17.10.17

Pernilongos

E se os pernilongos forem seres auto-concientes como nós? E se eles acreditarem que nós somos entes superiores (como acreditamos nos deuses do Olimpo)? E, na verdade, eles chegam perto de nós por considerarem isso uma benção? E se acontecer de eles morrerem tentando ficar próximos, tocando suas probóscides em nossa pele sacra, eles terão o paraíso garantido?

16.4.17

Rio

A proposta foi desenhada numa mesa de bar da Rua do Ouvidor. Jessé, Raul e eu tomávamos umas cervejinhas quando ele teve a ideia. O Raul propôs que a gente escrevesse alguma coisa sobre aquela rua. Inicialmente ele queria era rodar um filme de ação ali. Um filme que envolvesse perseguição, tiro, porrada e bomba. Achei ótima a ideia por que as ruas ali são todas estreitinhas. Ia ser uma coisa meio James Bond / Jason Bourne. Mas não temos os meios para executar essa ideia.
Aí surgiu a outra, do texto.
Não lembro agora se seria uma crônica, um conto, uma poesia... Mas levando em conta nossas personalidades libertinas, imagino que vale tudo. E comecei a escrever esse texto com cara de diário.
A Rua do Ouvidor representa muito bem o Rio de Janeiro. Principalmente num sábado à tarde, rolando um sambinha. O que é que a Baiana tem? Não sei. Mas o que é que o Rio tem que agrada tanto a gregos quanto baianos? Sei algumas coisas.
Na Rua do Ouvidor, você vê prédios centenários convivendo harmonicamente com os modernos prédios de escritórios à sua volta. É difícil explicar como ou por quê essa harmonia acontece. Mas ela acontece. Até essa mistura fica bonita no Rio.
Então o texto na verdade vai se transformar numa digressão sobre a Cidade Maravilhosa.
Por que o Rio, assim como a Rua do Ouvidor, provoca esse encanto nas pessoas? Tive a oportunidade de vir com pessoas diferentes em momentos diferentes à cidade. E nunca falha. Todos querem ficar mais tempo. Alguns iniciam os planos de mudança definitiva.
Acho que a música brasileira, em particular, mas também outras formas de arte, desde a pintura até o cinema, têm uma culpa muito grande no cartório. O Rio é pintado, fotografado e cantado inúmeras centenas de vezes. Isso encanta principalmente aqueles que não o conhecem. Quem vem pela primeira vez, já vem de abraços abertos como o Cristo.
Mas por que foi o Rio essa cidade tão cantada e tão pintada?
Imagino que a beleza natural da região nos dê alguma pista. Os pontos mais populares, o Corcovado, o Pão de Açúcar, são realmente um cenário deslumbrante. Mas se você tiver tempo e sair andando por aí, vai ver que não se resume a isso. Cito a praia da Macumba no Recreio dos Bandeirantes, um bairro afastado do centro que raramente é lembrado pelos turistas, que normalmente se aventuram até a Barra (que merece esse parênteses pra ser criticada: provavelmente o lugar mais sem graça e sem charme do Rio. Dá a impressão de nem estarmos no Rio. Até o mar lá é chato, raso e sem onda.). E se continuar seguindo no sentido sudoeste do Recreio em frente ainda tem a Prainha e a Restinga da Marambaia... É muito lugar bonito muito perto um do outro.
Mas existem outros lugares maravilhosos graças à natureza assim. O litoral norte de São Paulo, por exemplo. Subindo no sentido norte pela BR 101, depois que acaba Bertioga, é uma praia paradisíaca atrás de outra.
Aí a vantagem que eu imagino que o Rio leva é explicada pela história. Desses lugares maravilhosos, a região do Rio foi uma das primeiras a ser exploradas. No Litoral Norte de SP, por exemplo, a Serra do Mar dificultava muito as coisas. Até hoje dificulta. As cidades não têm espaço para crescer e o acesso ao centro do continente também não é nada fácil.
Chego à conclusão de que o acaso teve um papel determinante no encanto que o Rio exerce hoje. E essa participação do acaso deixa tudo ainda mais romântico.
Por acaso a região do Rio começou a atrair gente de toda parte e foi enchendo, enchendo até quase estourar, mas não estourou (como tenho a impressão que deve ter acontecido com a Terra da Garoa: dá a impressão de um cenário pós-apocalíptico). Mas o Rio encheu. Encheu muito. Essas ruas estreitinhas não estão só no Centro. Os bairros residenciais da zona sul todos têm esses recantos, de ruinhas apertadinhas, onde vive muita gente, com muita árvore. É uma delícia. E por atrair todo tipo de gente parece a cidade que já visitei no Brasil onde a diversidade tem mais espaço. As harmonias se harmonizam mais harmonicamente no Rio. O preto com o branco, o pobre com rico, a encaracolada com a alisada, a bicicleta com o carro, o vegano com o churrasco, e, voltando a rua do ouvidor, os prédios históricos com os contemporâneos...
E continuamos, aqueles pobres mortais que não habitam o Rio, indo embora com o coração de quem acabou de ver a garota de Ipanema passar.

10.4.17

The gap is widening

Growing up is like jumping across a wide gap.
When you're young, you're too small to do it. But if you wait too long, your body might not be fit enough to do it. So the gap is wide in the beginning. But it keeps getting wider as you grow old.

14.11.16

Eu sou louco!
Me ajuda a gritar!

Eu sou louco
Nasci pra sofrer
Me deixa gozar

Eu sou louco!
Eu quero viver
Eu vou mergulhar

Eu sou louco!
Me prende! Me solta!
Me deixa pirar!

Eu sou louco!
Me ajuda a gritar

3.5.16

Tangencial

Cê é daqui?
Eu moro aqui.
Mas nasceu aqui?
Não. Em Três Corações.
Hum.
Mas morei pouco lá.
Mudou pra cá cedo?
Não. Morei no Rio e em Curitiba antes.
O Rio é uma bagunça.
Como assim?
Não dá pra dirigir lá.
É meio complexo mesmo.
Vou ali tomar um café.

Cachoeira

Vc deitada
Aquele tanto todo
Ali do meu lado
Sinto o cheiro
A temperatura
Não dá só pra por o pé
Tenho que mergulhar

26.3.16

Tá de sacanagem, né?

Ainda ressabiado, incrédulo, testou a porta. Com mais barulho do que gostaria, percebeu que ela estava aberta.

"Já vim até aqui..."

Ao começar a deixar a luz do corredor penetrar no quarto, ouviu gemidos. Continuou abrindo a porta e uma faixa vertical de luz revelou duas mulheres se despindo aos beijos. Uma delas, Yasmim, a menina que tinha acabado de beijar.

De imediato, sua reação seria perguntar o que estava acontecendo. Mas achou mais interessante descobrir por si só. Sem dizer uma palavra, e fazendo o mínimo de barulho possível, entrou no quarto e fechou a porta.

O silêncio e a escuridão. Enquanto seus olhos se acostumavam, disse em voz suave para que elas continuassem. Alguns segundos mais de silêncio e podia ouvir a respiração das duas. Seus olhos começavam a se acostumar e, com a pouca luz que entrava através das cortinas, conseguia identificar Fernanda sendo cavalgada por Yasmim. Yasmim se movia delicadamente, mas como se tivesse um pau e estivesse comendo Fernanda, bem devagarinho. Uma deliciosa encenação. As duas olhavam para ele com cara de fome.

Escorou-se contra a parede às suas costas e deixou seu corpo escorregar até se sentar no chão. O quarto ia se tornando cada vez mais claro. E as duas mais à vontade.

Distinguiu um sorriso nos lábios de Fernanda enquanto ela o chamava:

"Vem..."

13.2.16

sem nome

eu fico incomodado
com esse tanto
que eu nao quero
parar de te olhar
parar de te ouvir
parar de ter você

cada vez q eu pisco
eu bato um retrato
quero congelar cada quadro
cada cara e cada careta
essa imagem

cada vez que eu distraio
que eu não ouvi
eu preciso entender
cada palavra e cada suspiro
essa mensagem

e se desaparece assim
sem vestígio, sem rastro
me pergunto
era miragem?

20.12.15

Conheci um cara que chamava Aires
Mas não sei se ele era de áries

2.10.15

Olha!

Ainda que a porta se feche...
Não grite. Não esbraveje.
Pula a janela!

Se o vento não sopra,
Pra refrescar a seu favor,
Liga o ventilador.

Existe proposta?
Bate o martelo do juiz:
Cumpra-se!

4.9.15

As Invasões Bárbaras

Entro no quarto e dou de cara com ela
Cochilando com a roupa do trabalho
De bruços, a calça jeans recheada de chocolate

Preciso absorver aquela cena antes de dizer alguma coisa

"Te acordei!"
"Não... eu já... ia levantar..."
"Não, boba. Fica."

Pego minhas coisas e saio
Levando apenas a memória

27.7.15

Ê Sôdade

Saudade doida
Saudade doída
Saudade ardida

Saudade quem
Saudade aquém
Saudade zen

Saudade aqui
Saudade assim
Saudade aí?

19.7.15

Duvido da Certeza

Duvido de quem não tem dúvida
Uma pessoa firme eternamente
Provavelmente
Não vê além de seu próprio universo

Quem enxerga além
De sua própria cerquinha
Vê o diferente, o esquisito
E se questiona:

"Não serei eu o estranho?"

O mundo não tem mais fronteiras
A voz o atravessa
Na velocidade da luz

Uma visão da realidade
Não é mais suficiente
Os olhos têm que ser no plural

A cabeça precisa de dúvidas

17.7.15

Sonho

Fui dormir ouvindo Rie Chinito
Sonhei um sonho
Sonho feito do que são feitos os sonhos:

Fantasia
Desejo
O que a gente quer
Mas não tem
Mais...

Acordei melancólico

14.7.15

3.7.15

500 Anos

Você se lembra dos 500 anos do Brasil? Eu não. Por que eu sou brasileiro, eu não desisto nunca. Mas tenho memória curta. E se eu fosse Mané das Bandêra eu fazia um poeminha. Talvez em alemão. Why not?
Mas agora né o Mané que eu quero lembrar. É o Vinícius. O bom cronista faz crônica até sobre a cadeira.
Mas bão mesmo é escrever sobre insights.
Eu acho que tive vários insights esses dias. Friso: eu acho.
O problema é que agora não lembro de nenhum em particular para compartilhar comigo mesmo. Digo comigo mesmo por que no fim das contas eu descobri que essas coisas pseudo-artísticas que faço são pra mim mesmo. Uma masturbação que não envolve sexo.
De qualquer maneira fico feliz em ter redescoberto esse canal e saído mais uma vez da inércia. Taí um bom tema pra essa crônica.
Acho que eu começo as coisas e nunca termino pra não perder essa coisa de sair da inércia. Eu gosto de sair da inércia, seja ela estática ou dinâmica. Se eu tô de um jeito quero logo ir pro outro. Se eu tô parado, quero andar. Se tô andando, quero parar.
Putz! Que insight! Que bom que tive esse insight. Insight parece ser uma coisa boa pra gente não correr o risco de se enquadrar em um transtorno mental.

Hehehe

Good night. Glad I'm back pra mim mesmo.

Chupa, todo mundo que não sou eu.

