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3.7.15

500 Anos

Você se lembra dos 500 anos do Brasil? Eu não. Por que eu sou brasileiro, eu não desisto nunca. Mas tenho memória curta. E se eu fosse Mané das Bandêra eu fazia um poeminha. Talvez em alemão. Why not?
Mas agora né o Mané que eu quero lembrar. É o Vinícius. O bom cronista faz crônica até sobre a cadeira.
Mas bão mesmo é escrever sobre insights.
Eu acho que tive vários insights esses dias. Friso: eu acho.
O problema é que agora não lembro de nenhum em particular para compartilhar comigo mesmo. Digo comigo mesmo por que no fim das contas eu descobri que essas coisas pseudo-artísticas que faço são pra mim mesmo. Uma masturbação que não envolve sexo.
De qualquer maneira fico feliz em ter redescoberto esse canal e saído mais uma vez da inércia. Taí um bom tema pra essa crônica.
Acho que eu começo as coisas e nunca termino pra não perder essa coisa de sair da inércia. Eu gosto de sair da inércia, seja ela estática ou dinâmica. Se eu tô de um jeito quero logo ir pro outro. Se eu tô parado, quero andar. Se tô andando, quero parar.
Putz! Que insight! Que bom que tive esse insight. Insight parece ser uma coisa boa pra gente não correr o risco de se enquadrar em um transtorno mental.

Hehehe

Good night. Glad I'm back pra mim mesmo.

Chupa, todo mundo que não sou eu.

9.12.13

O Primo

Fazia muito tempo que eu não o via. Muito tempo mesmo. Uns 5 anos no mínimo. Eu ainda estava no ensino médio. Nós sempre tivemos uma ligação muito forte. Um carinho especial um pelo outro. Quando convivíamos mais, na época em que tanto ele quanto eu ainda morávamos com nossos pais, a gente vivia grudado. Na minha festa de 15 anos, dancei com ele antes de dançar com meu namorado. Foi até um acidente. Mas foi ótimo por que, eu não pensava nisso na época, ele estaria sempre na minha vida. Ele era da minha família. O engraçado é que o meu namorico acabou naquele ano mesmo. Na festa, na hora da valsa com o namorado, eu não consegui encontrar o menino, e meu primo tava ali rindo da minha cara. Peguei ele pela mão e puxei pro centro da pista. “Cala a boca e faz cara de apaixonado.” Ele fez cara de assustado. Embora eu fosse mais nova e menor que ele, eu batia muito nele.
Eu estava no computador, revezando entre o facebook e o livro na minha mão que eu precisava resumir. Aí ele apareceu. Falando que minha tia ia vir pra minha cidade e ele viria com ela. “Você me leva pra sair sábado?”
Meu namorado morava em outra cidade. Parece que meu primo sabia estar onde os meus namorados não estavam. Na mesma hora, já combinei com a menina com quem eu morava de fazermos alguma coisa no fim de semana.
Ele chegou no sábado na hora do almoço. Tivemos um tempo para colocar a fofoca em dia, por que a menina que morava comigo teria prova na segunda e queria dar uma estudada durante o dia para sair sem culpa à noite. 
Eu sempre achei ele bonito. A gente até era bem maduro por que eu sempre lembro de conversar com ele e falar pra ele que era lindo. E ele também falava pra mim. E a gente ficava numa boa, sem climinha, sem ciúmes. Ficava numa boa. A gente não ficava. Entendeu?
Quando eu vi ele descendo do táxi com minha tia, ele parecia outra pessoa. Ele exalava masculinidade, com a barba por fazer, os cabelos do peito se projetando por cima da gola da camisa. Minha tia me deu um beijo rápido. Ela viera para visitar uma amiga no hospital e não poderia almoçar com a gente, provavelmente dormiria no hospital. Eu e ele fomos direto pra um restaurante que eu gostava, perto da minha casa.
“E aí? Eu vi as fotos da sua namorada. Ela é muito bonita.” Ele deu um risinho arteiro. “Cê não sabe o que eu fiz? Eu peguei uma menina na semana passada.”
Na mesma hora foi como se o chão se abrisse embaixo dos meus pés. "Meu mundo caiu..." Eu fiquei horrorizada. Xinguei muito. Como ele podia ter feito aquilo? E ainda me contar com aquela cara lavada? Aquela cara de menino sapeca? Aquele sorriso maravilhoso com aqueles dentes perfeitos? Parece que isso era uma coisa que gerava um sentimento muito ambíguo dentro de mim. Desde pequeno ele conseguia me fazer gostar mais dele quando fazia alguma coisa errada e ria, como se aquilo não fosse nada. Eu nunca tinha percebido isso. Até agora. Falar em voz alta me fez perceber isso. É assim mesmo que isso funciona?
Eu nem lembro dos detalhes. Nem lembro o nome da namorada dele mais. Também, isso foi há tanto tempo. Mas eu me lembro de ficar puta com ele, decepcionada. Parecia que eu que tinha sido traída. Eu sempre colocava ele numa aura de perfeição, mesmo sabendo muito bem que ele não era perfeito. 
Tomei um gole do suco e fui ao banheiro. E foi ali que senti alguma coisa diferente, que eu não conseguia acessar na hora. Parecia que eu tinha recebido uma boa notícia. Me deu uma vontade de rir incontrolável. E eu ri muito e depois chorei um pouquinho, por não entender o que estava acontecendo, o que eu estava sentindo. Acho que foi isso. 
Voltei pra mesa e tentei ser racional. Falei pra ele que eu tava muito decepcionada, mas que eu não tinha nada a ver com aquilo. Terminamos de almoçar e fomos dar uma volta no parque.
Durante toda a tarde -- depois do parque fomos ao shopping -- eu ficava olhando pra ele, observando como ele se comportava. Quando passava alguma mulher bonita, a maneira que olhava. Era discreto e ao mesmo tempo firme. Era quase imperceptível pra quem não estivesse prestando muita atenção. Mas pra mim... Eu pensava que ele era um tarado. Será que ele sustenta toda essa azaração? Será que se alguma dessas mulheres der mole, ele pega também? Será que se eu olhar pra ele assim, ele vai querer me pegar? Será que ele olhava assim mesmo pra todas essas mulheres ou era eu que via aquilo? Minha cabeça tava completamente zonza. 
No momento que eu não tava mais aguentando, a menina que morava comigo apareceu. Ela me salvou e nunca soube. Quando ela chegou os dois começaram a conversar. Meu primo era excessivamente sociável e ela era daquelas pessoas que conversam sobre qualquer assunto. Tive tempo pra respirar. Fui no banheiro, dei uma volta. Recebi uma mensagem do meu namorado. Nem lembro o que dizia, mas não respondi. Aquela mensagem parecia vir de uma outra dimensão, para um outro destinatário, uma outra eu que não aquela eu daquela hora. Acho que é o Nietzsche que disse uma vez que o mesmo homem nunca entra no mesmo rio duas vezes. Se não foi ele, foi alguém tão importante quanto ele. Nunca gostei muito desses filósofos. Só gosto das coisas que eles escreveram. 
O fato é que eu me sentia como se tivesse ido dar uma voltinha fora do rio. Fiquei calada o resto do dia. De vez em quando eu reprimia ele pelas coisas que ele falava. Tudo que ele falava me dava margem a uma interpretação que me fazia me sentir no direito de julgá-lo. Climão. Climão pesado.
Mas à noite, tudo melhorou. O que não melhora com vodka? A gente saiu prum barzinho e depois foi dançar. E eu relaxei. Ninguém flertou com ninguém. Ficamos os três lá como se só a gente existisse na balada. Parecia que a gente tinha voltado a ser criança. A gente tava brincando na pista, zoando, rindo. Fomos embora muito depois das 4 da manhã.
Meu primo ia dormir na sala. Eu ia dormir no quarto da menina que morava comigo e a minha tia já estava dormindo no meu quarto. A menina dormiu muito rápido e começou a roncar. Eu não conseguia dormir. Tava muito quente, insuportável, mesmo com o ventilador ligado. Levantei pra beber água.
A cozinha tinha duas portas. Uma que dava para os quartos e outra que dava para a sala. 
Assim que eu entrei, ele também vinha da sala. Entramos exatamente no mesmo segundo. Ficamos ali um tempo. Um segundo, um minuto, meia hora, não sei. Mas teve um tempo em que o tempo parou. Ficamos nos olhando de longe, sem dizer nada. E, de repente, avançamos em direção um do outro. Ele me agarrou. Forte. Agressivo. Colocou as duas mãos dentro do meu short, apertando a minha bunda com força. Eu puxava ele pra mais perto. Queria sentir fisicamente a presença do corpo dele.
Foi só aquela noite. No chão da cozinha. Sem camisinha. Morri de medo de engravidar. Como se não bastasse os transtornos óbvios que uma gravidez naquelas condições geraria, ele era meu primo!
A gente voltou a se falar mais. Pelo facebook, por mensagem, pelo telefone também. Nunca sobre o que tinha acontecido no chão da cozinha. Durante alguns dias parei de criticá-lo por ter ficado com outra menina. Me sentia uma hipócrita. 

