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14.9.08

Navio Tumbeiro
Capítulo X - Final

A mulher não sentia mais nada. Estava sentada recostada à parede com a menina no colo. Todos ali pareciam dormir e, embora seus olhos não estivessem fechados, ela também não parecia estar acordada. Seus olhos fixos mal piscavam vez ou outra. Sua respiração era lenta e superficial. Seus braços contornavam o corpo da menina, mas ela não fazia força alguma. Seu corpo todo, cada músculo, tudo completamente abandonado à força da gravidade e ao balanço constante daquele lugar.
Ela se moveu.
Muito lentamente colocou a menina no chão. Olhou-a mais uma vez e beijou-lhe a testa. Levantou-se novamente e caminhou até o príncipe. Ele também dormia. Seu corpo contorcido, suas mãos amarradas acima da cabeça, as feridas, os cortes. Ele não era mais um ser humano. Ninguém ali era.
A mulher olhou para a mancha negra no pé da escada. Lembrou-se do gigante tombado, seu sangue lavando o assoalho imundo. Lembrou-se também do velho carregado escada acima como um saco de lixo. Lembrou-se da morta e da irmã da morta. Lembrou-se do seu marido.
Olhou para a escada e dirigiu-se até ali. Muito lentamente subiu degrau a degrau. Chegou no alto da escada. Respirou fundo. Olhou para baixo e viu o escuro.
Começou então a esmurrar a porta à sua frente. E gritava, e amaldiçoava aqueles homens. Seus companheiros de viagem e de amarguras iam acordando com o barulho. Todos foram se aproximando da escada. Tentavam entender o que estava acontecendo, mas ninguém tentava conter a mulher.
De repente, a porta se abriu. O homem com o instrumento que cuspia fumaça estava ali. Ele e a mulher se encararam por um longo período. Um olhava dentro da alma do outro. Nenhum deles enxergava nada. A mulher deu mais um grito e se jogou em cima daquele homem, mordendo-o no rosto. Ouviu-se um estrondo e todos se uniram a ela, subindo as escadas, gritando, urrando. Não eram homens. Eram bestas.

1.9.08

Navio Tumbeiro
Capítulo IX

Uma demonstração do que eles seriam capazes de fazer. O príncipe ainda estava de pé, mas não sobre as próprias pernas. As amarras que prendiam seus pulsos acima de sua cabeça impediam que seu corpo desabasse de vez. No lugar das lágrimas de antes, agora a única coisa que escorria pelo seu rosto magro e pela barba mal aparada era a cor vermelha de seu sangue. Seu olho esquerdo estava muito inchado.
Os homens subiram a escada e a porta os trancou do lado de fora. Algumas pessoas começavam a se movimentar. Uns iam para perto do enorme corpo sobre a poça de sangue. Outros iam até o príncipe e o olhavam espantados, levando a mão à boca e murmurando baixinho uns para os outros.
A menina chorava baixinho num canto. A mulher foi até junto dela e a abraçou. As duas choravam juntas. Um choro de menina e um choro de mulher.
A porta do alto da escada se abriu novamente. Colocaram um balde daquela papa branca no topo e o chutaram escada abaixo. A papa foi se espalhando pelos degraus sujos. Colocaram também um único balde com água lá no alto, mas não o chutaram. Em seguida, fecharam a porta mais uma vez.
A menina ainda chorava, mas a mulher a colocou no chão. Beijou seus olhos e pediu que não os abrisse. Levantou-se enxugando as próprias lágrimas e foi até o príncipe. Se deteve a alguns metros, como os outros faziam. Não conseguia dizer se ele estava apenas desacordado ou se também havia... Respirou fundo e chegou mais perto. O chamou. Ele não se moveu. Ela se aproximou um pouco mais e percebeu o peito do homem se mover lentamente. Mais uma lágrima escapulia do olho esquerdo da mulher.
Ela então subiu a escada correndo e trouxe o balde d'água para baixo. Rasgou um pedaço dos farrapos que suas vestes tinham se tornado e o umedeceu. Levou-o até a testa do príncipe e começou a limpá-lo. Passava com muito cuidado aquele pedacinho de pano úmido que rapidamente se tingia de vermelho e a obrigava a molhá-lo novamente no balde. Torcia-o e continuava a limpar o rosto do príncipe. Os olhos do homem se abriram lentamente. Ele olhava para ela. Ela interrompeu seu trabalho. O olhou de volta.
Ele abriu a boca muito lentamente e ela pode perceber que um de seus dentes da frente não estava mais lá. Ele disse com muita dificuldade que sabia quem ela era e que conhecera seu marido. Então acrescentou, entre esforços, que ele havia sido morto.
A mulher caiu a seus pés chorando.