9.12.13

O Primo

Fazia muito tempo que eu não o via. Muito tempo mesmo. Uns 5 anos no mínimo. Eu ainda estava no ensino médio. Nós sempre tivemos uma ligação muito forte. Um carinho especial um pelo outro. Quando convivíamos mais, na época em que tanto ele quanto eu ainda morávamos com nossos pais, a gente vivia grudado. Na minha festa de 15 anos, dancei com ele antes de dançar com meu namorado. Foi até um acidente. Mas foi ótimo por que, eu não pensava nisso na época, ele estaria sempre na minha vida. Ele era da minha família. O engraçado é que o meu namorico acabou naquele ano mesmo. Na festa, na hora da valsa com o namorado, eu não consegui encontrar o menino, e meu primo tava ali rindo da minha cara. Peguei ele pela mão e puxei pro centro da pista. “Cala a boca e faz cara de apaixonado.” Ele fez cara de assustado. Embora eu fosse mais nova e menor que ele, eu batia muito nele.
Eu estava no computador, revezando entre o facebook e o livro na minha mão que eu precisava resumir. Aí ele apareceu. Falando que minha tia ia vir pra minha cidade e ele viria com ela. “Você me leva pra sair sábado?”
Meu namorado morava em outra cidade. Parece que meu primo sabia estar onde os meus namorados não estavam. Na mesma hora, já combinei com a menina com quem eu morava de fazermos alguma coisa no fim de semana.
Ele chegou no sábado na hora do almoço. Tivemos um tempo para colocar a fofoca em dia, por que a menina que morava comigo teria prova na segunda e queria dar uma estudada durante o dia para sair sem culpa à noite. 
Eu sempre achei ele bonito. A gente até era bem maduro por que eu sempre lembro de conversar com ele e falar pra ele que era lindo. E ele também falava pra mim. E a gente ficava numa boa, sem climinha, sem ciúmes. Ficava numa boa. A gente não ficava. Entendeu?
Quando eu vi ele descendo do táxi com minha tia, ele parecia outra pessoa. Ele exalava masculinidade, com a barba por fazer, os cabelos do peito se projetando por cima da gola da camisa. Minha tia me deu um beijo rápido. Ela viera para visitar uma amiga no hospital e não poderia almoçar com a gente, provavelmente dormiria no hospital. Eu e ele fomos direto pra um restaurante que eu gostava, perto da minha casa.
“E aí? Eu vi as fotos da sua namorada. Ela é muito bonita.” Ele deu um risinho arteiro. “Cê não sabe o que eu fiz? Eu peguei uma menina na semana passada.”
Na mesma hora foi como se o chão se abrisse embaixo dos meus pés. "Meu mundo caiu..." Eu fiquei horrorizada. Xinguei muito. Como ele podia ter feito aquilo? E ainda me contar com aquela cara lavada? Aquela cara de menino sapeca? Aquele sorriso maravilhoso com aqueles dentes perfeitos? Parece que isso era uma coisa que gerava um sentimento muito ambíguo dentro de mim. Desde pequeno ele conseguia me fazer gostar mais dele quando fazia alguma coisa errada e ria, como se aquilo não fosse nada. Eu nunca tinha percebido isso. Até agora. Falar em voz alta me fez perceber isso. É assim mesmo que isso funciona?
Eu nem lembro dos detalhes. Nem lembro o nome da namorada dele mais. Também, isso foi há tanto tempo. Mas eu me lembro de ficar puta com ele, decepcionada. Parecia que eu que tinha sido traída. Eu sempre colocava ele numa aura de perfeição, mesmo sabendo muito bem que ele não era perfeito. 
Tomei um gole do suco e fui ao banheiro. E foi ali que senti alguma coisa diferente, que eu não conseguia acessar na hora. Parecia que eu tinha recebido uma boa notícia. Me deu uma vontade de rir incontrolável. E eu ri muito e depois chorei um pouquinho, por não entender o que estava acontecendo, o que eu estava sentindo. Acho que foi isso. 
Voltei pra mesa e tentei ser racional. Falei pra ele que eu tava muito decepcionada, mas que eu não tinha nada a ver com aquilo. Terminamos de almoçar e fomos dar uma volta no parque.
Durante toda a tarde -- depois do parque fomos ao shopping -- eu ficava olhando pra ele, observando como ele se comportava. Quando passava alguma mulher bonita, a maneira que olhava. Era discreto e ao mesmo tempo firme. Era quase imperceptível pra quem não estivesse prestando muita atenção. Mas pra mim... Eu pensava que ele era um tarado. Será que ele sustenta toda essa azaração? Será que se alguma dessas mulheres der mole, ele pega também? Será que se eu olhar pra ele assim, ele vai querer me pegar? Será que ele olhava assim mesmo pra todas essas mulheres ou era eu que via aquilo? Minha cabeça tava completamente zonza. 
No momento que eu não tava mais aguentando, a menina que morava comigo apareceu. Ela me salvou e nunca soube. Quando ela chegou os dois começaram a conversar. Meu primo era excessivamente sociável e ela era daquelas pessoas que conversam sobre qualquer assunto. Tive tempo pra respirar. Fui no banheiro, dei uma volta. Recebi uma mensagem do meu namorado. Nem lembro o que dizia, mas não respondi. Aquela mensagem parecia vir de uma outra dimensão, para um outro destinatário, uma outra eu que não aquela eu daquela hora. Acho que é o Nietzsche que disse uma vez que o mesmo homem nunca entra no mesmo rio duas vezes. Se não foi ele, foi alguém tão importante quanto ele. Nunca gostei muito desses filósofos. Só gosto das coisas que eles escreveram. 
O fato é que eu me sentia como se tivesse ido dar uma voltinha fora do rio. Fiquei calada o resto do dia. De vez em quando eu reprimia ele pelas coisas que ele falava. Tudo que ele falava me dava margem a uma interpretação que me fazia me sentir no direito de julgá-lo. Climão. Climão pesado.
Mas à noite, tudo melhorou. O que não melhora com vodka? A gente saiu prum barzinho e depois foi dançar. E eu relaxei. Ninguém flertou com ninguém. Ficamos os três lá como se só a gente existisse na balada. Parecia que a gente tinha voltado a ser criança. A gente tava brincando na pista, zoando, rindo. Fomos embora muito depois das 4 da manhã.
Meu primo ia dormir na sala. Eu ia dormir no quarto da menina que morava comigo e a minha tia já estava dormindo no meu quarto. A menina dormiu muito rápido e começou a roncar. Eu não conseguia dormir. Tava muito quente, insuportável, mesmo com o ventilador ligado. Levantei pra beber água.
A cozinha tinha duas portas. Uma que dava para os quartos e outra que dava para a sala. 
Assim que eu entrei, ele também vinha da sala. Entramos exatamente no mesmo segundo. Ficamos ali um tempo. Um segundo, um minuto, meia hora, não sei. Mas teve um tempo em que o tempo parou. Ficamos nos olhando de longe, sem dizer nada. E, de repente, avançamos em direção um do outro. Ele me agarrou. Forte. Agressivo. Colocou as duas mãos dentro do meu short, apertando a minha bunda com força. Eu puxava ele pra mais perto. Queria sentir fisicamente a presença do corpo dele.
Foi só aquela noite. No chão da cozinha. Sem camisinha. Morri de medo de engravidar. Como se não bastasse os transtornos óbvios que uma gravidez naquelas condições geraria, ele era meu primo!
A gente voltou a se falar mais. Pelo facebook, por mensagem, pelo telefone também. Nunca sobre o que tinha acontecido no chão da cozinha. Durante alguns dias parei de criticá-lo por ter ficado com outra menina. Me sentia uma hipócrita. 

Mas é muito fácil esquecer a nossa própria hipocrisia.

Acho que meu tempo acabou, né?

Dedico esse texto ao fescenino Ruben Fonseca e ao transgressor da moral e dos bons costumes ditados pela família cristã brasileira Nelson Rodrigues. 

 Dedico também ao assassino da família mineira Lúcio Cardoso.
Eles me aliviam um pouco da culpa de escrever sobre temas tão condenáveis... Quem ficou de pipiu duro levanta a mão?
Dedico ainda ao Navarro por ser tão subversivo quanto eu (ou mais?) e por ter me apresentado o seriado In Treatment, no qual eu obviamente me inspirei para escrever esse texto.

Dans La Maison

Esse texto poderia ser uma crítica sobre o filme do qual eu surrupiei o título. Mas não é. Não vai ser. Vou escrever (com enorme dificuldade, por que eu estou digitando no teclado touch do meu celular, e por que tem muito tempo que eu não escrevo nada) sobre o que eu estou escrevendo, que é esse texto. 
Já ficou acertado então que ele, o texto, não será uma crítica “cinemática”. Será, ou é, como não poderia deixar de ser, uma crônica. 
Embora eu não esteja 100% seguro sobre o nome do estilo nesse momento, os meus quase 5 leitores sabem do que eu estou falando, pois já se acostumaram a ler esse tipo de texto escorrendo lentamente dos meus dedos para o teclado do computador. 
Hoje, no entanto, há uma diferença. O texto está peculiarmente fragmentado por muitos parágrafos, coisa que eu não costumo fazer. Se bem que, devido ao formato que escolhi para o blog, é difícil dizer quando surge um parágrafo. Vou ajudá-los.

E hoje as palavras não escorrem mais, o que era muito mais fácil com a ajuda da gravidade. Hoje elas têm que se esforçar. Elas vão se ralando, se entalando, contra a gravidade, para sair dos meus dedos e chegar até o cume: a tela do celular, onde os meus olhos enxergam o produto do meu parto pela primeira vez, ao vivo e a cores, e não pelo monitor do ultrassom.

Quando o texto começa? Ali em cima eu fiquei na dúvida se usava o presente ou o futuro. Quando começa a vida do bebê para a mamãe grávida? Quando ela começa a se referir a ele como alguém que é, em vez de se referir a alguém que será?

Isso está realmente se configurando (troquei a palavra anterior umas três vezes e ainda não tenho certeza se isso é realmente o que eu queria dizer) um parto (essa, sim, era uma que eu procurava). 

O Android nos oferece uma variedade de opções gratuitas de aplicativos. Contudo, ainda não encontrei um editor de texto que funcionasse satisfatoriamente. Fora isso tem a questão desse teclado touch. É a pior invenção de todos os tempos: uma coisa sem feeling, sem vida, excessivamente virtual para mim. 

Mas, ultimamente, tenho me conformado mais com essas coisas. Virei um dinossauro mesmo. Meu maior medo é o dia em que proibirem os carros com câmbio manual. Infelizmente, eu sei que um dia isso vai acontecer. A tendência, acredito que mundialmente, é que as máquinas cada vez mais se responsabilizem pelo trabalho que seria nosso. Antes se dizia que era para que os humanos pudessem usar sua tão elevada inteligência para fins mais nobres. Mas, pelo que tenho visto, o tiro saiu pela culatra.

As pessoas não estão usando aqueles neurônios libertos pela tecnologia para um fim mais nobre do que, por exemplo, trocar as marchas de um carro. Na verdade, as pessoas simplesmente não estão usando mais aqueles neurônios. Pra nada. A tecnologia se desenvolve então, não para nos dar mais tempo e energia para nos ocuparmos com coisas que realmente importam, mas apenas para que nossa inteligência atrofie. Para que nos afastemos cada vez mais do santo, do filosófo, de Shakespeare, e nos aproximemos cada vez mais dos chimpanzés. (Assistam o filme Waking Life. Leiam o livro Universo em Desencanto. Huahuahuahuahuahua... zuei grandão!)

Mas, voltando à vaca fria, esse filme, Dans La Maison, para o qual eu não vou escrever uma crítica, me fez querer escrever de novo. E a dificuldade está colocada no fato de meu computador, no momento, por razões que julgo ser mais prudente omitir, não estar disponível. (Ao bem da verdade, essa era a menor das minhas dificuldades. Esses dias tentei escrever um texto e não saiu nem um teste. E ainda apaguei sem querer a bagaça. Freud explica. Mas fica aí uma metáfora. Hein?)

E eu então lembrei de outro filme francês. Infelizmente, não me lembro a grafia correta em francês, mas me refiro à película entitulada em português O Escafandro e A Borboleta. Eu com preguiça, com birra, de usar essa merda de teclado pra escrever meu textinho -- o que agora estou fazendo com um dedo por que fica mais fácil segurar o celular -- enquanto o personagem do filme escrevia piscando um único olho. Eu uso um dedo e ele usava um olho. 

E, que coisa!, a mesma atriz estava nos dois filmes. Agora que me toquei. Mas nem adianta perguntar por que eu não lembro o nome dela. É uma loira que deve ter chegado (e muito bem, diga-se de passagem) aos 40 e tem um ar sensual (o verdadeiro sexy sem ser vulgar) que só uma francesa pode ter (pelo menos na minha imaginação). Acho que prefiro ela até do que a Julie Delpy (Antes do Pôr-do-Sol?).