Mas é muito fácil esquecer a nossa própria hipocrisia.

Acho que meu tempo acabou, né?

Dedico esse texto ao fescenino Ruben Fonseca e ao transgressor da moral e dos bons costumes ditados pela família cristã brasileira Nelson Rodrigues. 

 Dedico também ao assassino da família mineira Lúcio Cardoso.
Eles me aliviam um pouco da culpa de escrever sobre temas tão condenáveis... Quem ficou de pipiu duro levanta a mão?
Dedico ainda ao Navarro por ser tão subversivo quanto eu (ou mais?) e por ter me apresentado o seriado In Treatment, no qual eu obviamente me inspirei para escrever esse texto.

31.12.11

Ano Novo

Então, às margens do novo ano, vou escrever sobre... sobre... é...
Eu pensei em fazer um texto sobre resoluções de ano novo. Mas desisti. A coisa mais bacana sobre resoluções de ano novo que vi esse ano (tá acabando) foi um cara que disse que a resolução dele seria 1280x1024. Entenderam?
Enfim, não vou escrever sobre resoluções. Tô mimado hoje. Vou escrever sobre o que eu quero pra "esse novo ano que se inicia" (quantas vezes você já ouviu/leu essa frase? e o pleonasmosinho?).
Bom, uma coisa que eu queria muito, de verdade mesmo, é que minha irmã ganhasse a mega da virada. É, por que ela joga. Eu, nem isso. E como eu não jogo, se ela ganha, é o melhor que pode me acontecer. Se o raio não pode cair em cima de mim que pelo menos caia próximo. E como é muita grana e eu resolvi estudar de novo, eu tenho certeza que ia sobrar um troquinho pra mim, ela vai investir no futuro da saúde do país.
Outra coisa que eu queria é que os professores fossem melhor... mais bem... caraca, não sei como diz isso... fossem mais valorizados. Eu li uma reportagem na Veja esses dias falando sobre o sistema de educação da China. Não que eu acredite em tudo o que a Veja diz, muito pelo contrário (não consigo dizer isso sem pensar em penteados...). Inclusive eu tava conversando com meu pai sobre esse meu ceticismo midiático. Ele tava falando/reclamando que eu não acredito em nada, não acredito na Veja, na Globo, etc. E eu disse que não é questão de não acreditar. Eu estudei jornalismo durante três anos. Conheço alguns jornalistas que já trabalharam ou trabalham para meios de comunicação de vulto (editora Abril, Globo, TV Senado, Radiobrás - hein?). Assim sendo, tenho meus motivos para desconfiar. De forma que vejo tudo como uma opinião, um mero ponto de vista. O que eles ensinam na faculdade de jornalismo é que o jornalista não pode ter opinião. O jornalista tem que apenas apresentar os fatos. É claro que as coisas não funcionam assim. O jornalista tem que escrever de maneira que aparente não ser opinião (com exceção dos editoriais). E aí eu leio ou ouço alguma coisa e só acredito se tiver informações de outras fontes que corroborem o que foi dito. Mas, como é de meu costume, estou digredindo. Voltemos à reportagem da Veja sobre a educação na China. Não sei se é daquele jeito mesmo, mas se for, o Brasil (e o mundo Ocidental) tem muito que aprender com eles. Não vou me alongar aqui, mas basta dizer que, segundo a reportagem, o investimento principal lá é feito no profissional à frente da coisa: o professor (You don't say!). Aqui a gente vê muita escola particular se gabando das excelentes instalações. Tem escola que tem quadro/lousa digital. Tem escola em que todo aluno tem iPad. E algumas escolas têm bons professores. E na escola pública, nem isso tem. Na China (e agora vou assumir que vocês já entenderam que todas as afirmações que eu fizer sobre o assunto se baseiam no que li na reportagem) é um professor bem preparado, uma sala de aula e um quadro/lousa (de escrever em cima mesmo). E as salas não são pequenas. O Brasil tem mania de pensar a curto prazo. Há uns 500 anos o país não perde essa mania. E a bem falada democracia não ajudou nisso. Essa história de mandato de 4 anos, com os políticos daqui, faz com que todo projeto dure no máximo 3 anos. Por que o quarto ano eles gastam (tempo e dinheiro público) para se reeleger ou eleger alguém de sua laia. E um sistema educacional sério não se estabelece em 4 anos. Chega disso.
Sabe outra coisa que eu queria para o próximo ano? Que acabassem as propagandas, os comerciais. É, a única propaganda seria a boca-a-boca. No máximo as empresas poderiam dizer aos potenciais clientes que elas existem e que oferecem o produto ou serviço que eles procuram. Conversando com meu pai sobre isso, ele disse que não seria bom, pois teríamos que pagar para ter acesso a programas de televisão, por exemplo. Uai, a única coisa que mudaria nisso é que esse relacionamento televisão/telespectador seria mais honesto. Nós já pagamos para assistir o que passa na TV, ao consumirmos tudo que é anunciado nos intervalos comerciais sem refletir se precisamos daquilo de verdade ou não.
