8.7.09

Manhã de Devoção

Ela

A arte de falar sem ser ouvida. Talvez por isso eu tenha me tornado professora. Chorara durante o banho. Entrei na cozinha e ele me olhava impassível, com um quase sorriso no rosto. Seus olhos definitiva e deliciosamente em mim. Mas o rádio ligado me deixava ainda mais irritada. Sustentando o olhar com o qual eu o fusilava, desliguei o chiado enlouquecedor. Gesticulava muito, andava de um lado a outro da cozinha enquanto jogava tudo que estava carregando sozinha em cima dele. Era quase insuportavelmente difícil continuar olhando para aqueles olhos pertubadores e tranquilos. Ele acabara de se levantar, a barba que começava a acinzentar o rosto esculpido a cinzel, a camiseta colada ao tronco, os shorts, os chinelos de dedo... O antebraço empunhando a xícara de café... um arrepio nascia no meu cóccix e morria em minha nuca, todos os pêlos do meu corpo se levantaram, mas eu mantinha a pose firme. E falava, falava, falava. Finalmente estaquei. O diálogo que eu esperava havia nascido e morrido monólogo. Meus olhos o inquiriam, exigiam dele uma reação.
- Deus te abençoe. - ele disse.
Como se não houvesse outro lugar no mundo para o meu corpo, me achei em seus braços sendo carregada para o quarto. Pela primeira vez na minha vida não achei ruim ter um sermão meu ignorado.

Ele

Ela entrou com aquele vestido roxo de amarrar na cintura. Eu adorava a maneira com que ele envelopava seu corpo, a maneira como o decote descia seu colo: ousado e sóbrio. Eu ainda tomava meu café e ouvia as primeiras notícias da manhã pelo rádio. Ela desligou a maquininha de fazer barulho: queria minha atenção exclusivamente para si. Meus olhos pelo menos já pertenciam a ela desde o momento em que pusera os pés na cozinha. Estava frio e, além do vestido, usava aquele sobretudo de malha preta e meias calças da mesma cor. Nos pés, aquele sapatinho fechado, de tecido, baixinho. Ela sempre o calçava quando queria parecer séria. Falava, falava, falava e eu ia saboreando meu café amargo, imaginando a que altura de sua coxa a meia terminaria, o contraste de sua pele alva com o negro da meia. Seus olhos vermelhos me fulminavam através das lentes dos óculos de armação grossa e escura que amadureciam um pouco seu rosto de menina e contrastavam belissimamente com o louro dos seus cabelos, ainda molhados. Seu corpo exalava cheiro de banho. Ela finalmente parou de falar. Seu olhar exigia de mim algum tipo de reação.
- Deus te abençoe. - eu disse.
Com todo o carinho e reverência que merece uma santa em procissão, levei-a em meus braços para o quarto e fizemos amor a manhã inteira.

7.7.09

Perdendo Dentes

Entrei no banheiro e me coloquei em frente ao espelho do armarinho. Era definitivamente eu. Fui abrindo a boca devagar, passando a língua pelos dentes de cima, da parte da frente. De repente, percebi que um deles estava meio mole. Era quase imperceptível, mas estava mesmo meio solto. Eu comecei a empurrá-lo, pra frente e pra trás, com a língua. E sentia que ele se movia, bem pouquinho, mas se movia, em relação aos outros dentes. Decidi continuar aquele procedimento, agora usando os dedos. O dente pareceu ceder mais um pouco.
Comecei a pensar no tempo transcorrido desde minha última visita ao dentista. Fazia mais de 10 anos. Eu cuidava relativamente bem dos meus dentes: escovava-os duas ou três vezes por dia, passava o fio dental uma ou duas vezes por semana, raramente comia doces... Nunca sentia dor em nenhum deles. Vez ou outra inspecionava-os. Nunca encontrei nada, exceto por algum tártaro, bem de leve, devido ao fato de eles serem muito tortos. E por isso acreditava que estava tudo bem.
O presente me mostrava que eu estava enganado. Dentes saudáveis não se movem.
Tentei me lembrar se eu havia batido a boca em algum lugar, ou se alguma coisa havia me acertado, mas nada me ocorria. E enquanto eu pensava, continuava empurrando o dente para frente e para trás. Percebi que os dois outros dentes que cercavam aquele com o qual eu já brincava também pareciam estar moles. Sim. Estavam os três meio soltos. Não eram só eles! Os quatro dentes da frente da parte de baixo também estavam moles. Comecei a me desesperar. Mas ao mesmo tempo não conseguia parar de mexer com eles. De repente, o de cima, o primeiro a se mover, se soltou em minha mão!
Eu me via no espelho, com um grande espaço vazio na arcada superior. Olhei para a pia e soltei o dente. Assisti o bloquinho branco acertar a louça da pia, ecoando alto dentro do banheiro, e depois escorregar para dentro do ralo.
Eu ainda estava de boca aberta, literalmente, com o que acontecia, e senti que mais alguma coisa estava solta na minha boca. Agora era um dente de baixo. De repente, outro e mais outro. E eu os cuspia na pia, estupefato. Sentia minhas têmporas latejarem mais forte, mais rápido. Como poderia sair para trabalhar com aquela boca banguela? E os dentes continuavam se soltando. E eu os cuspia no pia, aos montes, o barulho dentro do banheiro apertado era ensurdecedor.

Ontem sonhei que estava perdendo dentes. Levantei esbaforido e corri para o banheiro. No espelho do armarinho aquele rosto era definitivamente eu, e eu estava acordado. Joguei um pouco de água no rosto para terminar de acordar e me encarei novamente. Alisava a barba que começava a querer apontar de novo, até que minhas mãos chegaram à minha boca. Toquei de leve os meus dentes com as pontas dos dedos.
Seria impressão minha ou eles estavam meio moles?