Enfim, talvez essa dificuldade, de ter que usar o celular pra escrever, e comparar isso ao que o homem preso dentro de si tinha que enfrentar, tenha me motivado mais ainda para escrever agora.

Esse é o paradoxo da natureza humana: quanto mais difícil, maior a probabilidade de você ir lá e fazer. 

Não, eu reconheço que isso não é lá tão comum assim. E não é pra menos. Lembra do que eu disse agora há pouco sobre a tecnologia?


p.s.: Esse texto não ia acabar aqui. Mas eu não resisti em deixá-lo assim quando a pergunta surgiu. Adoro terminar com pergunta.

Dedico esse texto ao cinéfilo Rony que me recomendou esse filme (e tantos outros).
Dedico também à Duda por que eu amo ela, a tigela e o coração. E ela assistiu o filme comigo. 

E quando ela ri me faz acreditar na felicidade.

22.3.13

Tudo Muda. ou Melhor ou Pior? ou Diferente.

Por mais que doa no coração dos puristas, saudosistas, velhos (de alma, como às vezes eu sou), as coisas mudam. O ser humano existe do jeito que é, homo sapiens, há muito pouco tempo quando comparamos com o quanto tempo tem que o mundo é mundo. Mas chama atenção demais o quanto as relações intra e interespecíficas e a maneira de interagir com o ambiente mudou para essa espécie nesse pouco tempo. E mais louco ainda é perceber como essas mudanças se processam cada vez mais rápido. Tenho certeza de que, se você tá lendo esse blog, você tem acesso privilegiado à informação e, mais do que isso, tem know-how para buscá-la e encontrá-la. Então, se você ainda não viu, procure aí um gráfico que mostra uma linha do tempo e as transformações que ocorreram no mundo pós pré-história (ficou esquisito, mas eu realmente não sabia outra maneira de escrever isso). Quando você se deparar com tal linha do tempo, você vai perceber que as mudanças vão se aproximando cada vez mais.
É até cliché comentar isso, mas acho que é a  melhor ilustração para o que eu quero dizer. Pensa em aparelhos de emissão sonora. Até o final dos anos 70, o que rolava era o vinil, o LP. Tinha que ter uma vitrola (toca-disco) para ouvir sua banda favorita. Imagina o cara sentado em uma sala de estar, ouvindo um disco do Caetano, segurando a capa do disco retratando o cantor com aquela cabeleira farta e rebelde. Depois surgiu o toca-fita. Ficou muito prático carregar as suas músicas prediletas. Elas cabiam no seu bolso. Depois veio o walkman e você não só carregava as músicas no seu bolso, ainda que com certo volume, mas as ouvia enquanto caminhava (daí o nome do aparelhinho). Isso sem falar que a experiência passou a ser individual, quando antes ela era necessariamente, forçosamente, compartilhada (funkeiro no buzão). A liberdade individual tomava novos rumos. Depois veio o CD. E, embora o tamanho do discman não seja tão diferente do walkman, a qualidade do som é inquestionável. As fitas se deterioravam rápido com o uso. Depois veio a era do mp3. Estamos nessa era. E, para fechar o meu argumento, agora compare a distância temporal entre uma mudança e outra. Quanto tempo entre o lançamento do toca-disco e do toca-fita? Quanto tempo entre o CD e o mp3? Percebe?
Mas o lance dos aparelhos de emissão sonora é só uma ilustração. Vamos falar sobre algo que gera mais repercussões: as relações interpessoais. O conceito de rede social existe há muito tempo (muitas décadas, talvez séculos, não sei), mas só agora ele tá na boca do povo. E o que tem me chamado a atenção é a maneira como as novas redes sociais se formam e como elas são superficiais e frágeis. E aí, fazendo uma analogia com os toca-fitas e mp3 players, pensa em como seria você falar sobre seu dia para alguém nos anos 70 e como é hoje. Eu não vivi nos anos 70, mas imagino que, se você quisesse contar para alguém sobre alguma experiência que teve, teria que conversar com a pessoa. Talvez você pudesse telefonar para essa pessoa. Talvez pudesse mandar uma carta (o que demandaria bastante tempo, tanto na confecção da carta quanto no processo de fazê-la chegar ao remetente, e esse tempo, em geral, te dava a oportunidade de se esmerar). E hoje? Você tira uma foto com seu celular, posta no facebook e escreve uma linha e meia descrevendo ou comentando a foto. Pronto. O mundo inteiro viu. Rápido, não? Mas a questão é: isso é melhor ou pior? Tenho percebido que as pessoas não precisam mais se esforçar para se expressar. Não há muito o que pensar, não dá nem tempo. Eu tô vivendo aquilo e, naquele mesmo minuto, já tô dizendo pro mundo que aquilo tá acontecendo comigo. O que me preocupa é que às vezes, essa rapidez não nos dá tempo para refletir sobre a experiência, sobre seu significado (se é que teve algum), e, de repente, já tá lá, para todo mundo ver (ainda que ver não seja enxergar), todo mundo saber. E aí, das duas uma:
1. Experiência vazia: Você publica um monte de coisa sem significado algum, por que não dá tempo para refletir sobre se houve ou não algum siginificado e, consequentemente, se valia ou não a pena publicar.
Ou...
2. Experiência significativa transformada em experiência vazia: Você publica algo que teve sim um significado enorme para  você, mas, da mesma maneira, não acrescenta muito, por que foi rápido demais e você nem mesmo teve tempo de perceber esse significado. E, pra piorar, como tudo acontece tão rápido, provavelmente aquela sua publicação que teria significado, vai ser sobrepujada por um mar de outras sem significado algum.
Já tentou achar uma postagem antiga no facebook? O que é uma postagem antiga? Quantas postagens surgiram na sua timeline nas últimas 24 horas? Quantas dessas tiveram siginificado? Cês entendem a minha questão?
O surgimento dessas novas redes sociais, as virtuais, através da net, certamente deve ter funcionado como um canal para diversas pessoas que se sentem embaraçadas em contextos sociais concretos. E, a César o que é de César, eu reconheço esse valor. Porém, ao mesmo tempo, parece que o surgimento desse canal tirou dessas pessoas a necessidade de se esforçarem um pouquinho e desenvolverem habilidades que elas não tinham (agora nunca terão). Mas será que elas vão precisar dessas habilidades no mundo de hoje? Essa é uma pergunta que ainda não consegui responder definitivamente. Em geral, posso afirmar que ainda há uma necessidade de saber socializar presencialmente, na maioria dos contextos. Essa necessidade, contudo, vem diminuindo. Vão surgindo novas relações que permitem que uma pessoa passe sua vida toda dentro de casa, sem nunca se relacionar fisicamente com seus pares. Só não sei se isso é bom. Ou ruim. Ou simplesmente diferente. Você sabe?

Dedicatória: Como não tenho escrito muito ultimamente, a partir de hoje, quando o fizer, vou escrever uma dedicatória para pessoas que importam. Digo pessoas por que meus textos têm ficado cada vez mais escassos, de forma que quando surgi um, eu devo aproveitar para dedicá-lo para o maior número de pessoas possível.
1. Em primeiro lugar dedico esse texto para a minha cara metade, minha linda, habilidosa, astuta, genial, brilhante, gostosa namorada. Por que ela sempre reclama que eu não escrevo mais pra ela. Eu tento explicar que eu escrevo quando tô sofrendo de amor. E ela, felizmente, só me faz feliz. Acho que eu também escrevi no começo do nosso namoro quando eu achava que nem era real, que era um sonho. Mas hoje, super, hiper, felizmente, vejo que nosso amor é real, concretíssimo.
2. Vou dedicar esse texto também pro Zuba que me deu um mousepad hoje. Só pelo mousepad? Não, ele também tem me ajudado muito com meus estudos. Então, dedico pro Zuba também.
3. Dedico também pro Rony e pro Navarro por que eles escrevem mais do que eu. Só por isso, já merecem.
4. E, finalmente, eu quero mandar um beijo pro meu pai, pra minha mãe e pra você. Esse "você" nos anos 80 seria a Xuxa. Mas hoje não é mais. Hoje é você mesmo que tá lendo esse texto. Um beijo.

20.1.13

Apostas

Sabe aquelas cadeiras triplas? Você pode encontrá-las em salas de espera, em rodoviárias, em alguns bancos (instituições financeiras). São aquelas que são uma cadeira grudada na outra, lado a lado, formando um trem em que os vagões não andam um atrás do outro, mas lado a lado.

Como nas receitas, reserve essa ideia. Precisaremos dela mais tarde. Agora vamos pra outro lugar.

É interessante como o ser humano evita o contato com outros seres também humanos em lugares públicos. Tenho a impressão de que isso é um fenômeno recente. Velhos, quanto mais velhos são, não agem assim. Se bem que, talvez por serem velhos, e aqui está outro fenômeno dos tempos mais recentes, se sentem só. E, por isso, talvez tenham o hábito de tentar se comunicar com estranhos em lugares públicos. Ainda assim, acredito que há 50 ou 60 anos, as pessoas não se evitavam tanto quanto se evitam hoje. Existe gente demais no mundo. Então evitamos o contato para não ficarmos sobrecarregados. Por isso dizemos bom dia dentro do elevador pra ninguém em particular. E baixamos a cabeça. E torcemos pra chegar logo no térreo.

O que nos leva de volta às cadeiras triplas. Se você encontra uma dessas e não tem ninguém sentado, onde você senta? Imagina a Patrícia Poeta dizendo: "A sua resposta pode falar muito sobre sua personalidade, é o que diz um estudo da Universidade de Massachusets..." Não. Não é a Patrícia Poeta. É o que eu digo, sem estudo nenhum. Eu imagino que a maioria das pessoas sentaria em uma das cadeiras das pontas, esquerda ou direita. Comportamento que eu vou chamar aqui de uma aposta conservadora. A maioria das pessoas, uma maioria até maior do que a supra-citada, preferiria sentar-se sozinha nesse tipo de assento. Só que o mundo tá cheio demais, então entende-se que há uma grande probabilidade de uma outra pessoa, um estranho, chegar e querer se sentar também.

Agora invertamos a situação.

Você chega e encontra um cidadão sentado lá. Se esse estranho estiver sentado em uma ponta, você se senta na outra. Agora, se ele estiver sentado no meio, além de eu arriscar dizer que você só vai se sentar se estiver realmente precisando, machucado ou exausto, digo que esse estranho faz apostas ousadas.

Escolher sentar-se no meio, quando as três posições estão vagas, é uma aposta ousada, se opondo à aposta conservadora de se sentar em uma das pontas na mesma situação, pelo seguinte: pela mesma razão que você escolheria sentar-se, caso uma ponta estivesse ocupada, na ponta oposta, existe uma chance menor de, caso alguém chegue, esse alguém querer sentar-se ao seu lado, o que forçaria você a dividir o assento com um estranho.

Entretanto, assim como com os investimentos financeiros, se o retorno é alto, o risco também o é. Caso o segundo a chegar esteja realmente querendo ou precisando se sentar, ele vai ignorar os costumes do nosso século, e se sentará em uma das pontas, colocando-se ao lado do nosso apostador arrojado que sentara-se na cadeira do meio inicialmente. E, se já não queríamos compartilhar o assento com um estranho com uma cadeira nos separando, o que dizer de sentar lado a lado com o desconhecido?