Ah, vamos voltar na política! Quando o Zé Dirceu rodou, todo dia o Jô entrevistava algum político. Entrevistava um tucano num dia, um petista no outro. Um dia ele entrevistou o Mercadante e o então Senador, que não tem nem mesmo minha empatia, disse algo interessante. Eu vou pegar a idéia dele e adaptar um pouquinho por que não lembro exatamente o que ele disse e o que eu inventei. Mas imagina se os candidatos não pudessem produzir suas campanhas. Imagina se a gente pegasse uma equipe de TV que ficasse à disposição dos candidatos no horário em que o horário político passasse na TV para filmá-los ao vivo sem vinhetinha, sem equipe de backstage, para que eles falassem de suas propostas. E mais, imagina que todos os candidatos a uma determinada vaga tivessem direito a falar pelo mesmo tempo, independente do tamanho do partido (ou de sua conta bancária).
Eu li um trem esses dias que achei muito engraçado e muito verdadeiro: se o voto mudasse alguma coisa, seria proibido.
Ufa! Acho que é isso que quero para o ano que vem, além dos deliciosos clichés ("muito dinheiro no bolso / saúde pra dar e vender...").

5, 4, 3, 2...

22.8.11

Coisas Que Não Entendo

Sobre Coisas que Eu Não Entendo: Política e Economia

Eu não entendo nada de política. Confundo legislativo com executivo e judiciário pra mim é um bando de homem com roupa engraçada e fala pomposa. Não entendo também de economia em larga escala. Jamais poderia auditar as contas do município ou do estado. Que dirá da nação!
Minha culpa, minha máxima culpa. Nunca gostei muito de estudar. Nunca fui atrás de entender as coisas, sabe? Minha culpa ou mea culpa ou meia culpa. (Problem, sistema educacional?) É que, pensando bem, depois que eu decidi entrar na faculdade de medicina, eu comecei a estudar mais sério. Mas, cá entre nós, o que a gente aprende na escola no Brasil? O que nos exigem para entrar numa faculdade? Aprende a fazer conta, aprende a ler e escrever... tá certo que dá pra conseguir um diploma de segundo grau, digo, de ensino médio, sem ter aprendido nada. Todo mundo sabe disso. Bom, mas voltemos pra o que a gente "aprende". Aprende, digo, desculpem, não aprendemos história e geografia. Não, não mesmo. Saber que a capital do Brasil não é Buenos Aires não é saber geografia. Saber que quem descobriu o Brasil não foi Cristovão Colombo não é história. Me disseram, quando decidi estudar pra passar no vestibular, que eu teria que ler o Le Monde Diplomatique. Que nada. Assiste o Jornal Nacional uma vez por semana que tá bom demais. No fim, é tudo bitolar. A gente tem que bitolar (os mais jovens que procurem o Aurélio ou o Houaiss para maiores explicações) pra passar no vestibular. O que nos afasta cada vez mais de entender o que acontece por aí. Mas, estou digredindo, como sempre faço quando escrevo. É um tipo de hobby eu acho.
O que eu quero dizer é que, mesmo que eu tivesse sido um bom aluno, um cara interessado, um cara curioso, um cara de iniciativa ("um cara interessante, esculacho seu amante"), a escola não teria me ajudado em nada para que eu entendesse como funciona essa coisa de política e de economia. Eu poderia ter aprendido se eu tivesse corrido atrás. Mas a escola não teria tido nada a ver com isso.
Eu não sou o melhor exemplo disso, sabe? Nem disso nem de nada. Eu sou provavelmente o cara mais velho que estuda medicina na Universidade Federal de São João del-Rei e, muitas vezes, me pego pensando que sou um dos mais imaturos e ignorantes. O pessoal de vez em quando me chama pra entrar no CA. Imagina, eu no CA. Tá de sacanagem, né? Eu não vou nem em reunião de condomínio, só pra se ter uma idéia da minha apolitização (o termo existe?).
Agora, mesmo um cara ignorante como eu percebe que alguma coisa vai mal, muito mal por aqui. Há sim algo de podre no reino Tupiniquim. Não é estranho que os caras que decidem o salário de todo mundo tenham os maiores salários e os melhores aumentos (sem mencionar os benefícios: PODER)? Não é estranho já ser até um cliché dizer que um país só cresce com educação de qualidade e os professores do estado e da federação, tanto da base quanto de nível superior, terem salário pífios? Roberto Freire já falou. Cristovam Buarque já falou. Porra, até o Gabriel Pensador já falou. ("O Nietzsche enloqueceu e eu não vou nada bem...") E tá na boca do povo. Ou você pensa que o povo acha que a vida vai melhorar depois da Copa 2014? Ou depois das Olimpíadas no Rio? Vai ser divertido. Ah, isso vai! Imagina, assistir de pertinho uma partida entre Espanha e Alemanha. Isso sim é que é futebol! Imagina ver o Usain Bolt quebrando o recorde dos 100m debaixo do seu nariz? Mas, será que o povo vai ter grana para pagar pelos ingressos? Os professores certamente não. Afinal, eles são professores por que amam o que fazem, né? Mas vai dar pra galera levantar um din-din legal vendendo cerveja e tropero na porta dos estádios, alugando seus quartos, salas e banheiros pra gringaiada.
Mas e a conta disso tudo? A conta do estádio do Corinthians? A conta da reforma do Mineirão? A conta de botar os aeroportos funcionando a contento? A conta de se erguer um setor hoteleiro que dê conta do recado? A conta de botar uma rede de transportes que funcione? Quem paga?