20.8.08

Navio Tumbeiro
Capítulo VIII

Gritos e um estrondo. A menina chorava em seu colo enquanto a mulher a apertava com ambas as mãos e seus olhos percorriam todo o ambiente, captando tudo, tentando compreender o que acontecia. Todos estavam encolhidos no mesmo canto. Alguns se escondiam embaixo da escada. O príncipe segurava o rapaz dos baldes à frente de seu próprio corpo com a ajuda de seu sempre fiel companheiro. O príncipe tinha uma faca em sua mão direita. Apertava-a contra a garganta do rapaz dos baldes enquanto olhava em direção à escada. Do alto da escada, o mesmo homem branco de antes, o que carregava aquele instrumento pesado, fitava o príncipe. Ele segurava o mesmo objeto de antes, mas agora segurava-o com as duas mãos. A mão direita próxima ao corpo. A mão esquerda à frente, acompanhando o comprimento do objeto. A ponta do instrumento soprava fumaça e estava apontada na direção do príncipe. O homem branco dizia alguma coisa para o príncipe. Outros homens brancos estavam no alto da escada, mas nenhum deles ia além do limite das costas do primeiro. Permaneciam às suas costas, observando por cima de seu ombro o que acontecia. Apenas aguardavam. E ele permanecia lá, no alto da escada, imóvel, segurando aquele objeto que cuspia fumaça. O rapaz dos baldes agora tentava conversar com o príncipe. Gaguejava. Implorava por sua vida. Dizia que era como ele, e apenas servia os brancos para não apanhar. Dizia que de nada adiantaria matá-lo.
A mulher colocou a menina no chão e se levantou. Ninguém disse nada. O príncipe, seu companheiro, o rapaz dos baldes, o homem branco, os homens às suas costas, a menina, os outros homens, as outras mulheres, ninguém se movia. A mulher começou a caminhar lentamente em direção ao príncipe. Ele disse a ela que não se aproximasse mais. O homem branco gritou alguma coisa do alto da escada. Mas todos mantinham as mesmas posições. Ela se aproximou mais um pouco e parou. Andava nas pontas dos pés. Não sabia por que mas não queria fazer nenhum ruído. Prendeu a respiração e virou-se para o homem branco. Ele agora apontava o instrumento para ela. Ela observava a fumaça, que agora ia se dissipando no ar. De repente, a mulher sentiu um empurrão. Era jogada ao chão pelo companheiro do príncipe. Ouviu-se outro estrondo. O companheiro do príncipe estancou na base da escada. Passou a mão no peito e depois levou-a à frente do rosto para vê-la pintada com seu sangue. Seu rosto não aparentava dor. Todos os músculos de seu rosto pareciam ter se relaxado ao mesmo tempo. Até sua boca estava entreaberta. Levantou a cabeça lentamente em direção ao homem branco. O instrumento agora produzia mais fumaça e apontava para aquele homem que parecia ter adormecido em pé de olhos abertos na base da escada. Ele se virou para o príncipe com o mesmo rosto sem expressão e a boca entreaberta. O que contrastava com a face do príncipe. Suas sobrancelhas estavam apertadas. Seus dentes se atritavam e ele apertava com mais força o rapaz dos baldes. E assim, sem emitir nenhum som, sem dizer nada, o homem tombou sobre o próprio peito. Uma poça de sangue começava a se formar embaixo daquele corpo enorme e estático. O príncipe, de súbito, largou o rapaz dos baldes e a faca e ajoelhou-se chorando ao lado daquele corpanzil. O homem branco e seus companheiros desceram correndo as escadas. Agarraram o príncipe e o amarraram a uma pilastra. Ele não lutava, não se debatia. Amarraram-no com as mãos presas acima da cabeça e começaram a açoitá-lo. Uns davam pontapés entre as pernas. Outros, socos no rosto. E iam se revezando. O príncipe apenas chorava. Mas não eram os golpes que despertavam suas lágrimas.

