia, as tarefas que o aguardavam.
Escovou os dentes e pegou o primeiro par de sapatos que alcançou dentro de sua sapateira. Sentou na beirada da cama para colocá-los e os sentiu apertar.
- Ah, vai esse mesmo!
Indo para a cozinha, começou a ficar agitado, topou o joelho contra a quina do sofá.
- Caralho!
Teve que se sentar para se recuperar da dor. Nem bem colocou a bunda no sofá, deu um salto. Tô perdendo tempo, pensou. E foi para a cozinha.
Sacudiu a garrafa de café e viu que havia sobrado um pouco do café feito no dia anterior. Posso esquentar com o leite no micro, resolveu. Pegou uma caneca e colocou um pouco de leite. Depois pegou a garrafa de café e completou a caneca com...
- Água! Que porra é essa?
Só então se lembrou que havia colocado água na garrafa na noite anterior, uma mania herdada do avô que dizia ser bom para manter a garrafa limpa. Desistiu do café. Pegou o paletó e desceu para a garagem.
Dentro do carro, andou cerca de 500 metros e empacou: o trânsito. Não conseguia parar de olhar para o relógio. A mão apertava a buzina freneticamente. Resolveu dar uma checada no visual. Ajustou o retrovisor em direção ao rosto:
- Cacete! Esqueci de fazer a barba.
Um hora depois, Lucas já estava na frente do computador. Lia e relia relatórios. A fome apertou. Resolveu tomar um café. Encontrou com Cibele no caminho para a máquina.
- Olá!
- Oi. Tudo bom? - ele disse sem olhar de verdade para Cibele.
Não que ele precisasse olhar para se lembrar do quanto seu rosto era perfeito, assim como seu corpo.
Cibele o seguia até a máquina de café e falava algo sobre o que havia feito no fim de semana, mas Lucas não a ouvia. Conseguia apenas ouvir seu estômago roncando e sentir o sapatos apertarem seus pés. Esperou a máquina encher seu copo e, desatento, se virou e acertou com o copo o corpo de Cibele.
- Caracas! Desculpa, por favor.
- Tá tudo bem. - ela disse fria, e foi para o banheiro se limpar.
Decidiu que o melhor a fazer era se sentar e esperar o dia passar. Assim, pelo menos os pés descansavam.
O escritório estava em reforma e haviam várias caixas sobre as mesas. Até o computador de Lucas teve que ser reposicionado para dar espaço para algumas caixas. Lucas era obrigado a se sentar meio de lado na cadeira para alcançar o teclado e precisava digitar vários relatórios. Com menos de meia hora teclando seus pulsos já doíam.
No fim do dia, Lucas, aliviado e cansado, tirava o paletó da cadeira para ir embora. Na entrada do elevador ainda se esbarrou com Solange, a gordinha espaçosa que trabalhava no almoxarifado.
- Oi pra você também.
- Foi mal.
Solange simplesmente grunhou e seguiu seu caminho. Lucas mal podia esperar para chegar em casa.
Dentro do escritório, Lucas nem percebia se era dia ou noite, e agora saindo do prédio, tinha uma grande surpresa: chuva. Mas não uma chuvinha qualquer, um pé d'água. E, claro, Lucas não havia pegado seu guarda-chuva.
- O jeito é correr. - e disparou.
O carro de Lucas ficava estacionado em um estacionamento a uns 500 metros do prédio onde trabalhava. Lucas corria, mas seus pés doíam a cada passo.
Finalmente, chegou ao carro. Tirou o paletó e a gravata. Tirou a camisa e colocou-a sob sua bunda para evitar molhar mais o assento. Tirou os sapatos e sentiu o alívio. Sorriu. Girou a chave na ignição, e, antes de sair do estacionamento, parou ao lado de um contêiner de lixo. Abriu a janela, jogou os sapatos dentro do contêiner, fechou a janela, ligou o rádio e foi embora cantarolando.