É nóis, mano.

E quem vai lucrar com isso? Te garanto que os vendedores de cerveja e tropero serão os menos beneficiados dentro do rol seleto daqueles que o serão.
Mas e se esse esforço todo que tão fazendo, desde não sei quando, para trazer Copa e Olimpíadas pra cá, fosse direcionado para a educação? Será que mudaria alguma coisa? Será que as federais estariam "ameaçando" greve? Será que assistiríamos desabafos eloquentes como o da professora Amanda Gurgel (quem ainda não viu, procure no YouTube. É de arrepiar!) ou textos pseudo-politizados como esse que escrevo (que não mudam nada, diga-se de passagem)? Será que sobraria verba para ensinar sobre politica e economia nas escolas?

Eu não sei. Não entendo nada de política ou de economia.

20.8.11

Cliente Especial

Cliente Especial

Era um dia calmo. Ela não sabia dizer quantos haviam passado por ali. Não contava e nem saberia estimar quantos. Mas sentia, sabia dizer quando era um dia calmo e quando não. Percebia pelo espaço de tempo entre um e outro que entravam no seu quarto, pelo trânsito nos corredores e, principalmente, pelo cheiro no ar. O cheiro mudava muito em dias de mais movimento. Ela não diria que o cheiro era pior: já havia se acostumado e era indiferente a ele. Mas percebia que ele se intensificava.
Um homem se aproximou:
- Quanto é?
- Trinta. - respondeu sem levantar os olhos do livro que lia.
Ela não precisava. Sabia exatamente como ele era. Não por fora. Ele poderia ser alto ou baixo, magro ou gordo. Por dentro, no entanto, todos eram iguais.
- Ok. Vamos. - disse homem com voz hesitante.
Fechou a porta encerrando-se com aquele joão ninguém em seu quarto. Colocou o livro sobre a cômoda e disse a ele que tirasse a roupa enquanto ela fazia o mesmo. Para ela, obviamente, era muito mais rápido já que vestia apenas um shortinho e um top, sem calcinha nem sutiã. Deu uma olhada para trás, enquanto abria o pacotinho com os dentes, e viu o homem se despindo enquanto olhava para ela como se visse uma miragem. Finalmente ele se deitou na cama. Ela veio por cima e levou menos tempo para terminar com ele do que ele precisou para se vestir outra vez. O homem pegou o dinheiro na carteira, entregou a ela e se foi.
- Obrigada.
Voltou a seu livro depois de se vestir novamente, mas antes mesmo que terminasse a primeira linha, sentiu que outro homem a observava à porta. Sua presença era diferente. Ele não disse nada. Apenas a olhava. Seus olhos pareciam atravessá-la ao meio. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele entrou no quarto também, empurrando-a para perto da cama. Ela não sabia o que estava acontecendo, não compreendia. Instintivamente foi até a cômoda para colocar o livro sobre o móvel, colocando-se de costas para ele. Tentava ganhar tempo. Tempo pra quê? O que exatamente estava acontecendo? Antes que pudesse fazê-lo, sentiu um aperto firme em seu braço esquerdo que a obrigava a dar meia volta e encará-lo novamente. O livro foi parar no chão. Ela teve ímpetos de gritar, mas antes disso, a outra mão do homem agarrava seu outro braço e o corpo dela era levado para junto do corpo dele. O beijo aconteceu como se não houvesse outro caminho, como se não houvesse outra alternativa. Não havia outra alternativa. Seus lábios já estavam sendo apertados contra os dele. Ele a segurava firmemente, porém sem a machucar. A língua do homem dentro de sua boca acariciava a sua, e corria para os lábios e voltava para a língua... A partir desse momento ela estava em transe. Sabia que, mesmo se tivesse vontade de lutar, ele a subjugaria. Ele era enorme. Ele poderia subjugar exércitos de mulheres como ela. De qualquer maneira, ela não sentia nenhuma vontade de lutar agora. Se deixou guiar por aquelas mãos grandes e fortes que a manipulavam como a uma bonequinha. Sua vontade era agora a vontade que ele quisesse. Caída na cama, já estava nua. Ele, ainda em pé, a observava enquanto também se despia. Ela também o observava e nem se lembrava de onde estava, ou por que estava ali. Não conseguiu absorver racionalmente o que aconteceu depois disso. Lembrou-se durante muito tempo do momento em que seus corpos se encaixaram, mas todo o resto era como um sonho daqueles de que nos lembramos apenas de trechos soltos. Lembrou-se de vê-lo abotoando a calça, colocando o dinheiro sobre a cômoda e dizendo:
- Eu volto.
Dessa vez ela não teve forças para agradecer. Adormeceu.