14.8.08

Navio Tumbeiro
Capítulo VII

A mulher acordou. Estava escuro. Só se ouvia um ruído suave, compassado, de água em movimento, e um ranger leve e lento de madeira com madeira. Na medida em que seus olhos iam se adaptando à pouca luz, ela ia percebendo a silhueta do príncipe ainda em pé por trás da escada. Seu companheiro também estava lá.
A mulher não conseguiu voltar a dormir. A cada ruído vindo da porta ou das frestas no teto, seus olhos se abriam novamente. Ela sentia sua respiração acelerar com o ritmo das pulsações de seu coração. Olhava para a menina e pensava onde poderia escondê-la caso algo acontecesse. Não via nada. Começou a pedir aos santos que conhecia que protegessem aquela criança pelo menos. Lembrou-se de seu marido. E lembrou-se da mulher morta e da irmã da morta.
E era para ela que a mulher olhava agora. Uma mulher viva, mas sem vida. Seus olhos continuavam olhando o nada. Mas seus braços não mais abraçavam as pernas. Seu corpo não se balançava. Ela estava sentada com as costas apoiadas na parede. As pálpebras pareciam querer se fechar, mas não se fechavam. Apenas abaixavam-se levemente, num piscar de olhos cansado e lento, vez ou outra. Seu peito quase não se movia. Era difícil dizer se ela respirava. Durante aqueles poucos instantes, a mulher sentia exatamente o que a irmã da morta sentia -- ou talvez não sentia --, o que a fazia simplesmente não reagir, um estado de dormência da alma. Naquele breve momento, as duas mulheres eram uma só, dentro da mesma sensação de impotência, de indiferença, torpor.
De repente, a menina disse alguma coisa. A mulher se assustou. Virou-se para a pequena. Esqueceu-se da irmã da morta. Mas a menina ainda dormia. Havia murmurado algo nos seus sonhos. Sonhos certamente melhores do que a realidade a aguardando na aurora. Melhor seria não acordar mais. Nunca mais.
Voltou-se na direção da irmã da morta mais uma vez. Seus olhos não estavam mais abertos. Talvez sonhasse também.

