Ainda que a porta se feche...
Não grite. Não esbraveje.
Pula a janela!
Se o vento não sopra,
Pra refrescar a seu favor,
Liga o ventilador.
Existe proposta?
Bate o martelo do juiz:
Cumpra-se!
Ainda que a porta se feche...
Não grite. Não esbraveje.
Pula a janela!
Se o vento não sopra,
Pra refrescar a seu favor,
Liga o ventilador.
Existe proposta?
Bate o martelo do juiz:
Cumpra-se!
Entro no quarto e dou de cara com ela
Cochilando com a roupa do trabalho
De bruços, a calça jeans recheada de chocolate
Preciso absorver aquela cena antes de dizer alguma coisa
"Te acordei!"
"Não... eu já... ia levantar..."
"Não, boba. Fica."
Pego minhas coisas e saio
Levando apenas a memória
Saudade doida
Saudade doída
Saudade ardida
Saudade quem
Saudade aquém
Saudade zen
Saudade aqui
Saudade assim
Saudade aí?
Duvido de quem não tem dúvida
Uma pessoa firme eternamente
Provavelmente
Não vê além de seu próprio universo
Quem enxerga além
De sua própria cerquinha
Vê o diferente, o esquisito
E se questiona:
"Não serei eu o estranho?"
O mundo não tem mais fronteiras
A voz o atravessa
Na velocidade da luz
Uma visão da realidade
Não é mais suficiente
Os olhos têm que ser no plural
A cabeça precisa de dúvidas
Fui dormir ouvindo Rie Chinito
Sonhei um sonho
Sonho feito do que são feitos os sonhos:
Fantasia
Desejo
O que a gente quer
Mas não tem
Mais...
Acordei melancólico
Você se lembra dos 500 anos do Brasil? Eu não. Por que eu sou brasileiro, eu não desisto nunca. Mas tenho memória curta. E se eu fosse Mané das Bandêra eu fazia um poeminha. Talvez em alemão. Why not?
Mas agora né o Mané que eu quero lembrar. É o Vinícius. O bom cronista faz crônica até sobre a cadeira.
Mas bão mesmo é escrever sobre insights.
Eu acho que tive vários insights esses dias. Friso: eu acho.
O problema é que agora não lembro de nenhum em particular para compartilhar comigo mesmo. Digo comigo mesmo por que no fim das contas eu descobri que essas coisas pseudo-artísticas que faço são pra mim mesmo. Uma masturbação que não envolve sexo.
De qualquer maneira fico feliz em ter redescoberto esse canal e saído mais uma vez da inércia. Taí um bom tema pra essa crônica.
Acho que eu começo as coisas e nunca termino pra não perder essa coisa de sair da inércia. Eu gosto de sair da inércia, seja ela estática ou dinâmica. Se eu tô de um jeito quero logo ir pro outro. Se eu tô parado, quero andar. Se tô andando, quero parar.
Putz! Que insight! Que bom que tive esse insight. Insight parece ser uma coisa boa pra gente não correr o risco de se enquadrar em um transtorno mental.
Hehehe
Good night. Glad I'm back pra mim mesmo.
Chupa, todo mundo que não sou eu.
Sabe aquelas cadeiras triplas? Você pode encontrá-las em salas de espera, em rodoviárias, em alguns bancos (instituições financeiras). São aquelas que são uma cadeira grudada na outra, lado a lado, formando um trem em que os vagões não andam um atrás do outro, mas lado a lado.
Como nas receitas, reserve essa ideia. Precisaremos dela mais tarde. Agora vamos pra outro lugar.
É interessante como o ser humano evita o contato com outros seres também humanos em lugares públicos. Tenho a impressão de que isso é um fenômeno recente. Velhos, quanto mais velhos são, não agem assim. Se bem que, talvez por serem velhos, e aqui está outro fenômeno dos tempos mais recentes, se sentem só. E, por isso, talvez tenham o hábito de tentar se comunicar com estranhos em lugares públicos. Ainda assim, acredito que há 50 ou 60 anos, as pessoas não se evitavam tanto quanto se evitam hoje. Existe gente demais no mundo. Então evitamos o contato para não ficarmos sobrecarregados. Por isso dizemos bom dia dentro do elevador pra ninguém em particular. E baixamos a cabeça. E torcemos pra chegar logo no térreo.
O que nos leva de volta às cadeiras triplas. Se você encontra uma dessas e não tem ninguém sentado, onde você senta? Imagina a Patrícia Poeta dizendo: "A sua resposta pode falar muito sobre sua personalidade, é o que diz um estudo da Universidade de Massachusets..." Não. Não é a Patrícia Poeta. É o que eu digo, sem estudo nenhum. Eu imagino que a maioria das pessoas sentaria em uma das cadeiras das pontas, esquerda ou direita. Comportamento que eu vou chamar aqui de uma aposta conservadora. A maioria das pessoas, uma maioria até maior do que a supra-citada, preferiria sentar-se sozinha nesse tipo de assento. Só que o mundo tá cheio demais, então entende-se que há uma grande probabilidade de uma outra pessoa, um estranho, chegar e querer se sentar também.
Agora invertamos a situação.
Você chega e encontra um cidadão sentado lá. Se esse estranho estiver sentado em uma ponta, você se senta na outra. Agora, se ele estiver sentado no meio, além de eu arriscar dizer que você só vai se sentar se estiver realmente precisando, machucado ou exausto, digo que esse estranho faz apostas ousadas.
Escolher sentar-se no meio, quando as três posições estão vagas, é uma aposta ousada, se opondo à aposta conservadora de se sentar em uma das pontas na mesma situação, pelo seguinte: pela mesma razão que você escolheria sentar-se, caso uma ponta estivesse ocupada, na ponta oposta, existe uma chance menor de, caso alguém chegue, esse alguém querer sentar-se ao seu lado, o que forçaria você a dividir o assento com um estranho.
Entretanto, assim como com os investimentos financeiros, se o retorno é alto, o risco também o é. Caso o segundo a chegar esteja realmente querendo ou precisando se sentar, ele vai ignorar os costumes do nosso século, e se sentará em uma das pontas, colocando-se ao lado do nosso apostador arrojado que sentara-se na cadeira do meio inicialmente. E, se já não queríamos compartilhar o assento com um estranho com uma cadeira nos separando, o que dizer de sentar lado a lado com o desconhecido?