27.7.11

Vida de Entrega

Vida de Entrega

O bichinho foi pego indefeso pelo rabo e suspendido, apartado de seus irmãozinhos gêmeos. Somavam 25 ao todo. Não mais. Agora eram 24. E ele era apenas um. O primeiro deles condenado à morte, ainda que uma morte incerta. Não que sua vida fosse muito excitante: passava, e passara, todos os dias de sua vida em um recipiente de plástico branco, forrado com serragem, que mal continha ele e seus 24 irmãos. Era bem verdade que não podia reclamar de falta de recursos: havia sempre água fresca e comida mais que suficiente para toda a família, ainda que a água tivesse que ser acessada por um de cada vez. A água era trazida por um tubo metálico que penetrava o recipiente que tinham por lar. Além de recursos, ainda que o espaço fosse pouco, era possível se exercitar. Em realidade, era necessário certo exercício para se alimentar e para ter acesso à água. Os pequenos se agarravam à grade que encerrava a parte de cima de sua residência. Os mais habilidosos (e ousados!) usavam apenas as patinhas dianteiras para tal. Observá-los se alimentarem era como um número do Cirque du Soleil em miniatura. Mas para ele, tudo se encerrava ali. Sentia a pele de suas costas e seu rabo presos de maneira que não podia fazer nada, a não ser emitir seus guinchinhos desesperados. A agulha, de espessura muito maior que qualquer um de seus dentes, penetrou a pele de seu abdome e peritôneo, infundindo em seu pequeno corpinho algo que ele agradecia não saber o que era. Em seguida, ele foi colocado em um recipiente menor, porém muito parecido com aquele no qual vivera até aquele dia. Água e comida lhe era ofertada da mesma maneira. Só que agora com exclusividade. Mas não tinha fome, nem sede. Sentia apenas medo. O que aconteceria em seguida? Sentiria dor? Ou simplesmente morreria em seu sono, com tranquilidade? Era impossível prever. E revisitar as histórias que ouvira durante toda sua vida só o torturava mais. Resolveu tentar se acalmar e dormir um pouco. Não restava mais nada a fazer além de esperar. Tudo pela ciência.

26.5.11

Sapatos



Tudo em sua vida parecia mais fácil. A sensação de relaxamento era indescritível. Todo seu corpo parecia sorrir e se soltar, se derreter e se esparramar naquele assento vermelho. Tudo isso graças ao simples fato de ter tirado os sapatos. Não, não era a postura mais ortodoxa a se tomar para assistir uma palestra. Mas ele não resistira. Havia passado todo o dia calçado, vestido, devidamente paramentado para exercer cada uma de suas funções, sentado ou caminhando de um lado para o outro. E seus sapatos não eram desconfortáveis. Ele até gostava de calçá-los pela manhã. Tinha mesmo certa alegria de calçá-los. Se sentia charmoso, bem cuidado, até querido calçando aqueles sapatos. Mas no final do dia, invariavelmente, queria se livrar deles o quanto antes. Chegava a pensar em arremessá-los pela janela da sala quando entrava em casa. Lembrava-se que quando criança não entendia sua mãe chegando em casa e dizendo que os sapatos a estavam "matando." Por que então ela os calçava todos os dias? Seu pai era ainda mais engraçado. Chegava em casa, sentava-se no sofá e tirava os sapatos com um suspiro delicioso. Seu pai demonstrava tanto prazer em tirar os sapatos que sua versão menino fazia de tudo para estar por perto nessas ocasiões. Ainda muito criança tinha propensões a ser filósofo e pensava, tentava entender, se era tão bom no fim do dia tirar os sapatos, as pessoas deveriam procurar sapatos mais desconfortáveis para usar durante o dia. Segundo sua lógica, dessa maneira, o prazer seria ainda maior ao descalçá-los. Já homem feito, a idéia ainda não lhe parecia de todo absurdo, embora jamais tivesse procurado sapatos desconfortáveis. Agora, sentado na poltrona vermelha, não se importava com os olhares reprovadores, ou apenas curiosos, mirando seus pés cobertos somente por meias. Sorria e saboreava a sensação de liberdade.

8.4.11

Inteligência

Lidando Com o Inesperado

Quando eu era pequeno, a gente brincava na rua de pique-pega, pega-ladrão, esses jogos de correr... e a gente podia pedir "altas". Isso significava uma pausa, um tempo pra descansar. Tá certo que quem não tinha pedido a tal das "altas" não curtia muito. O resto da criançada ficava meio de nariz torcido quando alguém pedia, mas, ainda assim era legítimo. Sem necessariamente a gente perceber pedíamos um tempo pra pensar, um tempo pra repensar estratégias e redesenhá-las. Era um tempo pra respirar, retomar o fôlego e voltar pro jogo.
Hoje, infelizmente, não rola mais isso. Não dá mais pra pedir "altas".
Muitas vezes percebemos que o jogo não nos é favorável e não temos outra alternativa a não ser seguir jogando. Nossas estratégias têm que ser redefinidas em meio à turbulência da coisa toda. É como consertar um avião em pleno vôo.
Algumas pessoas não foram treinadas a lidar com o inesperado (acho que sou uma delas). Às vezes, acho que o problema é ser rejeitado. Mas ser rejeitado é só uma forma de se deparar com o inesperado. Quando você quer alguém ou alguma coisa, você espera (nos dois sentidos) que a pessoa (ou a coisa, metaforicamente falando) te queira também. E quando a pessoa querida (ou a coisa, de novo, metaforicamente) te diz que não te quer é um choque, uma surpresa: inesperado. A rejeição frustra uma série de planos que você fez, sem mesmo perceber, no momento em que você decidiu que queria aquela pessoa ou coisa.
Adianta sentar e chorar? Em geral, na vida adulta não. E por isso a gente sente saudade do colinho da mamãe... :)
Fazer o quê? Dançar conforme a música. Temos que aprender a consertar o avião em pleno vôo. E quem tem filho aí, pelamordedeus, propicie momentos assim na infância dos pequenos para que eles treinem.
Um dia eu estava na casa de um amigo. Sua filha, na época estava começando a querer andar, mas ainda tinha mais intimidade com o andar de gatinho. Ela nos seguia por toda a casa. Quando passávamos da sala de estar para a varanda, havia uma porta de correr, com trilho. Quando a pequena passava de gatinho por cima do trilho, seus joelhinhos rechonchudos doíam. E ela logo desenvolveu uma "técnica" para evitar isso. Ela se esticava toda, usando os pés como apoio traseiro, ao invés dos joelhos. Ela aprendeu a lidar com inesperado ali. Foi uma cena linda de se ver.