30.7.08

Navio Tumbeiro
Capítulo VI

A mulher e a menina acordaram com o barulho de vozes gritando, protestando. Mais baldes haviam chegado. Ouve novamente a mesma divisão de antes, os viajantes eram divididos em grupos menores e cada um desses grupos ficava com um balde. Outra vez empurrões, mais protestos e enfim toda a comida havia se acabado. Todos haviam conseguido pelo menos um punhado da papa branca.
Era espantoso perceber como se transformavam os olhos e as feições da menina depois de se alimentar. A mulher não sabia se os efeitos eram só uma percepção mais alegre de quem tem a fome aplacada, ainda que não completamente, ou se, de fato, envolviam também o desabrochar de um sorriso no rosto de uma criança alimentada, ainda que de maneira muito parca. Decidiu que as duas coisas deveriam acontecer.
Olhou em volta e percebeu que a irmã da morta estava sentada em um canto. Observou que suas mãos não estavam úmidas como a dos demais. Ela não deveria ter comido. Estava sentada no chão abraçando as próprias pernas com a cabeça apoiada entre os joelhos. Balançava todo o corpo para frente e para trás nervosamente. A mulher decidira ficar mais próxima daquela outra. Tentava conversar com ela. Fazia perguntas. A menina também tentava animá-la passando a mão por seus cabelos e murmurando a mesma canção que a mulher havia cantado para ela. Mas aquela mulher não tinha forças para mais nada. Ela havia sido a única daqueles viajantes que não havia se alimentado. Seu olhar ficava parado em um canto. Como se olhasse para algo de muito significado quando na verdade não olhava para nada, não via nada do que estava ali em sua frente.
O príncipe se aproximou, sempre acompanhado daquele outro homem. A mulher agora observava como era grande e forte aquele homem. Suas pernas pareciam troncos de árvores. O príncipe parecia um menino perto de seu companheiro.
Abaixando-se lentamente ao lado da mulher, o príncipe varria com o olhar todo o ambiente ao redor. Sua testa franzida, suas sobrancelhas quase se encontravam, seus olhos apertados como se quisessem e pudessem ver além do que realmente enxergavam. Sua respiração era lenta e curta, inaudível.
Virou-se para a mulher e disse a ela que chegara o limite: ele tinha que reagir em nome de seu povo. A mulher se assustou. Dizia que não sabiam o que estava atrás daquela porta. Tentou aconselhá-lo a não fazer nada, a se resignar. O príncipe respondeu, com calma sobrenatural, que aquele era o dever dele. Já estava decidido. Ela então perguntou sobre o rapaz dos baldes. Ele parecia ser da mesma terra que aqueles viajantes. Mas o príncipe não respondeu. Apenas se levantou e foi caminhando para trás da escada seguido por seu robusto companheiro.
A mulher então puxou a menina para si. Abraçou-a forte e disse-lhe que ficasse sempre junto a ela. Em seguida, se dirigiu à mulher em luto pela irmã. Chamava-a e perguntava seu nome. Mas ela não respondia. Nem sequer retornava o olhor suplicamente da mulher, que enfim, desistiu.
Puxando a menina pela mão, a mulher abandonou a outra em luto mudo e se afastou o máximo que pode das escadas. A porta não se abriu mais naquele dia. O príncipe não saiu de sua posição. E a mulher não tirou seus olhos cansados dele até que se fecharam.

23.7.08

Navio Tumbeiro
Capítulo V

A mulher se aproximou do grupo que velava a morta. Reconheceu alguns dos que ali estavam. Não sabia seus nomes, mas lembrava-se de já tê-los visto. Além dos que reconhecia, os outros ali também pareciam ser de sua terra. Observava isso pela maneira como velavam a morta. Obviamente, alguns dos rituais não poderiam ser obedecidos uma vez que aquelas pessoas não tinham acesso a nenhum instrumento, e muito menos liberdade para se locomoverem. Tudo o que tinham era o que cada um tinha: a companhia dos outros. Desde a criança órfã até o príncipe, ali a única riqueza ou privilégio era a voz e o toque do outro. E de repente parecia aquilo tão caro, tão importante. A mulher abraçava a irmã da morta. A menina também. Depois vieram o princípie e aquele homem que sempre o acompanhava. E por fim todos aqueles que dividiam aquela cela vieram demonstrar apoio à irmã da morta: alguns abraçavam, outros apenas seguravam sua mão por um tempo, outros meneavam a cabeça. E iam ficando por ali. Todos próximos.
Antes de anoitecer novamente, o rapaz dos baldes retornou. Não vinha sozinho. Tinha um ajudante. Ambos usavam muitas vestes que lhe cobriam as mãos e os braços, a boca e o nariz. O rapaz se dirigiu à irmã da morta. Disse-lhe que precisava levar o corpo. Ela quis protestar, mas o princípe a conteve dizendo alguma coisa a seu ouvido e abraçando-a. Nem o princípe nem o seu acompanhante tiravam os olhos do rapaz. Com a ajuda do outro homem de corpo coberto, o rapaz levou embora o cadáver. A irmã da morta chorava baixinho enquanto a luz ia diminuindo avisando aos viajantes que mais um dia se acabava.