28.6.12

Sobre Estereótipos e Preconceitos

Ele trabalhava no parque da cidade havia bastante tempo. Estava satisfeito. Aos 58 anos de idade, já tinha feito de tudo um pouco, como costumava dizer. Trabalhou como servente de pedreiro e chapa antes de se casar. Depois, como motorista de ônibus até que foi demitido por trocar socos com um passageiro. Quando jovem, tinha o pavio curto. Mas hoje em dia não. Era calmo, até sorridente. Estava satisfeito com sua carteira assinada, seu vale-transporte. O trabalho também não era ruim. Era calmo. O lugar era bonito. Assistia às crianças brincando, os velhos alimentando os pombos no intervalo entre uma manchete e outra do jornal diário, os jovens passando correndo com seus tênis coloridos e bicicletas tão sofisticadas quanto carros.
Mas, naquela manhã, dois grupos novos surgiram no parque. Ele nunca havia visto nenhuma daquelas pessoas por lá.
O primeiro grupo, 3 homens, por volta de seus 30 e poucos anos, entraram correndo no parque, carregando uma bola de futebol, e foram direto para a primeira quadra vazia. Ele deteve o carrinho por um momento. Já era mesmo tempo de fazer uma pausa. O que três marmanjos estariam fazendo no parque às 10 da manhã de uma terça? Será que não trabalhavam? Não é possível, pensava. Sentou-se no banco mais próximo embaixo de uma árvore frondosa que protegia sua cansada careca do sol forte. Apenas observava enquanto com um lenço secava algumas gotas de suor que começavam a surgir na testa. Os três se portavam como crianças: riam, chutavam a bola para fora do campo, gozam com a cara um do outro. E ele foi seduzido. Começou então a conjecturar sobre o porquê daqueles homens estarem ali. Deveria de haver uma explicação para isso. Tinham boa aparência, cabelos bem cortados, barbas feitas, usavam meias brancas e tênis, shorts e camiseta. Um deles também tinha um boné. Poderiam estar de férias, imaginava, ou talvez são autônomos e hoje é um dia fraco para o negócio deles. Poderiam ser professores e trabalhar à tarde e à noite. Bom, alguma coisa assim seria. Foi quando chegou o segundo grupo.
Cinco jovens, por volta dos 20 e poucos anos, e dois bebês. Os jovens usavam calças jeans ou bermudas xadrez. Alguns usavam camisetas largas, outros estavam sem camisa. O mais velho deles carregava o menor dos bebês no colo. Tinha os cabelos compridos e não usava camisa, ostentando uma enorme barriga e muitas tatuagens. O bebê tinha pouco mais de 1 ano, como se tivesse a pouco aprendido a caminhar com as próprias pernas. Traziam skates e se dirigiam para a pista. O ex-motorista de ônibus decidiu então que sua pausa se prolongaria um pouco mais. Percebeu rapidamente que os bebês eram filhos do rapaz tatuado, pois chamavam-no de pai quando queriam demonstrar alguma manobra, como ficar em pé em cima do skate. Ele não dava muita atenção. Estava ocupado com as suas próprias manobras na pista e com a atenção que não dava, mas recebia dos outros jovens. O que esses jovens estariam fazendo ali àquela hora em pleno dia de semana? Certamente um bando de desajustados, pensava apoiado ao carrinho preparando para se levantar. Certamente usam drogas, concluiu.
Guardou o lenço no bolso e seguiu em frente, empurrando seu carrinho, balançando a cabeça em reprovação.

31.12.11

Ano Novo

Então, às margens do novo ano, vou escrever sobre... sobre... é...
Eu pensei em fazer um texto sobre resoluções de ano novo. Mas desisti. A coisa mais bacana sobre resoluções de ano novo que vi esse ano (tá acabando) foi um cara que disse que a resolução dele seria 1280x1024. Entenderam?
Enfim, não vou escrever sobre resoluções. Tô mimado hoje. Vou escrever sobre o que eu quero pra "esse novo ano que se inicia" (quantas vezes você já ouviu/leu essa frase? e o pleonasmosinho?).
Bom, uma coisa que eu queria muito, de verdade mesmo, é que minha irmã ganhasse a mega da virada. É, por que ela joga. Eu, nem isso. E como eu não jogo, se ela ganha, é o melhor que pode me acontecer. Se o raio não pode cair em cima de mim que pelo menos caia próximo. E como é muita grana e eu resolvi estudar de novo, eu tenho certeza que ia sobrar um troquinho pra mim, ela vai investir no futuro da saúde do país.
Outra coisa que eu queria é que os professores fossem melhor... mais bem... caraca, não sei como diz isso... fossem mais valorizados. Eu li uma reportagem na Veja esses dias falando sobre o sistema de educação da China. Não que eu acredite em tudo o que a Veja diz, muito pelo contrário (não consigo dizer isso sem pensar em penteados...). Inclusive eu tava conversando com meu pai sobre esse meu ceticismo midiático. Ele tava falando/reclamando que eu não acredito em nada, não acredito na Veja, na Globo, etc. E eu disse que não é questão de não acreditar. Eu estudei jornalismo durante três anos. Conheço alguns jornalistas que já trabalharam ou trabalham para meios de comunicação de vulto (editora Abril, Globo, TV Senado, Radiobrás - hein?). Assim sendo, tenho meus motivos para desconfiar. De forma que vejo tudo como uma opinião, um mero ponto de vista. O que eles ensinam na faculdade de jornalismo é que o jornalista não pode ter opinião. O jornalista tem que apenas apresentar os fatos. É claro que as coisas não funcionam assim. O jornalista tem que escrever de maneira que aparente não ser opinião (com exceção dos editoriais). E aí eu leio ou ouço alguma coisa e só acredito se tiver informações de outras fontes que corroborem o que foi dito. Mas, como é de meu costume, estou digredindo. Voltemos à reportagem da Veja sobre a educação na China. Não sei se é daquele jeito mesmo, mas se for, o Brasil (e o mundo Ocidental) tem muito que aprender com eles. Não vou me alongar aqui, mas basta dizer que, segundo a reportagem, o investimento principal lá é feito no profissional à frente da coisa: o professor (You don't say!). Aqui a gente vê muita escola particular se gabando das excelentes instalações. Tem escola que tem quadro/lousa digital. Tem escola em que todo aluno tem iPad. E algumas escolas têm bons professores. E na escola pública, nem isso tem. Na China (e agora vou assumir que vocês já entenderam que todas as afirmações que eu fizer sobre o assunto se baseiam no que li na reportagem) é um professor bem preparado, uma sala de aula e um quadro/lousa (de escrever em cima mesmo). E as salas não são pequenas. O Brasil tem mania de pensar a curto prazo. Há uns 500 anos o país não perde essa mania. E a bem falada democracia não ajudou nisso. Essa história de mandato de 4 anos, com os políticos daqui, faz com que todo projeto dure no máximo 3 anos. Por que o quarto ano eles gastam (tempo e dinheiro público) para se reeleger ou eleger alguém de sua laia. E um sistema educacional sério não se estabelece em 4 anos. Chega disso.
Sabe outra coisa que eu queria para o próximo ano? Que acabassem as propagandas, os comerciais. É, a única propaganda seria a boca-a-boca. No máximo as empresas poderiam dizer aos potenciais clientes que elas existem e que oferecem o produto ou serviço que eles procuram. Conversando com meu pai sobre isso, ele disse que não seria bom, pois teríamos que pagar para ter acesso a programas de televisão, por exemplo. Uai, a única coisa que mudaria nisso é que esse relacionamento televisão/telespectador seria mais honesto. Nós já pagamos para assistir o que passa na TV, ao consumirmos tudo que é anunciado nos intervalos comerciais sem refletir se precisamos daquilo de verdade ou não.
Ah, vamos voltar na política! Quando o Zé Dirceu rodou, todo dia o Jô entrevistava algum político. Entrevistava um tucano num dia, um petista no outro. Um dia ele entrevistou o Mercadante e o então Senador, que não tem nem mesmo minha empatia, disse algo interessante. Eu vou pegar a idéia dele e adaptar um pouquinho por que não lembro exatamente o que ele disse e o que eu inventei. Mas imagina se os candidatos não pudessem produzir suas campanhas. Imagina se a gente pegasse uma equipe de TV que ficasse à disposição dos candidatos no horário em que o horário político passasse na TV para filmá-los ao vivo sem vinhetinha, sem equipe de backstage, para que eles falassem de suas propostas. E mais, imagina que todos os candidatos a uma determinada vaga tivessem direito a falar pelo mesmo tempo, independente do tamanho do partido (ou de sua conta bancária).
Eu li um trem esses dias que achei muito engraçado e muito verdadeiro: se o voto mudasse alguma coisa, seria proibido.
Ufa! Acho que é isso que quero para o ano que vem, além dos deliciosos clichés ("muito dinheiro no bolso / saúde pra dar e vender...").

5, 4, 3, 2...

29.9.11

Depoimento de um ex-aidético (história verídica)

Certa vez viajei para Manaus em uma viagem de ecoturismo. Durante o passeio, distraído, fui picado por uma rã. Imediatamente fui para o primeiro pronto socorro que havia por ali. Lá chegando, fui prontamente atendido pelo infectologista de plantão. O médico auscultou meu baço e confirmou o diagnóstico: eu estava com aids. Fiquei muito abalado psicologicamente. Iniciei o tratamento na mesma semana tomando diclofenaco potássico de 8 em 8 horas e passando por sessões de quimioterapia diárias. Sofri terríveis efeitos colaterais, como a claustrofobia e a miopia. Mas valeu a pena. Eu venci a luta contra o rotavírus, o vírus da imunodeficiência humana.

29.8.11

Super Homem

Super-Homem: "Pra mim não dá mais!"