7.2.11

Metrossexual

Metrossexualidade Imposta

Deitado, depois do almoço, pensava e tentava se decidir: vejo um filme, leio um livro... nada. Deixou aquela preguiça gostosa do período absortivo tomar conta da carcaça e foi perdendo a consciência devagarinho. Ela estava por ali, mexendo em alguma coisa, com os óculos que odiava e, por isso, só usava em momentos de grande intimidade, como aquele.
Ele sentiu, quase sem entender, no meio daquela obnubilação da siesta, que ela se aproximava. Sentiu que ela se deitava sobre seu corpo, bem lentamente, sem fazer barulho. Talvez ela quisesse se sentir próxima a ele, talvez quisesse sentir mais uma vez o calor do corpo dele, talvez simplesmente quisesse participar daquele cochilinho nos braços dele, talvez ela quisesse que o cochilinho se transformasse em outra coisa... Mas ele nem se deu ao trabalho de abrir os olhos, tamanha era a preguiça e embora sua mente já sorrisse. Ele podia sentir o cheiro do corpo dela, ouvir a respiração lenta e bem ritmada.
- Você já pensou em tirar esse fiozinhos entre as duas sobrancelhas?
Acordou de um susto!
- Hein? Nem vem. Sai pra lá.
Tentou esquivar, tentou se levantar, mas já era tarde demais. Ela estava deitada inteira sobre o corpo dele e já tinha nas mãos a maldita pinça. Ele lutava, sem muito jeito, jamais teria coragem de reagir fisicamente a qualquer coisa que ela fizesse.
- Você vai ficar mais lindo. Todo mundo faz isso hoje em dia, sabia?
E ele choramingava e se debatia enquanto ela continuava argumentando e puxando aqueles pelinhos que ele próprio jamais percebera a existência. Ele dizia que era homem e que homens não faziam a sobrancelha.
- Ai, que troglodita você! A sua masculinidade não está nesses pelinhos não, viu? Agora fica quietinho que eu tô quase terminando.
Ele continuou choramingando e ela argumentando, carinhosa, porém firme.
- Pronto! Ficou lindo! Quer que eu pegue o espelho pra você ver?
Ela correu até o banheiro. Ele permaneceu na cama, encolhido, com as pernas abraçadas por seus próprios braços, os olhos arregalados. Sabia que jamais sua vida voltaria a ser a mesma.

14.12.10

Linha Cruzada

Linha Cruzada

Linha 1
Os dois iriam estudar. Era esse o plano mesmo. Não era nenhum tipo de pretexto. Sentaram-se no chão da sala com livros e cadernos espalhados ao redor. O ventilador ronronando no fundo.Os pais dela terminavam os últimos preparativos para partir. Passariam o fim de semana fora. Finalmente terminaram de colocar as malas no carro e vieram se despedir da filha querida: tranque as portas, alimente-se direito, mantenha seu celular carregado, beijo, fica com Deus. O pai dela ainda hesitou à porta. Mas a mãe o tranquilizou. Sua filha e o colega eram apenas amigos e gostavam de estudar juntos. E se foram.
A menina e o menino se entreolharam. Estavam completamente sós. Ela pediu a ele que buscasse o colchão da cama dela. Seu bumbum começava a ficar dolorido. Ele obedeceu com um sorriso mal disfarçado no canto da boca. Sentavam-se agora no colchão. Ele perguntou se ela conseguia estudar com música e ela disse sim. De repente a voz rouca do vocalista do Maná surgia dos alto-falantes do laptop. Ele sentou-se mais perto dela e ela colocou a mão sobre a perna dele. A proximidade permitia aos dois perceberem os cheiros. Os risos começaram a ficar mais frequentes e em pouco tempo estavam se beijando. Os cadernos já estavam longe do colchão e a música os embalava.
Estavam completamente sós. O mundo fora do apartamento, fora daquela sala, não tinha a menor relevância. Eram livres.
A música continuava mansinho e eles agora simplesmente se abraçavam. Curtiam a preguiça nos braços um do outro. De repente, batidas na porta. Eram batidas leves, mas alguém tinha batido. Os dois se levantaram depressa. Quem poderia ser? O som estava baixo demais para ser um vizinho reclamão. Enquanto se decidiam entre olhar ou não olhar, mais batidas na porta. Ele desligou a música e chegou perto da porta. Via sombras que o permitiam entender que havia alguém em pé do lado de fora do apartamento. Com o dedo sobre a boca pediu silêncio a ela. Viu os pés de sombra se afastarem.
Agora os dois conversavam entre sussurros agitados. Quem poderia ser? Será que era o pai dela? Seria mesmo um vizinho?

Linha 2
Aquela noite seria perfeita. Ele conferia se tinha tudo: cerveja gelada no isopor, camisinhas. Estava tudo certo. Chegou rápido ao prédio. Ela tinha deixado a chave da portaria com ele. O combinado seria ele subir e bater de leve na porta. E tudo corria bem até que ele percebeu que não lembrava o andar. Era o terceiro ou o quarto? Subiu hesitante. Ia olhando as portas dos apartamentos pelos quais passava: eram inexplicavelmente idênticas. Chegou ao terceiro andar e hesitou. Seria o quarto andar? Lembrava-se que havia ficado bastante cansado da última vez. Deveria ser o quarto. Subiu o último lance de escadas e chegou-se junto à porta da direita. Isso ele lembrava, era a porta da direita. E se for o terceiro? E se eu bater na porta errada a essa hora da noite? Já passavam das 11! Chegou-se mais perto da porta e ficou mais tranquilo. Podia ouvir baixinho uma música do Maná. Era ela. Só podia ser ela! Bateu bem de leve na porta e esperou. Nada. Talvez ela não tenha ouvido. Bateu mais uma vez. O som foi desligado. Não havia mais música. Retirou-se na ponta dos pés. Só podia ser o apartamento errado. Nesse momento, ela surgia subindo as escadas cautelosa. Gesticulava em silêncio para que ele a seguisse. Os dois desceram as escadas, segurando o riso, até o terceiro andar.

4.12.10

Fim do Dia



Acordou cedo e se olhou no espelho. Era cedo. Mas não tanto quanto ele planejara. Ainda de pijama, foi até a cozinha e colocou água para ferver. Era muito mais água do que ele precisaria. Sempre fazia isso. Assim, teria mais tempo para trocar de roupa. De volta ao quarto, as portas do guarda-roupa já o esperavam abertas. Olhava de um lado para o outro, o monte de roupa da última passada ainda sob o velho baú no pé da cama. Era mais sensato não pegar nenhuma daquelas peças, ou elas seriam usadas mais vezes do que as que ainda estavam no guarda-roupa. Pegou qualquer coisa dentre as poucas peças que acabava sempre repetindo e retornou a cozinha para terminar de coar o café. Tomou uma xícara, acompanhada de um pão com manteiga, em pé, apoiado à pia. Estou atrasado, pensou, escovo os dentes quando chegar no escritório.