20.7.08

Navio Tumbeiro
Capítulo IV

Naquele dia não trouxeram mais comida. A mulher e a menina já se aninhavam para dormir, quando a porta no alto da escada se abriu mais uma vez e novamente desceu por ela o rapaz dos baldes. Dessa vez, porém, não trazia nenhum. Dois homens se aproximaram do rapaz. Um deles colocou a mão no peito do rapaz impedindo que ele passasse. O outro fez uma pergunta. A mulher percebeu que falavam sua língua, mas não conseguiu distinguir o que o homem havia dito. Observou-o melhor e o reconheceu: era seu príncipe! Nunca havia visto-o daquela forma. Estava muito magro, praticamente nu, sua barba estava comprida.
O rapaz falava baixo e pausadamente. Também não era possível entender. Ele gesticulava pouco. Evitava olhar para os olhos de seu interlocutor. Procura fitar os próprios pés. Parou de falar e olhou para o príncipe como quem espera uma resposta. O príncipe acenou com a cabeça. O rapaz então pegou a mão do príncipe e beijou-a com respeito. O príncipe olhou para o outro homem que o acompanhava e este deixou o rapaz passar.
A mulher demorou um pouco a perceber, mas o rapaz vinha em sua direção. Comprimentou-a, respeitando a maneira com a qual a mulher estava acostumada a ser cumprimentada por outros homens em sua terra -- o que a deu certo conforto --, e perguntou se ela era a mãe da menina. A mulher disse que sim sem hesitar. Tinha medo de que as separassem.
O rapaz então se apresentou. Seu nome não parecia com os nomes com os quais a mulher estava acostumada. Ele explicou que havia nascido no Novo Mundo. Por isso seu nome era diferente. Olhava para a mulher com um meio sorriso e olhos bem abertos. A mulher não disse nada. Ele então continuou dizendo que no Novo Mundo haviam pessoas que falavam diversas línguas diferentes pois cada uma vinha de um lugar. Parou novamente e olhou mais uma vez para a mulher com aquele meio sorriso. A mulher perguntou então o que aconteceria quando chegassem ao tal Novo Mundo. O jovem disse que ela trabalharia. E que a menina também trabalharia, assim que tivesse forças e tamanho suficientes. Mais uma pausa com meio sorriso. Ele prosseguiu dizendo que o melhor a fazer era pedir perdão ao Pai. A mulher não compreendera aquilo. Ele então explicou que o Pai era o nosso Criador. Acrescentou que o filho Dele estava sentado à sua direita, de onde podia ver tudo o que ocorria. A mulher estava cada vez mais confusa. O rapaz sorriu novamente. E disse a ela que pedisse forças ao Espírito Santo e então terminou aconselhando-a de que se lembrasse: havia só um Deus. A mulher não entendia mais nada.
Ouviu-se um grito. Uma mulher chorava sobre o corpo de outra. Gritava. Dizia que haviam matado sua irmã. Haviam envenenado-a. A mulher morta tinha manchas na pele. Parecia também ter perdido um pouco de sua cor.
O rapaz se aproximou. A mulher com quem conversava o seguiu, mas decidiu não chegar muito perto. Todos ali se apertavam para ver o que acontecia e ela temia mais um tumulto. O rapaz então se ajoelhou próximo ao corpo da mulher. Fez um gesto estranho com a mão direita, parecia desenhar uma cruz no ar. Disse então algumas palavras a irmã da mulher morta. Depois disso levantou os olhos para o céu e juntou as mãos. Começou a dizer algumas palavras em uma língua estranha. As pessoas o interromperam. Ele disse que orava pela alma daquela mulher. Mas ninguém compreendia o que ele dizia em sua prece e por isso não permitiram que ele continuasse. Ele fez novamente aquele gesto com a mão direita e se retirou. Antes de sair, disse a mulher com quem conversara que traria mais comida no dia seguinte. Ainda lançou um olhar na direção daquelas pessoas que o expulsaram. Balançou a cabeça e desapareceu fechando a porta atrás de si mais uma vez.