A janela de trás da mesa do presidente explodiu preenchendo a atmosfera do Salão Oval, por algumas frações de segundo, com uma nuvem de cacos de vidros. Os seguranças já estavam cercando o presidente e o encaminhavam para a porta quando todos, eles, o presidente, o vice, o secretário de defesa, finalmente perceberam a presença dele.
Estava bem ali, no centro do Salão Oval, em sua pose clássica, com as mãos na cintura, a capa esvoaçante, devido ao vento que agora entrava pela janela arrebentada, o penteado impecável como sempre, o imponente e inconfundível S no peitoral avantajado.
O presidente se desvencilhou dos seguranças e começou a esbravejar:
- Porra, Super-Homem! Que merda é essa?! Isso é jeito de entrar na minha sala?!
- Quem falou que a boca é sua? - sua voz era calma e ele fitava o presidente com olhos impassíveis.
Todos na sala, menos ele, sentiam um calafrio. Ele nunca havia feito ou falado nada assim. O presidente agora baixava o tom de voz.
- Pô, quê que tá acontecendo, cara?
- Todo mundo sentadinho. Os seguranças podem sair.
O vice-presidente quis protestar:
- Peraí, por que tirar os seguranças?
O secretário de defesa quis se desculpar. Precisava resolver umas coisinhas e tinha marcado de almoçar com a esposa.
- Agora, caralho! - exigiu o Super-Homem.
Mais que depressa, todos obedeceram. Os seguranças saíram quase correndo da sala, sem olhar pra trás. O presidente, sentou-se na poltrona, entre o secretário e o vice. E o Super-Homem sentou-se na cadeira do presidente, depois de, com um super sopro, retirar todos os cacos de vidro de cima da mesa, juntamente com tudo o mais que havia ali. Então começou:
- Os senhores sabem o que eu acabei de fazer?
Os três homens se entreolhavam.
- Era mais uma pergunta retórica mesmo. Eu acabei de matar o Lex Luthor. Matei ele e qualquer um que já tivesse dito bom-dia pra ele. É isso mesmo. Cansei dessa merda. Prende o cara, o cara é solto. Prende o cara, o cara volta. Vai se fuder! Ninguém aguenta mais essa merda. Matei o filho da puta. Posso garantir que ele não sofreu. Foi rápido e indolor. Dei um surdão nele, sabe? Sabe aquele tapa duplo que policial dá em neguinho? Com uma mão de cada lado da cabeça, pra estourar os tímpanos do infeliz? Pois é. A cabeça dele explodiu. Não sobrou nada.
O secretário de defesa tentava disfarçar, mas seus joelhos tremiam. Seu rosto tinha perdido todo o sangue. De repente, virou para o lado e vomitou. Os outros dois homens o olhavam com certa piedade e algum nojo. O Super-Homem o olhava com desprezo e perguntou ao presidente:
- É essa a qualidade de homem que você consegue para ser secretário da defesa do seu país? - virou-se para o secretário. - Aí, mané. Tu tá demitido. Pode ir embora. Vaza.
O homem se levantou e saiu de cabeça baixa.
- Continuando. Bom, se o Luthor e todo mundo que trabalhava para ele estão mortos. O que isso significa? Hein, seu vice? Presidente? Não? Não sabem? Vamo lá, galera!
- Um mundo melhor? - arriscou o vice, timidamente.
- É. Isso também. Certamente. Gosto da maneira como você pensa, vice. Mas não é bem isso que eu ia dizer. Significa que agora sim eu sou indestrutível. Ninguém mais tem acesso à kriptonita. Eu sei que cês tinham um estoque pequeno guardado numa base subterrânea no deserto de Mojave. Prestaram atenção ao tempo verbal? Tinham. É. Eu fiz uma obra lá digna de um empreiteiro. Arranquei a porra toda do chão e mandei pro espaço, pra bem longe do sistema solar. Tá certo que alguns de seus funcionários morreram. Mas, é assim mesmo, né? Eles tiveram que aguentar essa pelo time. Não dava pra arriscar entrar lá e pedir licença. Qualquer zé roela que pegasse um estilingue e uma pedrinha verde filha da puta daquela podia me matar. Tem charuto aqui?
O Super-Homem começou a abrir as gavetas da mesa do homem anteriormente conhecido como o mais poderoso do mundo, enquanto este tentava se manter impassível sentado no sofá ajeitando o nó da gravata.
- Ah, achei!
Usando sua visão de calor, acendeu três charutos Cohiba da caixa que encontrara. Deu um para cada um dos homens que restava no sofá e voltou a sentar-se na cadeira do presidente. Com os pés sobre a mesa, soltava grandes anéis de fumaça que se esvaneciam lentamente.
- Sempre quis fazer isso.
O presidente seguiu seu exemplo, colocando os pés sobre a mesinha de centro e cutucou o vice:
- Relaxa, cara. Se ele quisesse matar a gente, já teria feito.
- Isso, presidente. Isso mesmo.
Os três riram serenamente, como três velhos amigos que se encontravam conversando sobre reminescências.
- Mas, Super-Homem, então o que te traz aqui? - o vice arriscou.
- Bom, o lance é o seguinte. Não vou mais trabalhar pra vocês. Vocês é que vão trabalhar pra mim. Sabe, se os humanos, terráqueos não conseguem cuidar de si mesmos a ponto de colocarem em risco sua própria sobrevivência e a existência do planeta, isso significa que vocês não podem ter a responsabilidade de gerenciar o planeta por vocês. Eu pensei em ir à televisão dar as boas-novas. Dizer que agora o bicho ia pegar, que quem não andasse na linha ia ter que responder diretamente a mim, fosse quem fosse, gari, professor ou presidente, onde quer que estivesse, na China ou no Brasil. Mas não. Pensei melhor e vim aqui ter essa conversinha com você primeiro. - disse olhando para o presidente. - Posso te chamar de você, né? Eu quero que o senhor convoque uma reunião com os líderes das maiores e mais poderosas nações. Quero o chanceler alemão, quero o primeiro-ministro inglês. O Berlusconi, não. Esse filho da puta eu faço questão de trucidar com minhas próprias mãos. Vai servir de exemplo pros outros. Bom, voltando à reunião. Quero a galera do BRIC, os japoneses, os argentinos. Acho que por enquanto tá bom. Pode jogar mais alguém aí no bolo que você achar interessante. Convoca essa reunião em meu nome. Abre com os caras. Diz o que eu já fiz: com o Luthor, com a Kriptonita, aqui na sua sala... Pode falar que o secretário de defesa vomitou. Esse cara sempre foi muito arrogante. Merece essa humilhação pública. Semana que vem eu volto pra essa reunião. Alguma dúvida?
- Vamos discutir o quê exatamente?
- A gerência do mundo. Já falei com a galera lá da Liga da Justiça. O Batman vai cuidar das finanças. O cara sempre teve grana e sabe lidar com isso. Eu vou cuidar da paz, ou da guerra. Os humanos escolherão como vai ser. A Mulher-Maravilha é que vai ser a presidente do mundo mesmo. Essa coisa de mulher no comando tá na moda, né? O Lanterna-Verde vai cuidar do meio ambiente. O resto a gente vai debatendo juntos. Mas que fique uma coisa bem clara: acabou essa merda de humano batendo em humano, humano abusando de humano. Isso cês já podem adiantar pra galera lá.
Levantou-se e apagou o charuto com um sopro gelado. Deixou-o cair dentro do cesto de lixo.
- Se os senhores não têm mais nenhuma dúvida, eu vou indo nessa.
- Não, acho que tá tudo bem claro.
- Então, até semana que vem.

23.8.11

Moon

Moon Of My Life

I ain't got the power of a politician
I ain't got the fame of a soccer player
I ain't got the money of a tycoon

But I've got ears
That listen more accurately to your voice than any other
I've got eyes that sparkle in a singular way
When light reflected by you reach them
I've got a nose that works much better
When close to your neck and hair
I've got hands that will hold you
For as long as you want them to

And I've got a heart
with true love
and your name is written all over it

22.8.11

Coisas Que Não Entendo

Sobre Coisas que Eu Não Entendo: Política e Economia

Eu não entendo nada de política. Confundo legislativo com executivo e judiciário pra mim é um bando de homem com roupa engraçada e fala pomposa. Não entendo também de economia em larga escala. Jamais poderia auditar as contas do município ou do estado. Que dirá da nação!
Minha culpa, minha máxima culpa. Nunca gostei muito de estudar. Nunca fui atrás de entender as coisas, sabe? Minha culpa ou mea culpa ou meia culpa. (Problem, sistema educacional?) É que, pensando bem, depois que eu decidi entrar na faculdade de medicina, eu comecei a estudar mais sério. Mas, cá entre nós, o que a gente aprende na escola no Brasil? O que nos exigem para entrar numa faculdade? Aprende a fazer conta, aprende a ler e escrever... tá certo que dá pra conseguir um diploma de segundo grau, digo, de ensino médio, sem ter aprendido nada. Todo mundo sabe disso. Bom, mas voltemos pra o que a gente "aprende". Aprende, digo, desculpem, não aprendemos história e geografia. Não, não mesmo. Saber que a capital do Brasil não é Buenos Aires não é saber geografia. Saber que quem descobriu o Brasil não foi Cristovão Colombo não é história. Me disseram, quando decidi estudar pra passar no vestibular, que eu teria que ler o Le Monde Diplomatique. Que nada. Assiste o Jornal Nacional uma vez por semana que tá bom demais. No fim, é tudo bitolar. A gente tem que bitolar (os mais jovens que procurem o Aurélio ou o Houaiss para maiores explicações) pra passar no vestibular. O que nos afasta cada vez mais de entender o que acontece por aí. Mas, estou digredindo, como sempre faço quando escrevo. É um tipo de hobby eu acho.
O que eu quero dizer é que, mesmo que eu tivesse sido um bom aluno, um cara interessado, um cara curioso, um cara de iniciativa ("um cara interessante, esculacho seu amante"), a escola não teria me ajudado em nada para que eu entendesse como funciona essa coisa de política e de economia. Eu poderia ter aprendido se eu tivesse corrido atrás. Mas a escola não teria tido nada a ver com isso.
Eu não sou o melhor exemplo disso, sabe? Nem disso nem de nada. Eu sou provavelmente o cara mais velho que estuda medicina na Universidade Federal de São João del-Rei e, muitas vezes, me pego pensando que sou um dos mais imaturos e ignorantes. O pessoal de vez em quando me chama pra entrar no CA. Imagina, eu no CA. Tá de sacanagem, né? Eu não vou nem em reunião de condomínio, só pra se ter uma idéia da minha apolitização (o termo existe?).
Agora, mesmo um cara ignorante como eu percebe que alguma coisa vai mal, muito mal por aqui. Há sim algo de podre no reino Tupiniquim. Não é estranho que os caras que decidem o salário de todo mundo tenham os maiores salários e os melhores aumentos (sem mencionar os benefícios: PODER)? Não é estranho já ser até um cliché dizer que um país só cresce com educação de qualidade e os professores do estado e da federação, tanto da base quanto de nível superior, terem salário pífios? Roberto Freire já falou. Cristovam Buarque já falou. Porra, até o Gabriel Pensador já falou. ("O Nietzsche enloqueceu e eu não vou nada bem...") E tá na boca do povo. Ou você pensa que o povo acha que a vida vai melhorar depois da Copa 2014? Ou depois das Olimpíadas no Rio? Vai ser divertido. Ah, isso vai! Imagina, assistir de pertinho uma partida entre Espanha e Alemanha. Isso sim é que é futebol! Imagina ver o Usain Bolt quebrando o recorde dos 100m debaixo do seu nariz? Mas, será que o povo vai ter grana para pagar pelos ingressos? Os professores certamente não. Afinal, eles são professores por que amam o que fazem, né? Mas vai dar pra galera levantar um din-din legal vendendo cerveja e tropero na porta dos estádios, alugando seus quartos, salas e banheiros pra gringaiada.
Mas e a conta disso tudo? A conta do estádio do Corinthians? A conta da reforma do Mineirão? A conta de botar os aeroportos funcionando a contento? A conta de se erguer um setor hoteleiro que dê conta do recado? A conta de botar uma rede de transportes que funcione? Quem paga?

É nóis, mano.

E quem vai lucrar com isso? Te garanto que os vendedores de cerveja e tropero serão os menos beneficiados dentro do rol seleto daqueles que o serão.
Mas e se esse esforço todo que tão fazendo, desde não sei quando, para trazer Copa e Olimpíadas pra cá, fosse direcionado para a educação? Será que mudaria alguma coisa? Será que as federais estariam "ameaçando" greve? Será que assistiríamos desabafos eloquentes como o da professora Amanda Gurgel (quem ainda não viu, procure no YouTube. É de arrepiar!) ou textos pseudo-politizados como esse que escrevo (que não mudam nada, diga-se de passagem)? Será que sobraria verba para ensinar sobre politica e economia nas escolas?

Eu não sei. Não entendo nada de política ou de economia.

20.8.11

Cliente Especial

Cliente Especial

Era um dia calmo. Ela não sabia dizer quantos haviam passado por ali. Não contava e nem saberia estimar quantos. Mas sentia, sabia dizer quando era um dia calmo e quando não. Percebia pelo espaço de tempo entre um e outro que entravam no seu quarto, pelo trânsito nos corredores e, principalmente, pelo cheiro no ar. O cheiro mudava muito em dias de mais movimento. Ela não diria que o cheiro era pior: já havia se acostumado e era indiferente a ele. Mas percebia que ele se intensificava.
Um homem se aproximou:
- Quanto é?
- Trinta. - respondeu sem levantar os olhos do livro que lia.
Ela não precisava. Sabia exatamente como ele era. Não por fora. Ele poderia ser alto ou baixo, magro ou gordo. Por dentro, no entanto, todos eram iguais.
- Ok. Vamos. - disse homem com voz hesitante.
Fechou a porta encerrando-se com aquele joão ninguém em seu quarto. Colocou o livro sobre a cômoda e disse a ele que tirasse a roupa enquanto ela fazia o mesmo. Para ela, obviamente, era muito mais rápido já que vestia apenas um shortinho e um top, sem calcinha nem sutiã. Deu uma olhada para trás, enquanto abria o pacotinho com os dentes, e viu o homem se despindo enquanto olhava para ela como se visse uma miragem. Finalmente ele se deitou na cama. Ela veio por cima e levou menos tempo para terminar com ele do que ele precisou para se vestir outra vez. O homem pegou o dinheiro na carteira, entregou a ela e se foi.
- Obrigada.
Voltou a seu livro depois de se vestir novamente, mas antes mesmo que terminasse a primeira linha, sentiu que outro homem a observava à porta. Sua presença era diferente. Ele não disse nada. Apenas a olhava. Seus olhos pareciam atravessá-la ao meio. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele entrou no quarto também, empurrando-a para perto da cama. Ela não sabia o que estava acontecendo, não compreendia. Instintivamente foi até a cômoda para colocar o livro sobre o móvel, colocando-se de costas para ele. Tentava ganhar tempo. Tempo pra quê? O que exatamente estava acontecendo? Antes que pudesse fazê-lo, sentiu um aperto firme em seu braço esquerdo que a obrigava a dar meia volta e encará-lo novamente. O livro foi parar no chão. Ela teve ímpetos de gritar, mas antes disso, a outra mão do homem agarrava seu outro braço e o corpo dela era levado para junto do corpo dele. O beijo aconteceu como se não houvesse outro caminho, como se não houvesse outra alternativa. Não havia outra alternativa. Seus lábios já estavam sendo apertados contra os dele. Ele a segurava firmemente, porém sem a machucar. A língua do homem dentro de sua boca acariciava a sua, e corria para os lábios e voltava para a língua... A partir desse momento ela estava em transe. Sabia que, mesmo se tivesse vontade de lutar, ele a subjugaria. Ele era enorme. Ele poderia subjugar exércitos de mulheres como ela. De qualquer maneira, ela não sentia nenhuma vontade de lutar agora. Se deixou guiar por aquelas mãos grandes e fortes que a manipulavam como a uma bonequinha. Sua vontade era agora a vontade que ele quisesse. Caída na cama, já estava nua. Ele, ainda em pé, a observava enquanto também se despia. Ela também o observava e nem se lembrava de onde estava, ou por que estava ali. Não conseguiu absorver racionalmente o que aconteceu depois disso. Lembrou-se durante muito tempo do momento em que seus corpos se encaixaram, mas todo o resto era como um sonho daqueles de que nos lembramos apenas de trechos soltos. Lembrou-se de vê-lo abotoando a calça, colocando o dinheiro sobre a cômoda e dizendo:
- Eu volto.
Dessa vez ela não teve forças para agradecer. Adormeceu.