"Ele chegou não faz 5 minutos e já foi ao banheiro. Não entendo por que sempre faz isso. E sempre leva a mochila com ele. Já pensei que talvez ele escove os dentes. Mas não faz sentido. Ele entra e não come nada. Eu já vi também que ele não come por aqui por perto. Provavelmente come em casa ou não come nada. Então, não faz sentido chegar e ir para o banheiro. Todos os dias! E por que leva a mochila? O que carrega nela além do computador? Como eu queria saber!
Ah, lá vem ele de volta. A mesma cara sem expressão. Diz bom dia, mas é como se não dissesse nada."

"Ele passa a manhã em sua sala. Às vezes sai de lá e vai ao banheiro (mas sem a mochila) ou toma um café. Às vezes conversa com alguém. Já reparei que conversa muito mais com homens do que com mulheres. É isso mesmo! Acho que ele praticamente só cumprimenta as mulheres. Conversar mesmo, só com homens. Teve uma época que eu pensava que ele era gay. Mas o fato de conversar só com homens é pouco perto das secadas que eu já vi ele dando nas meninas do escritório. Parece que tem hora que ele esquece que está em público e se perde. Tem um olhar de tarado estranho. Dá a impressão que ele tá com raiva. Uma mistura de raiva e tesão. Uma coisa meio bicho, meio homem das cavernas. Confesso que isso até me excita um pouquinho. Mas é só no mundo das idéias. O conjunto da obra me espanta, me afugenta! Percebo também que ele, nas conversas com os outros caras, nunca parece relaxado, nunca parece feliz. Olha para os outros caras enquanto eles falam com a mesma cara sem expressão com que me dá bom dia. De vez em quando solta um 'an-ram'. Muito raramente diz um frase. E são frases pontuais, como que pra colocar fim na conversa. Escutei poucas vezes, mas pelo gestual, parece sempre ocorrer a mesma coisa. Ele tá saindo pra almoçar. Hoje ele vai comer hamburger. Sei disso por que é sexta-feira.
Já o segui algumas vezes. Sou muito curiosa. Admito. Às sextas ele vai sempre numa lanchonete aqui perto e pede um X-tudo. (Eu gosto de tomar um suco de laranja que vendem na padaria em frente.) Deve ser a maneira que ele encontrou de celebrar a sexta-feira. Ele também sempre pede uma cerveja. Senta lá no fundo, de costas para a porta de entrada, olhando para a parede. Come devagar e saboreia a cerveja. Também fuma um cigarro, enquanto caminha de volta para o escritório. Mas só às sextas. Ele nem tem cheiro de cigarro. As meninas do escritório até hoje não acreditam em mim. Pensam que eu confundi ele com outra pessoa. Onde já se viu alguém fumar só em um dia da semana?"

Conseguia até sentir certo prazer no cigarro. Mas sabia dos danos que poderia causar. E ele precisava viver muitos anos para recompensar a família por tê-lo sustentado durante os primeiros 25 anos de sua vida. Então, fumava só um cigarro por semana. Nunca ouvira falar, nunca lera nada a respeito de alguém que tivesse morrido de câncer fumando um único cigarro por semana. Na verdade, ele nunca ouvira falar de ninguém além de si próprio que fumasse um único cigarro por semana.
Ele percebeu que a recepcionista estava por perto. A menina tomava um suco do outro lado da rua. Ele podia reconhecê-la facilmente de onde estava, embaixo daquela árvore, apoiado em seu tronco. Ela não era linda, mas também estava longe de ser feia. E tinha um certo charme no andar que atraía sua atenção. Queria esperar a moça terminar para seguí-la até o escritório. Mas a puta não terminava a merda do suco! Queria seguí-la para acompanhar a distância o rebolado que ela tinha quando caminhava. Quem sabe um dia ele a chamasse para sair. Seria bom se tivesse mais amigos. Uma festa seria uma oportunidade ideal para um convite desses. Mas seus únicos amigos eram seu irmão, que morava no Canadá e com quem se comunicava exclusivamente via email, e um colega de faculdade que mudara para o Rio. No mais, era só. Então, não havia uma oportunidade interessante de convite. Assim era melhor, por que ele sabia como tudo acabava.
Fim de dia, fim de namoro, fim de fim de semana. Aquela coisa que aperta o peito. Foi bom enquanto durou, ou não, mas tudo voltava à estaca zero no final. A segunda sempre vinha, o dia seguinte, a ressaca...
Desistiu de esperar. Apagou o cigarro na sola do pé e voltou para o escritório. Tinha mais o que fazer.

21.9.10

On The Top of My Lap



Yeah, old friend
It's you and me again
Me and you
And all these keys
Which my fingers strike
Sometimes lazily
Sometimes in anger

You and me
The cigarette
The booze

You with your screen
Which never shows what I wanna see
The ink fading on your tatoos
(I did those to you)
But they fade away
To show me
Every moment is neverlasting
That's why they're so precious