5.7.08

Navio Tumbeiro
Capítulo III


A mulher e a menina finalmente dormiram abraçadas uma a outra. Apesar de o ambiente ser escuro, era possível perceber se era dia ou noite através das frestas no teto, que se deixavam penetrar por raios de sol mais intensos em algumas horas do dia. E foi justamente um desses raios que veio acordar a mulher. Ela se sentia enauseada. Não entendia como poderia estar se sentindo assim. Não comia nada há quase dois dias. Talvez fosse por conta daquele balanço interminável das paredes. Pensou na menina que dormia em seu colo. Quando ela teria comido? Não sabia se resistiriam a mais um dia. Na chuva do dia anterior havia bebido um pouco de água. Não tivera coragem de beber das poças que se formavam no chão, como vira vários outros fazer, mas bebera um pouco da água que pingava do teto. O gosto não era bom. Não parecia limpa. Mas a sede que sentira fizera-a agradecer por aquele caldo. Ela estranhara o fato de a água estar um pouco salgada.
Enquanto averiguava mais uma vez o ambiente através da pouca luz, a porta no alto da escada se abriu mais uma vez. Agora ela não via um homem de pele clara. Via uma pessoa que muito se assemelhava àquelas com quem ela própria convivera. E embora não o conhecesse, o mero fato de ele se parecer com ela, fazia-a se sentir melhor. No entanto, ela percebeu que o rapaz usava roupas mais parecidas com as dos homens de pele clara. Ele descia as escadas e trazia em cada uma das mãos um balde. Pareciam estar cheios, pois ele tinha muita dificuldade. Ao chegar no pé da escada, o rapaz posicionou os baldes no primeiro degrau. Enxugou a testa com o braço e enfiou a mão dentro de um dos baldes trazendo para fora uma concha. Então o rapaz começou a dizer algumas palavras em voz alta o bastante para que todos ouvissem. Ela, a princípio, não entendera o que ele dizia, mas, de repente, reconheceu a palavra "água" no meio daquelas outras palavras estranhas.
Saltou em direção ao rapaz. E, como ela, outras pessoas iam fazendo. O rapaz, percebendo que um tumulto se formaria, agarrou os baldes e tentou subir correndo as escadas. Foi detido no entanto por um estrondo ensurdecedor. Todos pararam onde estavam. Ninguém mais se movia. Todos olhavam para cima.
O homem de pele clara que viera no dia anterior buscar o corpo do velho estava no alto da escada. Segurava aquele mesmo objeto longo. De uma de suas pontas saía fumaça. Ele disse algo ao rapaz dos baldes. O rapaz acenou com a cabeça e se virou lentamente para a parte mais baixa da escada. Colocou os baldes no degrau em que estava e disse que todos viessem com calma buscar a água ou eles se machucariam. Pediu que as mulheres e as crianças viessem primeiro. A mulher então foi se aproximando lentamente. Estava muito assustada. A menina não chorava, mas tremia muito. Ao chegar sua vez de receber a água ela perguntou ao rapaz onde estavam. Ele disse que iam para um lugar muito distante. Se referia a esse lugar como o Mundo Novo. Explicou para a mulher que estavam em um barco. Mas ela nunca havia visto um barco daquele tamanho. Perguntou ao rapaz se trariam comida. E ele disse que sim e pediu a ela que bebesse a água e retornasse ao lugar onde estava para que os outros pudessem também beber. A mulher colocou um pouco de água na boca, o quanto lhe foi permitido. Deu também água para a menina e retornou para junto da pilastra onde encontrara a garotinha chorando. Rapidamente a água dos baldes acabou. Alguns homens ficaram sem beber e gritavam. Porém, nenhum deles tinha coragem de subir as escadas. O rapaz se foi, levando os baldes vazios, fechando a porta atrás de si.
Os homens que não haviam bebido água resmugavam, esbravejavam. Alguns começaram a trocar empurrões. A mulher se recolheu a um canto com a menina. Tinha medo do que poderia acontecer ali. Muitas pessoas juntas, em pouco espaço, alguns pareciam doentes, todos tinham fome, todos tinham sede. Tentava imaginar o que cada um de seus companheiros de viagem teria passado antes de ser trazido para esse barco. Olhava em volta. Percebeu que a maioria das pessoas era jovem. Parecia mesmo que o único velho ali havia sido o homem que morrera ao pé da escada. Havia algumas poucas crianças. Olhava agora para a menina no seu colo novamente. A menina repentinamente deu um pulo. Apontou para o outro lado do aposento. Havia um rato enorme. A mulher já havia visto outros ratos ali. Mas os ratos não a assustavam. As pessoas, sim.
Não se passou muito tempo e a porta se abriu novamente. O mesmo rapaz trazia mais baldes, com a ajuda de um outro homem. Colocaram os baldes no alto da escada e o rapaz disse para baixo que havia mais água e também comida. Os homens se desembestaram escada acima. Houveram mais empurrões, mais insultos, e um deles chegou a despencar escada abaixo. Finalmente, um grupo conseguiu impor alguma ordem e entregaram cada um dos baldes a grupos de dez ou doze pessoas. A essas, outras que haviam ficado sem grupo, e sem balde, se juntavam. Em cada grupo, todos tentavam enfiar a mão dentro dos baldes ao mesmo tempo. Houve mais confusão, mais gritaria, mas no fim, todos pareciam ter conseguido pegar pelo menos um punhado daquela papa branca que havia no balde. A menina chupava seus dedos. Seus olhos pareciam mais alertas, mais brilhantes. A mulher, no entanto, sabia que a garota ainda tinha fome, pois a sua própria não havia sido saciada.