27.7.11

Vida de Entrega

Vida de Entrega

O bichinho foi pego indefeso pelo rabo e suspendido, apartado de seus irmãozinhos gêmeos. Somavam 25 ao todo. Não mais. Agora eram 24. E ele era apenas um. O primeiro deles condenado à morte, ainda que uma morte incerta. Não que sua vida fosse muito excitante: passava, e passara, todos os dias de sua vida em um recipiente de plástico branco, forrado com serragem, que mal continha ele e seus 24 irmãos. Era bem verdade que não podia reclamar de falta de recursos: havia sempre água fresca e comida mais que suficiente para toda a família, ainda que a água tivesse que ser acessada por um de cada vez. A água era trazida por um tubo metálico que penetrava o recipiente que tinham por lar. Além de recursos, ainda que o espaço fosse pouco, era possível se exercitar. Em realidade, era necessário certo exercício para se alimentar e para ter acesso à água. Os pequenos se agarravam à grade que encerrava a parte de cima de sua residência. Os mais habilidosos (e ousados!) usavam apenas as patinhas dianteiras para tal. Observá-los se alimentarem era como um número do Cirque du Soleil em miniatura. Mas para ele, tudo se encerrava ali. Sentia a pele de suas costas e seu rabo presos de maneira que não podia fazer nada, a não ser emitir seus guinchinhos desesperados. A agulha, de espessura muito maior que qualquer um de seus dentes, penetrou a pele de seu abdome e peritôneo, infundindo em seu pequeno corpinho algo que ele agradecia não saber o que era. Em seguida, ele foi colocado em um recipiente menor, porém muito parecido com aquele no qual vivera até aquele dia. Água e comida lhe era ofertada da mesma maneira. Só que agora com exclusividade. Mas não tinha fome, nem sede. Sentia apenas medo. O que aconteceria em seguida? Sentiria dor? Ou simplesmente morreria em seu sono, com tranquilidade? Era impossível prever. E revisitar as histórias que ouvira durante toda sua vida só o torturava mais. Resolveu tentar se acalmar e dormir um pouco. Não restava mais nada a fazer além de esperar. Tudo pela ciência.

26.5.11

Sapatos



Tudo em sua vida parecia mais fácil. A sensação de relaxamento era indescritível. Todo seu corpo parecia sorrir e se soltar, se derreter e se esparramar naquele assento vermelho. Tudo isso graças ao simples fato de ter tirado os sapatos. Não, não era a postura mais ortodoxa a se tomar para assistir uma palestra. Mas ele não resistira. Havia passado todo o dia calçado, vestido, devidamente paramentado para exercer cada uma de suas funções, sentado ou caminhando de um lado para o outro. E seus sapatos não eram desconfortáveis. Ele até gostava de calçá-los pela manhã. Tinha mesmo certa alegria de calçá-los. Se sentia charmoso, bem cuidado, até querido calçando aqueles sapatos. Mas no final do dia, invariavelmente, queria se livrar deles o quanto antes. Chegava a pensar em arremessá-los pela janela da sala quando entrava em casa. Lembrava-se que quando criança não entendia sua mãe chegando em casa e dizendo que os sapatos a estavam "matando." Por que então ela os calçava todos os dias? Seu pai era ainda mais engraçado. Chegava em casa, sentava-se no sofá e tirava os sapatos com um suspiro delicioso. Seu pai demonstrava tanto prazer em tirar os sapatos que sua versão menino fazia de tudo para estar por perto nessas ocasiões. Ainda muito criança tinha propensões a ser filósofo e pensava, tentava entender, se era tão bom no fim do dia tirar os sapatos, as pessoas deveriam procurar sapatos mais desconfortáveis para usar durante o dia. Segundo sua lógica, dessa maneira, o prazer seria ainda maior ao descalçá-los. Já homem feito, a idéia ainda não lhe parecia de todo absurdo, embora jamais tivesse procurado sapatos desconfortáveis. Agora, sentado na poltrona vermelha, não se importava com os olhares reprovadores, ou apenas curiosos, mirando seus pés cobertos somente por meias. Sorria e saboreava a sensação de liberdade.

23.5.11

Emburrada

"Eu odeio, odeio você!"
E senta no chão
Pernas e braços cruzados
Me olha de rabo de olho
A boca em beicinho
Emburrada

Chego devagarinho
Experimentando
Como quem testa o frio
Na beira de uma piscina
Trago pra ela um sorriso
E com um abraço
Devolvo-a à cama

"Apaga a luz, por favorzinho."

8.4.11

Inteligência

Lidando Com o Inesperado

Quando eu era pequeno, a gente brincava na rua de pique-pega, pega-ladrão, esses jogos de correr... e a gente podia pedir "altas". Isso significava uma pausa, um tempo pra descansar. Tá certo que quem não tinha pedido a tal das "altas" não curtia muito. O resto da criançada ficava meio de nariz torcido quando alguém pedia, mas, ainda assim era legítimo. Sem necessariamente a gente perceber pedíamos um tempo pra pensar, um tempo pra repensar estratégias e redesenhá-las. Era um tempo pra respirar, retomar o fôlego e voltar pro jogo.
Hoje, infelizmente, não rola mais isso. Não dá mais pra pedir "altas".
Muitas vezes percebemos que o jogo não nos é favorável e não temos outra alternativa a não ser seguir jogando. Nossas estratégias têm que ser redefinidas em meio à turbulência da coisa toda. É como consertar um avião em pleno vôo.
Algumas pessoas não foram treinadas a lidar com o inesperado (acho que sou uma delas). Às vezes, acho que o problema é ser rejeitado. Mas ser rejeitado é só uma forma de se deparar com o inesperado. Quando você quer alguém ou alguma coisa, você espera (nos dois sentidos) que a pessoa (ou a coisa, metaforicamente falando) te queira também. E quando a pessoa querida (ou a coisa, de novo, metaforicamente) te diz que não te quer é um choque, uma surpresa: inesperado. A rejeição frustra uma série de planos que você fez, sem mesmo perceber, no momento em que você decidiu que queria aquela pessoa ou coisa.
Adianta sentar e chorar? Em geral, na vida adulta não. E por isso a gente sente saudade do colinho da mamãe... :)
Fazer o quê? Dançar conforme a música. Temos que aprender a consertar o avião em pleno vôo. E quem tem filho aí, pelamordedeus, propicie momentos assim na infância dos pequenos para que eles treinem.
Um dia eu estava na casa de um amigo. Sua filha, na época estava começando a querer andar, mas ainda tinha mais intimidade com o andar de gatinho. Ela nos seguia por toda a casa. Quando passávamos da sala de estar para a varanda, havia uma porta de correr, com trilho. Quando a pequena passava de gatinho por cima do trilho, seus joelhinhos rechonchudos doíam. E ela logo desenvolveu uma "técnica" para evitar isso. Ela se esticava toda, usando os pés como apoio traseiro, ao invés dos joelhos. Ela aprendeu a lidar com inesperado ali. Foi uma cena linda de se ver.

3.4.11

Guyton


Meus cones e bastonetes
As células ciliadas internas
As células olfatórias
Os receptores de Ruffini
Os discos de Merkel
Meus botões gustativos
Você abastece meus cinco sentidos

31.3.11

Nada

Tava eu revirando meu diário e achei essa "entrada". Como às vezes meus quase 5 leitores acham que o que eu escrevo é autobiográfico, o que, diga-se de passagem, não é verdade, resolvi colocar isso aqui. Não tem nada a ver com o que eu tô vivendo no momento, mas achei bacana.

30/07/2009 02:30 a.m.

Hoje eu pensei que talvez se eu tomasse algum remédio, fluoxetina, demoro a digitar essa palavra por que ela é estranha, palavras com x são estranhas. Esse tempo extra que levo para escrever me faz reparar em minhas mãos, meus dedos acertando com força as teclas, com precisão, as veias nas costas das palmas, parecem mãos de um velho, mas fortes, muito fortes, muito bem desenhadas. A luz é pouca, pouquíssima, só o monitor, o bloco de notas na cor cinza ocupa menos de 40% da tela e o resto todo negro. E aquela luz fraquinha, esbranquiçada, acinzentada, iluminando minhas mãos fortes de velho.
O silêncio da noite é daqueles que machuca os ouvidos. Daqueles silêncios nos quais você se concentra pra ouvir alguma coisa, implora pra ouvir alguma coisa, um latido distante, um carro passando na rua, um gato vadio revirando um saco de lixo.
O silêncio da noite é o silêncio da minha vida. Estou no escuro e no silêncio, sem forças para acender uma vela ou cantar alguma canção. Sem alguém com quem conversar. E todo dia imploro pra que alguma coisa aconteça, por que se depender de mim, nada vai mudar. E o silêncio continua. Me machucando os ouvidos.


Benjamin Button

Nascer velho ou morrer velho
Morrer novo ou nascer de novo
Nascer e morrer são um ponto de encontro
Nem fim nem começo
O meio do caminho
Indicam a mesma coisa: nada dura pra sempre
Nem o nada dura pra sempre
No nascimento, o nada deixa de existir
Na morte...