Now I shut the lid
And give you and me
The rest we both deserve

23.4.10

Insônia

Deito na cama, no escuro. Que paz! Por que não dura?
Rapidamente meus olhos se acostumam e a escuridão agora é claridade que fere meus olhos. Meu corpo, esse sim, não se acostuma. A cama me irrita a pele, a colcha me esfola vivo. Eu me coço, me esfrego contra o lençol. Giro para um lado e vejo a parede me encarando, branca, vazia, sem nada pra dizer. Do outro lado, a porta, que mantenho fechada. Não quero que ninguém me veja assim, sem controle, sem máscara, sem armadura.
Penso em olhar as horas. Sei que não adianta nada. Muito pelo contrário. Saber que horas são provavelmente só vai me deixar mais estressado. Começo a calcular quantas horas dormi na noite passada, na noite retrasada, na última semana... Pra eu olhar as horas, vou ter que abrir o flip do celular e inundar o quarto com aquela luz laranja: mais uma agressão. Meu coração vai disparar e aí então é que eu vou demorar a dormir mesmo.
O ventilador faz aquele ruído incessante. Vou desligar essa merda! Mas pra isso, preciso me levantar. E eu sei que se sair da cama, vou ter taquicardia, meu corpo vai se inundar em adrenalina... já sei como isso acaba: não acaba.
Me levanto e desligo o maldito ventilador. O silêncio agora é quem me incomoda. Meus ouvidos começam a ser comprimidos, estou a 30 metros de profundidade... preciso respirar.
Amanhã tenho que levantar cedo. Muito cedo. Eu devia contar carneirinhos... as horas? Que horas serão agora?
00:34
Que merda! Olhei as horas. Meu olho tá ardendo por causa da luz. Meu coração parece que vai sair pela boca. A coceira volta pelo corpo inteiro. Já arremecei cobertor e lençol para longe. Agora vão os travesseiros e, na sequência, minha bermuda e minha cueca. É insuportável.
Já tem mais de uma hora que eu deitei, com a luz apagada. Estou mergulhado no mais absoluto silêncio. A cama é praticamente um palácio. Quase dois metros de largura só pra eu me esparramar. E eu me sinto completamente desconfortável.
Amanhã tenho que levantar muito cedo. Fecho os olhos, mas não há cola nas minhas pálpebras. Tento ficar bem quieto, bem imóvel. Mantenho os olhos fechados por um longo tempo, mas logo tenho que me mover. Agora são os meus joelhos... tenho a sensação de que vão estalar e os movo. Mas não acontece nada. Tenho a impressão de que a parte de baixo de minhas pernas, a batata, os pés, os tornozelos, não servem pra nada. Simplesmente estão lá para forçar mais os joelhos.
Meus olhos estão secos, como se eu estivesse na frente do computador há horas.
Que horas serão agora?
02:32
Estou cansado. Já não resisto mais. Faça comigo o que quiser. Vou aceitar. Só me deixe dormir. Só por uns minutos...

6.11.09

Tesourinha

Se Foi Minha Tão Querida

Ai, que saudade da minha tesourinha!
Cabinho preto de marca Tramontina
Me acompanhava havia tanto tempo
Ainda tão nova que me sentia bento!

Cortava tudo com suas lâminas
Papel, tecido, até meu bigode
Ficava perto da minha câmera
Sumir assim: como é que pode?

Não sei se devo comprar outra...
Será que não seria traição?
Datas passadas tão poucas
Me resignar é a solução

Não corto mais papel
Nem corto mais tecido
Dedão ficou sem anel
Meu bigode tá crescido

p.s.: depois que eu escrevi esse poeminha, ela apareceu... o poder das palavras...

23.9.09

Sábado À Tarde, Centro

Ele ia descendo a ladeira
Salpicada de gente
Os tornozelos dizendo pra ir devagar
A barriga quentinha, digerindo

Viu uma moça de vestido
Sem razão aparente
Ela atraíra seu olhar
O vestido moldando seu corpo
Seus cabelos ao meio dia ainda bem desembaraçados
Panturrilhas amostra e os pés na sandália
Ressecados: era como ele mesmo
Operário e operária descendo a ladeira

Olhando em volta, o ponto de ônibus
Parou um, depois outro logo atrás
Dois vagões do mesmo trem
As portas se abriram
Inundando a calçada de gente
Mais gente como ele
Rostos cansados
Belos como todo o resto

7.9.09

Do Trabalho Pra Casa

Catarina desce do palco
Sua voz pouca e rouca
A alma lavada
O corpo cansado

No camarim, Leonardo aguarda
Ele tem dessas coisas
E a recebe com uma palavra:
-- Surpresa!

31.8.09

Domingo no Teatro

A mão entrava dentro da bolsa
Sem pudor, sem vergonha, nem embaraço
E resgatava lá de dentro a salvadora bombinha

Seus olhos no palco brilhavam ao som dos holofotes
O ar lhe faltava, mas ela não se movia
O sorriso no seu rosto era de entendimento
Além do que assistia, de si mesma
Sorriso de quem se enxerga no outro
De quem se vê do lado de fora de si
E talvez sem que ela percebesse
Não era só no palco que ela estava
Também estava em toda a platéia
No rosto e na alma de todos aqueles
Que com ela agora sorriam

No palco, um gracejo
O sorriso, agora, fazia barulho
Seu corpo balançou, crise de tosse
Salvadora bombinha!
Ela chacoalhou-a e deu duas aspiradas
Não tinha vergonha, pudor ou embaraço
E já com o ar de volta aos pulmões
Continuou a sorrir, a se assistir

25.8.09

Cigarette Break

They'd seen each other before
A couple of times, maybe more
Exchanging shy glances and smiles
Walking around was worthwhile

She used to work in the storeroom
He learned that tripping on a broom
He used to be a simple errand boy
Doing things which most people annoy

There was this one plain particular day
In windy September, perhaps in May
Taking the lift for a cigarette break
When the doors were open, he was awake

She was there then just staring at him
None of them knew what was to begin
They said hello and together rode down
A lift ride like a nice trip out of town

Her hair so scented, her skin so white
Her eyes sparkled, a star isn't that bright
They talked about nothing, sharing everything
Never done that before, yet one could so think

Outside the building, the sky was blue
A stroll around was certainly due
He then realized he'd left his pack
Up in the office, in his backpack

Her own was enough
She was glad to share
Love was given birth
Just out of thin air


19.8.09

Gato no Telhado

O gato subiu no telhado
Mas não caiu
Nem quis se jogar

Primeiro sentou-se confortavelmente
Beeeeeem na beiradinha
Lambeu a primeira patinha
Depois a segundinha

Observou um casal de pombos
Passavam voando e pousaram
Lááááááááááááááááááááá longe

Nas ruas, lá embaixo
Movimento de gente
Uns que chegam, uns que saem
Outros chegam, outros saem

A orelha coçoooooooooou
E ele obedeceu
Depois se espreguiçou
Devagariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinho
E se deitou
E ficou por ali
Assistindo o pôr-do-sol

19.12.07

Somos Comida

Não adianta
Pode passar creme
Fazer drenagem linfática
Passar a semana no SPA
Você sempre será o resto do que você foi um dia
Espero que você goste de "mexidão"