27.6.08

Navio Tumbeiro
Capítulo II

Despertou-se com gritos e um corpo que caía sobre ela. Era outra mulher. Chorava e pedia ajuda. O ambiente continuava escuro, mas agora tudo se movia com muita violência. Havia também muito barulho. Parecia chover muito forte do lado de fora. Percebeu que havia água por todos os lados. Gritos vinham do alto da escada atravessando a porta que antes ela havia enxergado. Gritos também ecoavam naquele aposento escuro. As pessoas que ali estavam eram jogadas umas contra as outras. Tentou se apoiar em algo. A outra mulher se levantava agora. Percebeu um corte na cabeça daquela mulher. Sangrava muito. Dois homens tentavam se equilibrar e se aproximavam. Eles falavam sua língua. Ela compreendia o que eles diziam, mas não os reconhecia. Eles tentavam amparar a mulher ferida. Ela finalmente se colocou de pé.
Conseguiu distinguir em meio ao tumulto aquele mesmo choro que havia ouvido antes de adormecer. Enquanto a outra mulher era amparada pelos homens que falavam sua língua, ela foi se movimentando, se apoiando nas pessoas que estavam pelo caminho, algumas em pé, se equilibrando como podiam, outras de joelhos e mesmo outras deitadas, chorando. Tudo sacudia. Ela percebia agora por onde entrava água no aposento. Descia em grande quantidade pela escada, mas também entrava pelas frestas no teto. Por isso o chão estava tão molhado e escorregadio. Continuou andando até encontrar a origem daquele choro de criança. Uma menininha de pouco mais de 5 anos se agarrava a uma pilastra e chorava.
Se aproximou dela e se amparou na mesma pilastra que dava abrigo à menina. Falou-lhe. Sentou-se a seu lado e a abraçou. A menininha a abraçou de volta. Um abraço muito forte. Era como se as duas estivessem se reencontrando após anos de ausência. Lembrou-se de uma música que seu pai cantava. Não se lembrava das palavras, mas a melodia estava ainda muito viva em sua mente e foi o suficiente para manter a menina tranquila até que tudo se acalmou. O aposento já não sacudia tanto. A garotinha não dormia, mas permanecia muito quieta, seus olhos grandes fixos nos olhos daquela estranha que a acalentava. A mulher pensava que a menina deveria ter fome. Ela também tinha muita fome, mas não parecia haver nada ali. Perguntou a menina sobre sua mãe e ficou feliz de saber que a menina entendia o que ela falava, mas a entristeceu o fato de a garotinha não saber onde estavam sua mãe ou seu pai. E lembrou-se também que não sabia onde estava seu marido.

