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6.3.09

Your House

Com a chave na fechadura ela começou a rezar. Ele costumava ficar em casa até mais tarde depois do almoço nas segundas. Mas isso era antes. Os hábitos haviam mudado.
Destrancou a porta e entrou soltando o ar pesado que carregava nos pulmões. Deixou cair a bolsa no chão da sala como tantas outras vezes. Não. Agora era completamente diferente. Subiu a escada que dava para o quarto. A cama de casal estava impecavelmente arrumada. Não resistiu, deitou-se nela.
Sentia o cheiro dele. Abriu o guarda-roupa e se sentiu engolida por tudo. Foi até o banheiro e se despiu -- sem se preocupar onde as peças que usava caíam. Entrou no chuveiro e deixou a água cair sobre seu corpo trêmulo de soluços. Sentia o chão frio em suas nádegas e a água quente em suas costas desprotegidas. Saiu do chuveiro e vestiu-se com o roupão dele. No armário do banheiro, o vidrinho de perfume a torturava.
Desceu as escadas novamente e foi até o escritório. Acendeu um incenso. Vasculhava os CDs. Sabia que nenhum daqueles eram seus. Eram todos dele. E viu um pedaço de papel sobre a mesa. Era uma carta de amor. Mas não era sua letra. Nem mesmo saberia dizer de quem era aquela letra que falava todas as coisas que ela um dia dissera.
Finalmente, vestiu novamente suas roupas e foi embora, deixando para trás as chaves do apartamento, a porta destrancada e um pedido de desculpas.

28.11.08

Ticket to Ride

Ticket to Ride

Eu cheguei em casa e ela estava sentada na poltrona que eu herdara do meu avô. Estava usando um daqueles vestidos de hippie que tanto gostava. Era preto, de algodão, com retalhos multicoloridos na barra. Percebi que usava todos os seus anéis. E isso só acontecia em ocasiões muito especiais. Foi nesse momento também que notei a mala velha a seus pés. Era uma mala muito velha, de couro cor de ferrugem. Estava estufada. Junto a ela, aquela bolsa de renda enorme que usávamos para ir à cachoeira em dias de domingo. Uns vão à missa. Nós íamos à cachoeira.
Eu entrei e antes que fechasse a porta atrás de mim, ela se levantou. Colocou a bolsa no ombro. Agarrou a mala velha, com muita dificuldade, com a mão esquerda. Me mostrou uma passagem que tinha nas mãos. O bilhete era para São Paulo. Não disse nada. Me deu um beijo na testa. E saiu pela porta. O sonho acabou ali.