13.2.11

Loteria

O Bilhete de Loteria

Entrou no avião em meio à massa que ia se acumulando nas poltronas. Aquele movimento de caminhar um pouquinho e esperar um pouquinho com a impaciência estampada na cara, como se todos os outros passageiros fossem culpados por voar naquele dia com ele. Era assim mesmo que se sentia quando entrava em um ônibus ou avião. Queria que todos desaparecessem. Não queria ter o ônibus ou o avião só pra ele. Não, não era esse o caso. Se dava mais do que por satisfeito com sua poltrona. Sempre escolhia o corredor, para caso precisasse ir ao banheiro, fazê-lo esbarrando na menor quantidade de gente possível, o número ideal sendo zero. Bom, mas o caso não era ter mais poltronas para si. Nem mesmo mais espaço nas poltronas, embora, como todos que utilizavam meios de transporte coletivo, percebia que os assentos cada vez mais iam diminuindo. Ainda assim, não precisava de mais espaço em seu assento. Mas o incomodava enormemente esperar que os outros passageiros se acomodassem. Aquele andar lento de quem procura o assento, conferindo por sob os óculos de míope o número de cada poltrona até encontrar a sua. E depois a bagagem de mão. Momentos intermináveis de espera atrás daquela senhora que não percebe que o volume de sua bolsa é muito maior do que comportam os bagageiros. Muitas bufadas depois, chegava finalmente a seu assento. Um oásis de paz. Na verdade, nem sempre. Ele, como já mencionado, se dava mais do que por satisfeito com sua poltrona. Mas ter que ceder espaço de seu assento, milímetros que fossem, era ainda pior do que esperar a onda lenta de entrada no avião ou no ônibus. E daí sua ira ao viajar ao lado de gordos. Odiava os gordos. Odiava o suor mais abundante, talvez proveniente da força extra que precisavam empregar para carregar aquele peso extra. Odiava o “com licença” dos obesos que nunca conseguiam passar por outras pessoas sem tocá-las com a pança. E odiava, acima de tudo, a maneira amorfa como os gordos transbordavam em seus assentos. Era incrível como tinha azar! Parecia que sempre viajava ao lado de um gordo. E sempre um gordo, nunca uma gorda. Sempre um gordo, pouco asseado.
Desta vez não foi diferente. Teve uns 5 minutos de paz e tranqüilidade, quando um senhor já de idade, com os cabelos inconfundivelmente pintados, penteados para trás, vestindo um terno cinza e suando como se tivesse acabado de correr uma maratona pediu o famigerado “com licença”. Era humanamente impossível permitir que o senhor, certamente um devorador de toucinho, se sentasse, sem que o irritado viajante tivesse de se levantar. Isso era justo? Claro que não. Se sentia punido por ter acordado mais cedo, por ter se preparado melhor do que o gordo de cabelo pintado, por ter sempre se cuidado, ter estado atento à alimentação e por ter sempre procurado manter-se em forma com exercícios regulares. Isso não era justo. Levantou-se sem olhar na direção do gordo que continuava pedindo licença e agora acrescentava um perdão para cada centímetro que vencia com sua banha.
Finalmente voltou a se sentar. Percebeu logo que não poderia usar o apoio de braço do lado direito. Era impossível para o gordo de terno manter seu corpanzil dentro do espaço de seu assento. O gordo o cumprimentou e se apresentou. Ele apenas acenou com a cabeça. Puxou logo uma revista que havia no bolso da poltrona da frente, como quem diz: “Não estou para conversa. Em especial, com o senhor, que roubou a chance de que eu tivesse uma viagem tranqüila.” Mas o gordo não parecia ter entendido a mensagem. Pediu desculpas mais uma vez por tê-lo feito se levantar. Explicava que atrasara um pouquinho pois tinha feito uma paradinha na lotérica para fazer uma fezinha. O gordo ria de sua própria história, enquanto o viajante irritado continuava com a cara na revista, embora não conseguisse se concentrar o suficiente para ler uma linha sequer do artigo que tinha diante de seus olhos. Isso sempre acontecia: se alguém falasse algo que não o interessava, era inútil tentar se concentrar em algo mais. Ele até havia batizado o fenômeno: paradoxo da atenção. E o gordo continuava falando e sorrindo.
- Eu nem sei pra quê fiz essa aposta. Mas, sabe como é, no final do ano, todo mundo gosta de fazer uma fezinha, né? Acho que fica mais fácil de conversar com as pessoas quando procuramos cultivar certos hábitos comuns a muitas delas. E eu gosto muito de conversar. Você também fez uma aposta?
- Não.
- Pois é. Eu fiz. – enfiou a mão no bolso de dentro do paletó, não sem dificuldade, e sacou o bilhete. – E tenho certeza de que daqui sai alguma coisa. – brandia o bilhete orgulhoso, como se fosse um troféu.
O gordo continuou a falar e suar e o viajante irritado desistiu de fingir que lia. Devolveu a revista ao seu lugar de origem e se apoiou no braço da cadeira que havia sobrado. Testou a firmeza do assento e finalmente apoiou o queixo sobre a mão esquerda, enquanto olhava para o gordo à sua direita, sem a menor pretensão de parecer simpático ao que o homem rotundo falava.
O homem dizia que não tinha filhos ou sobrinhos. Era filho único. Os pais, obviamente, já haviam falecido havia muitos anos. Dedicara sua vida aos negócios e nunca havia se casado, embora afirmasse ter tido várias amantes. Dizia que os grandes prazeres de sua vida eram, nessa ordem, o trabalho, a comida e as mulheres. Gostava muito de cozinhar para suas amantes, embora soubesse que o que as atraíam mesmo era seu dinheiro.
Parou de falar de repente. Olhava para o bilhete com um ar melancólico.
- Mas o que vou fazer com esse dinheiro se eu ganhar? Não, Deus permita que alguém que precise mais do que eu ganhe.
O viajante irritado teve que se desculpar e se levantar. Ver aquele homem obeso pronunciar aquela frase fez com que ele tivesse vontade de vomitar. Foi ao banheiro.
No lavatório apertado, lavou o rosto. Quanto retornava a seu assento, as comissárias de bordo serviam o lanche. Isso fez com que ele tivesse que esperar até que o carrinho ultrapassasse a altura de sua poltrona para voltar a se sentar. Tentou ainda argumentar com uma das comissárias, ao que ela respondeu:
- O senhor quer que eu faça o quê?
Companhias aéreas populares. Qualquer um pode voar e ser tratado como lixo, pensou. Ficou lá de braços cruzados e cara feia para todos os outros passageiros que iam recebendo sua barrinha de cereal e seu copinho de guaraná com duas pedrinhas de gelo.
Quando finalmente chegou a seu assento, percebeu que o gordo dormia profundamente. A cabeça pendia para a frente e a ponta da língua escapulia pela boca entreaberta. O bilhete parecia querer cair da mão do homem a qualquer momento. Ele tentava se decidir se devia acordar o homem ou não. Se o bilhete caísse, seu imenso corpo jamais permitiria que ele o alcançasse no chão. E seria uma situação muito constrangedora para qualquer um ter que pedir para alguém alcançar um pertence seu a seus pés por que sua pança o impedia de fazê-lo. O bilhete finalmente, e caprichosamente, escorregou pelas pontas dos dedos do gordo inconsciente. Indo parar bem à frente do viajante irritado. Ele se inclinou para frente para alcançá-lo, quando ouviu a campainha que indicava que os avisos de apertar os cintos tinham se iluminado. Uma comissária que passava, pediu que ele se colocasse ereto na poltrona. Achou engraçado ouvir a moça dizendo a palavra ereto, mas apenas mostrou o bilhete que havia apanhado e obedeceu.
Decidiu que deveria acordar o gordo para devolver o bilhete resgatado. O avião iniciava o pouso. Cutucou uma, duas, três vezes. Chamou, empurrou e nada. O homem não se movia. O avião finalmente parou e ele desatou o cinto. Precisava devolver o bilhete ao homem antes de sair do avião. Enquanto tentava, sem sucesso, despertá-lo, percebia que uma fila ia se formando. Aquilo já era demais. Passou a falar cada vez mais alto enquanto empurrava o gordo contra o terceiro passageiro da fileira, até agora não mencionado na história, quando este sugeriu: talvez o gordo estivesse morto. Sentiu um frio correr toda sua espinha.
- Como podemos ter certeza?
- Tomamos o pulso.
Cada um pegou um dos braços do gordo.
- Nada.
- Aqui também nada.
- Será que estamos fazendo certo?
- Vamos chamar uma comissária.
Mas antes que o fizessem, outro passageiro, que se aproximava lentamente ao sabor do ritmo da fila, vindo do fundo do avião, ouvira a conversa e se apresentou:
- Com licença. Sou médico.
Tomou o pulso do gordo e o segurou por alguns segundos, que para o viajante irritado pareceram séculos. Ele não se conteve:
- E então?
- Não tem pulso. Preciso me aproximar. O senhor, por favor, se levante.
O médico agora mexia com todo o corpo do homem, primeiro chegou seu ouvido junto à boca do gordo, depois abria os olhos do homem e como uma pequena lanterna tentava os estimular. De um golpe, e com a ajuda do terceiro passageiro tirou o gordo do assento e milagrosamente encaixou o enorme corpo entre as duas fileiras de cadeiras. Parecia tentar ressuscitá-lo, massageando seu peito e soprando em sua boca.
O passageiro irritado olhava e não conseguia enxergar nada. Como, em alguns instantes, um homem que conversava e ria parecia se esvanecer para sempre diante de seus olhos?
O médico finalmente interrompeu sua manobra. Se levantou de cima do corpo do gordo. Suava muito e estava ofegante.
- O senhor é parente?
O viajante irritado demorou um pouco para responder. Parecia não conseguir absorver o que acontecia à sua volta.
- Hein? Não. Acabei de conhecê-lo.
- Então, pode ir.
Como assim, pode ir? Um homem acabava de morrer e era isso que aquele médico de açougue dizia: pode ir? Mas o viajante estava tão chocado, tão surpreso - não só com o fato que acabava de presenciar, mas também com o como aquilo o afetava em níveis que ele jamais imaginara -, que não teve outra reação a não ser se afastar lentamente do corpo. Ia saindo devagar, embora, o avião a essa altura já estivesse vazio, enquanto as comissárias, piloto e co-piloto agora bombardeavam o médico com perguntas. O terceiro passageiro também saía do avião. Mas não parecia afetado por nada daquilo. Simplesmente saiu, conferindo as horas no relógio de pulso e acelerando o passo rumo ao portão de desembarque.
O viajante irritado parou junto à primeira parede que encontrou e se encostou. Achou por um momento que fosse perder a força das pernas. Dois homens passaram por ele correndo, carregando uma maca, em direção ao avião. Foi quando se tocou de que ainda segurava o bilhete do gordo. Lembrou-se de tudo o que gordo dissera, sobre não ter família, não ter herdeiros. Tentava se convencer de que não havia nada de errado em ficar com o bilhete. Além disso, quem poderia saber se aquele bilhete seria mesmo premiado? Guardou-o no bolso da calça. Olhou pra trás mais uma vez. Viu ainda os dois homens tirando, com muito esforço, o corpo do gordo na maca de dentro do avião. Queria dizer alguma coisa, uma despedida talvez, agradecer por alguma coisa que não sabia o quê, encomendar a alma do pobre homem a Deus. Mas não era religioso e nunca fora bom com as palavras. Enquanto aquele cortejo formado pelo médico e pela tripulação passava por ele, fez, de maneira bem discreta, quase imperceptível, o sinal da cruz. E seguiu atrás do cortejo até o ponto em que viu a placa indicando o portão de desembarque. Deu uma última olhada para trás, respirou fundo e foi reclamar sua bagagem.


7.2.11

Metrossexual

Metrossexualidade Imposta

Deitado, depois do almoço, pensava e tentava se decidir: vejo um filme, leio um livro... nada. Deixou aquela preguiça gostosa do período absortivo tomar conta da carcaça e foi perdendo a consciência devagarinho. Ela estava por ali, mexendo em alguma coisa, com os óculos que odiava e, por isso, só usava em momentos de grande intimidade, como aquele.
Ele sentiu, quase sem entender, no meio daquela obnubilação da siesta, que ela se aproximava. Sentiu que ela se deitava sobre seu corpo, bem lentamente, sem fazer barulho. Talvez ela quisesse se sentir próxima a ele, talvez quisesse sentir mais uma vez o calor do corpo dele, talvez simplesmente quisesse participar daquele cochilinho nos braços dele, talvez ela quisesse que o cochilinho se transformasse em outra coisa... Mas ele nem se deu ao trabalho de abrir os olhos, tamanha era a preguiça e embora sua mente já sorrisse. Ele podia sentir o cheiro do corpo dela, ouvir a respiração lenta e bem ritmada.
- Você já pensou em tirar esse fiozinhos entre as duas sobrancelhas?
Acordou de um susto!
- Hein? Nem vem. Sai pra lá.
Tentou esquivar, tentou se levantar, mas já era tarde demais. Ela estava deitada inteira sobre o corpo dele e já tinha nas mãos a maldita pinça. Ele lutava, sem muito jeito, jamais teria coragem de reagir fisicamente a qualquer coisa que ela fizesse.
- Você vai ficar mais lindo. Todo mundo faz isso hoje em dia, sabia?
E ele choramingava e se debatia enquanto ela continuava argumentando e puxando aqueles pelinhos que ele próprio jamais percebera a existência. Ele dizia que era homem e que homens não faziam a sobrancelha.
- Ai, que troglodita você! A sua masculinidade não está nesses pelinhos não, viu? Agora fica quietinho que eu tô quase terminando.
Ele continuou choramingando e ela argumentando, carinhosa, porém firme.
- Pronto! Ficou lindo! Quer que eu pegue o espelho pra você ver?
Ela correu até o banheiro. Ele permaneceu na cama, encolhido, com as pernas abraçadas por seus próprios braços, os olhos arregalados. Sabia que jamais sua vida voltaria a ser a mesma.