25.6.08

Navio Tumbeiro
Capítulo I

Abriu os olhos e não reconheceu o lugar onde estava. Estava em um ambiente fechado e escuro. O cheiro era detestável. Percebeu através da pouca luz que entrava por frestas no teto que havia mais pessoas ali. Olhava em volta e procurava alguma silhueta conhecida. De repente sentiu o chão se mover. Na verdade, todo aquele aposento, se é que era um aposento, se movia. Se apoiou à parede e a uma pilastra que identificara a sua frente para conseguir se levantar. Sua cabeça, seu ventre, seu sexo, todo seu corpo doía muito. Lentamente as imagens foram se formando na sua mente.
Haviam invadido sua casa, quebraram tudo. As memórias iam surgindo aos poucos e suas forças se esvaíam com cada nova lembrança. Lembrou de seu marido tentando protegê-la. Vários homens o agarraram e o dominaram. Ela tentou se desvencilhar dos outros que a tinham agarrado também. Separaram-na de seu homem. Levaram-no. Dois homens a seguravam dentro de sua casa. Depois de algum tempo, os outros três voltaram. Ela gritava e cuspia. Tentava se soltar, mas agora eles eram ainda mais fortes. Eram cinco homens fortes. Ela era uma mulher. Mas não deixava de lutar. Os homens tinham no hálito um cheiro que ela não conhecia. Se aproximavam dela e conversavam em uma língua que ela não entendia. Pareciam estar tramando contra ela. Olhavam seu corpo e riam-se. De repente, um deles tocou seus seios e percorreu seu ventre com as mãos. Ela já não gritava, nem se debatia. Sua respiração estava acelerada. Fitava-o com ódio. Os outros quatro a seguraram mais firmemente, cada um imobilizando um de seus membros, enquanto o quinto continuava a explorar seu corpo. Ele se desfez de suas vestes e rasgou as da mulher. Era esta a última lembrança que tinha.
Caiu novamente no chão. Em parte por faltarem-lhe as forças, em parte pelo balanço das paredes e do chão. Não conseguia mais conter o pranto que brotava de seu peito e apertava sua garganta.
Ouviu passos. Vinham de cima. Ouviu alguém chorar. Apertou os olhos. Não conseguia perceber quem era. Haviam muitas pessoas ali. Mas aquela voz, era a voz de uma criança.
Uma porta se abriu, no alto de uma escada que ela agora percebia. A luz que entrava por ali, não era muita, mas ajudou a perceber melhor o estado em que se encontravam aquelas pessoas a sua volta. Todos pareciam cansados, algums estavam feridos, pareciam ter levado uma surra. Subitamente achou que fosse uma boa idéia fingir-se de morta. Um homem desceu as escadas. Sua pele era clara, como a daqueles comerciantes que vieram até sua vila certa vez. Também as roupas daquele homem faziam-na lembrar das roupas daqueles comerciantes. Ele carregava um objeto longo nas mãos. Parecia pesado. Por vezes, deixava o abaixado, quase tocando o solo. Por vezes o amparava com as duas mãos. Ele olhava ao redor. Ela se sentia segura em observá-lo, mas não tinha coragem de se dirigir a ele. Ele deu algumas voltas e se deteve diante de um velho deitado bem próximo a escada. Cutucou o velho com o objeto que trazia às mãos. O velho não se moveu. Cutucou-o mais algumas vezes e disse algumas palavras que ela não conseguia entender. Finalmente, acertou um forte chute no estômago daquele velho caído. Ela ouviu um gemido, mas percebeu que não havia partido daquele corpo sem vida. Parecia ter partido de algum ponto por trás da escada. O homem de pele clara balançou a cabeça. Gritou alguma coisa em direção à porta e agarrou o pé direito do velho. Começou a arrastá-lo, mas se deteve ao pé da escada. A mulher o observava. A distância e a pouca luz faziam com que ela se sentisse segura para levantar um pouco a cabeça e observar melhor o que acontecia, mas agora segurava o choro. Tinha medo de ser ouvida.
Outro homem de pele clara desceu as escadas. Trocou algumas palavras com o primeiro e agarrou o pé esquerdo do velho. Ambos começaram a subir a escada, arrastando com eles aquele corpo sem vida -- a cabeça do velho ia pulando de degrau em degrau, fazendo um barulho oco, seu corpo parecia mais um saco de ossos sendo arrastado escada acima. Ao alcançarem o topo da escada, fecharam novamente a porta, trancando novamente a escuridão dentro daquele aposento. A mulher não tinha muitas forças. E já havia visto o bastante. Não tentou se levantar novamente. Começou a chorar baixinho. Tinha muita fome e sede. Seu corpo doía e sentia um cansaço que parecia não caber em seu corpo. Adormeceu.