31.1.11

Noah Gordon

"A la mañana siguiente estuvo paseando de un lado a otro, mareado, y de vez en cuando sentía las rodillas débiles por el alivio.
Hombres y mujeres sonreían cuando los saludaba. Era un mundo nuevo, con un sol más radiante y un aire más benévolo que respirar.
Se ocupó de sus pacientes con la atención de siempre, pero entre una visita y otra, su mente era un torbellino. Finalmente, se sentó en un pórtico de madera de la calle Broad y examinó el pasado, el presente y su futuro.
Había escapado por segunda vez a un destino terrible. Creía haber recibido el aviso de que su existencia debía ser empleada con mayor cuidado y respeto.
...
Quería que su vida estuviera pintada con los colores más intensos que pudiera encontrar."
(Chamán - Noah Gordon)

16.1.11

Desiderata

Desiderata
by Max Ehrmann

Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.

As far as possible without surrender
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others,
even the dull and the ignorant;
they too have their story.
Avoid loud and aggressive persons,
they are vexatious to the spirit.

If you compare yourself with others,
you may become vain and bitter;
for always there will be greater and lesser persons than yourself.

Enjoy your achievements as well as your plans.
Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs;
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals;
and everywhere life is full of heroism.

Be yourself.
Especially, do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.

Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.

Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.
You are a child of the universe,
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be,
and whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life keep peace with your soul.

With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful.
Strive to be happy.

Endocrinologia 2

Você É O Que Você Come: Insight?

Ultimamente tenho achado que tem um monte de gente que você pode ficar até um ano sem ver, sem encontrar, e mesmo assim você saberá exatamente o que a pessoa anda fazendo, anda vivendo. Isso é especialmente verdadeiro quando nos referimos à vida amorosa. Tenho tido a impressão de que os solteiros vão morrer solteiros e os casados vão morrer casados. Muito positivista da minha parte, eu sei, mas é o que tenho observado. Tem gente que abre mão de qualquer princípio pra estar em um relacionamento. Por outro lado, tem gente que cria tanto princípio que destrói a menor possibilidade de um dia se relacionar com alguém. Sabe o que todo mundo precisa? Dar uma passadinha no Oriente e aprender o caminho do meio: a little bit of this and a little bit of that.
Uma coisa é certa: ninguém emagrece (ou engorda) mantendo dieta.

12.1.11

Água

Dentro da Água

As águas pesadas acertam minhas costas. Só ouço esse som e as batidas lentas do meu coração ao fundo. Finalmente preciso respirar e dou um passo a frente. Abro os olhos e a luz do sol me cega. Me acostumo à claridade e te reconheço. Só seus olhos me olham na flor da água: uma menina feita crocodilo que se prepara para dar o bote. Mas sei que, submersa, sua boca sorri pra mim. Me aproximo lentamente e deixo minhas mãos descobrirem as curvas do seu corpo nu. Agora as suas mãos também me procuram. E com minha cooperação me coloca em pé de igualdade com você: nada mais separa nossos corpos, a não ser a água que nos rodeia. Não nos tocamos mais, mas estamos próximos o bastante. Posso respirar seu hálito. Nossos lábios se resvalam. Sinto o toque leve de sua pele na minha. Já sei o gosto da sua língua antes mesmo de te beijar. E isso me faz sentir mais vontade.
Mesmo que ainda conseguisse raciocinar, as palavras ainda não foram criadas para descrever o que sinto em seguida.

10.1.11

Resoluções de Ano Novo



Mais um ano se inicia e mais cliché do que essa frase só as resoluções de ano novo mesmo. "Esse ano vou emagrecer", "esse ano vou parar de fumar", "vou ligar mais pra minha mãe", "vou brigar menos com meu pai" etc.
Uma rápida digressão: o uso da pontuação acima com a palavra et cetera me foi ensinado recentemente. Quem quiser debatê-lo, sinta-se à vontade.
Enfim, pra muita gente, esse lance de resoluções de ano novo é balela. O dia primeiro de janeiro, dia mundial da paz, pra quem não sabia, é só uma segunda-feira hipertrofiada. Sabe aquela coisa de segunda-feira? "Segunda-feira vou parar de comer fritura." Ou mesmo "segunda-feira só marca o início de mais uma semana de trabalho."
Bom, mas eu percebo que pra quem (pelo menos) tenta fazer resoluções de ano novo, a virada do ano, o tal do reveillon, é fundamental, essencial. O fato de contarmos os anos nos permite a transformação de uma maneira sistematizada. Quando um ano termina, em especial um ano que tenha sido especialmente difícil, dá sempre um certo alívio. E o início do novo ano nos traz uma certa esperança de que nós podemos fazer diferente a partir de então. Funciona mais ou menos como um "reset", um começar de novo. O sujeito pensa: "é, esse ano eu fumei pra caralho, mas no ano que vem, vou diminuir". Ou então: "é, esse ano comi pra caralho, mas ano que vem vou maneirar" Você pode pensar nas tomadas de decisões que já tomou ou ouviu alguém tomar em virada de ano e completar essa lista. Se não tivéssemos o hábito de contar os anos, essas coisas seriam bem mais difíceis. É, por que imagina se um amigo seu chega pra você e diz: "A partir de quarta-feira eu páro de fumar." A primeira coisa que cê vai perguntar é: "por que quarta?" Ou, se o cara não for tão próximo de você, nem a pergunta vai rolar. Você logo de cara vai pensar que o cara em questão deve ser meio doido. Onde já se viu parar de fumar na quarta-feira?! Imagina se um colega de trabalho chega pra você e diz: "A partir de maio, começo a malhar." Por que maio, porra? Não faz o menor sentido mesmo. E se não contássemos os dias, os meses, os anos, não teríamos essa marcação. Você começou gordinho, vai terminar gordinho. Seria bem mais fácil desistir, largar pra lá, como dizem na minha terra. Mas como temos essas marcações, podemos dizer o que os personagens fictícios citados anteriormente disseram.
Para aqueles que continuam achando que resoluções de ano novo são uma bobagem, eu os desafio. Entra na brincadeira. Faça uma resolução. Busque algo que você não achou tão bacana assim em 2010 e que só depende de você pra mudar. E se proponha mudar. Comece o ano novo respirando diferente, respirando ar puro.
Eu já fiz as minhas.

19.12.10

Amarelar ou Ressaquear


Sua cabeça latejava. Abriu os olhos e percebeu, com muita gratidão aos céus, que estava em casa, aparentemente sozinho. Levantou com alguma dificuldade e foi olhando em volta. Tudo parecia no lugar. As roupas na mesma bagunça de sempre, espalhadas pelo chão do quarto; no corredor a bicicleta impedia a passagem; na cozinha, tudo certo, muitas latas de cervejas vazias transbordavam da lata de lixo e havia uma caixa de pizza vazia sobre a pia. Voltou ao quarto e percebeu que a TV estava ligada.



Era o último dia de prova. Os três foram os primeiros a sair da sala. E pouco menos de 30 segundos abriam a primeira lata de cerveja. Tá certo, meio radical abrir uma cerveja no estacionamento da universidade às 10 horas da manhã. Mas era férias! E foi aí que tudo começou...

Provavelmente as duas coisas já aconteceram com você: você amarelou ou ressaqueou. Mas o que é pior?
A galera tá toda reunida, numa noite como outra qualquer. Não há grandes promessas, não tem nenhuma festa programada, nenhum show na cidade, na verdade, nem cerveja na geladeira. Aí, você decide ir embora pra terminar de assistir a última temporada de Lost. Grande erro. No dia seguinte você tem que aguentar todo mundo te contando as reviravoltas do destino que transformaram aquele dia comum no dia mais louco da sua vida... só que você não estava lá.

14.12.10

Linha Cruzada

Linha Cruzada

Linha 1
Os dois iriam estudar. Era esse o plano mesmo. Não era nenhum tipo de pretexto. Sentaram-se no chão da sala com livros e cadernos espalhados ao redor. O ventilador ronronando no fundo.Os pais dela terminavam os últimos preparativos para partir. Passariam o fim de semana fora. Finalmente terminaram de colocar as malas no carro e vieram se despedir da filha querida: tranque as portas, alimente-se direito, mantenha seu celular carregado, beijo, fica com Deus. O pai dela ainda hesitou à porta. Mas a mãe o tranquilizou. Sua filha e o colega eram apenas amigos e gostavam de estudar juntos. E se foram.
A menina e o menino se entreolharam. Estavam completamente sós. Ela pediu a ele que buscasse o colchão da cama dela. Seu bumbum começava a ficar dolorido. Ele obedeceu com um sorriso mal disfarçado no canto da boca. Sentavam-se agora no colchão. Ele perguntou se ela conseguia estudar com música e ela disse sim. De repente a voz rouca do vocalista do Maná surgia dos alto-falantes do laptop. Ele sentou-se mais perto dela e ela colocou a mão sobre a perna dele. A proximidade permitia aos dois perceberem os cheiros. Os risos começaram a ficar mais frequentes e em pouco tempo estavam se beijando. Os cadernos já estavam longe do colchão e a música os embalava.
Estavam completamente sós. O mundo fora do apartamento, fora daquela sala, não tinha a menor relevância. Eram livres.
A música continuava mansinho e eles agora simplesmente se abraçavam. Curtiam a preguiça nos braços um do outro. De repente, batidas na porta. Eram batidas leves, mas alguém tinha batido. Os dois se levantaram depressa. Quem poderia ser? O som estava baixo demais para ser um vizinho reclamão. Enquanto se decidiam entre olhar ou não olhar, mais batidas na porta. Ele desligou a música e chegou perto da porta. Via sombras que o permitiam entender que havia alguém em pé do lado de fora do apartamento. Com o dedo sobre a boca pediu silêncio a ela. Viu os pés de sombra se afastarem.
Agora os dois conversavam entre sussurros agitados. Quem poderia ser? Será que era o pai dela? Seria mesmo um vizinho?

Linha 2
Aquela noite seria perfeita. Ele conferia se tinha tudo: cerveja gelada no isopor, camisinhas. Estava tudo certo. Chegou rápido ao prédio. Ela tinha deixado a chave da portaria com ele. O combinado seria ele subir e bater de leve na porta. E tudo corria bem até que ele percebeu que não lembrava o andar. Era o terceiro ou o quarto? Subiu hesitante. Ia olhando as portas dos apartamentos pelos quais passava: eram inexplicavelmente idênticas. Chegou ao terceiro andar e hesitou. Seria o quarto andar? Lembrava-se que havia ficado bastante cansado da última vez. Deveria ser o quarto. Subiu o último lance de escadas e chegou-se junto à porta da direita. Isso ele lembrava, era a porta da direita. E se for o terceiro? E se eu bater na porta errada a essa hora da noite? Já passavam das 11! Chegou-se mais perto da porta e ficou mais tranquilo. Podia ouvir baixinho uma música do Maná. Era ela. Só podia ser ela! Bateu bem de leve na porta e esperou. Nada. Talvez ela não tenha ouvido. Bateu mais uma vez. O som foi desligado. Não havia mais música. Retirou-se na ponta dos pés. Só podia ser o apartamento errado. Nesse momento, ela surgia subindo as escadas cautelosa. Gesticulava em silêncio para que ele a seguisse. Os dois desceram as escadas, segurando o riso, até o terceiro andar.