Pra Onde?

Onde cê vai?
Sei lá
Tô indo

Vou pra casa de um amigo
Vamo tomá uma
Trocar uma idéia
Ver um filme

Vai pra onde?
Sei lá
Vô indo

Vou pra casa de uma amiga
Escutar ela falar
Fazer um sarau
Tomar um argentino

Tá indo pra onde?
Sei lá
Tô saindo

Vou dar uma volta na lagoa
Correr um pouco
Caminhar pra pensar
Tomar água de côco

Mas onde?
Sei lá
Por aí

Talvez eu leve o violão

Dentro do Mar

...que o mar me atrai
...que o mar me chama

E eu tenho medo, tanto medo

Dentro do mar eu me perco
E eu não me desespero
É tão gostoso

E eu tenho medo, tanto medo

Mas nem sempre tem alguém por perto pra me resgatar
Nem sempre tem quem me tire lá de dentro

E eu fico por horas lá

E bebo aquela água salgada

E deixo de respirar

E me perco

Não me desespero

E muitas vezes...
Eu morro.
Eu morro.
Muitas e muitas vezes eu morro dentro desse mar.

É confortável, reconfortante
Cômodo é morrer dentro do mar

E eu tenho medo, tanto medo

4.7.09

Sexta à Noite

O Accord prata vinha encostando junto ao meio-fio devagarinho, de faróis baixos. As duas morenas de salto alto, a primeira usando uma mini-blusa branca muito decotada, que revelava o sutiã vinho, e um micro-short amarelo ovo que garroteava suas grossas coxas cor-de-feijão, a segunda vestia um mini-tubinho preto, uma tarja preta que tapava apenas seus seios e sexo, desfilaram juntas em direção à beirada da calçada.
Dentro do carro, dois homens. Um mais jovem, cerca de 35 anos, usava uma camisa preta, jeans e sapatos de couro, de grife certamente, tinha os cabelos muito pretos e a pele branca, esverdeada na região da barba, e sorriso odontologicamente perfeito. Outro mais velho, usava uma camisa azul folgada, calça de brim e sapatos de couro marrom, tinha cabelos grisalhos, escassos no alto da cabeça e mais densos e compridos próximo à nuca, usava óculos de armação marrom avermelhada.
O primeiro homem, o mais jovem, se debruçava pela janela do banco do passageiro, exibindo os dentes perfeitos enquanto cumprimentava as duas morenas.
O segundo homem, apertava firme o volante do carro com as duas mãos, a coluna encurvada para frente, seu tronco esticando o cinto de segurança, o rosto muito próximo ao pára-brisa, os olhos arregalados, a boca fechada, o maxilar latejava nas laterais do seu rosto.
O carro finalmente estacou. A morena de tubinho se inclinou apoiando o antebraço direito no teto do carro enquanto ouvia os galanteios do homem mais jovem. A outra, de shortinho amarelo, continuava o desfile na calçada para o rabo de olho do homem mais velho.
- A gente vai dar a volta no quarteirão. - disse o moço dos dentes perfeitos.
O carro voltou a se movimentar.
- Cê tem certeza que isso é uma boa idéia? - o homem de óculos perguntava, enquanto seus olhos ainda captavam o andar gingado das moças que iam ficando para trás pelo retrovisor.
- Relaxa, Ferreira! Relaxa! Vamo curti, cara! Hoje é sexta, pô! Até quando cê vai ficar nessa?
O moço então dizia para o homem de óculos continuar a volta no quarteirão. Relembrava-o que ali era a Zona Norte, onde ninguém os conhecia. Além disso, a menos de 100 metros de onde estavam havia um drive-in. Ele continuava encorajando o amigo dizendo que pegariam duas cabines para terem alguma privacidade.
- Mas, não esquece, quando cê terminar, a gente troca. Quero comer as duas, hein, Ferreira! Manda a sua pra mim também. Tem certeza que não quer um azulzinho, véio? Né vergonha pra ninguém não, viu?
- Tenho.
Terminaram a volta no quarteirão e reencontraram as moças. O moço desceu do carro, segurando a porta aberta para a morena do shortinho amarelo entrar em seu lugar. Depois abriu a porta de atrás e gesticulou com um sorriso para a de tubinho preto se acomodar no banco traseiro, onde ele a acompanharia.
Com todos devidamente acomodados, o carro partiu mais uma vez. Chegaram ao tal drive-in, onde o senhor de óculos pediu duas cabines. Entraram e estacionaram o carro na cabine 7. O moço saiu do carro, e caminhou até a cabine 8 de mãos dadas com a morena de tubinho preto.
Agora, estavam a sós. A mulher se colocou de lado em seu assento para olhar para aquele homem maduro ao seu lado, ia começar a falar quando ele perguntou, sem olhar para ela:
- Como devo te chamar?
- Rose.
- Rose, pode me fazer um favor? Desce do carro e vai ali pra frente, junto a parede, onde eu posso te ver.
A mulher sorriu, mascando o chiclete. E olhando para ele, desceu lentamente do carro, ao colocar os dois pés para fora, levantou-se exibindo o volume das nádegas apertadas dentro do shortinho, como penas de pavão. Caminhou lentamente para a frente do carro. Os fárois, holofotes em um palco, a iluminavam.
- Quer que eu tire a roupa? - ela perguntava sorrindo com as mãos na cintura.
- Não, caminha de um lado pro outro, como cê tava fazendo na rua.
Ela sorria e agora desfilava sem olhar para ele, como se o ignorasse propositalmente. Ele tirou o cinto de segurança, e esfregou o rosto. Seus olhos eram dela. Dentro do bolso da camisa pegou o maço de Benson & Hedges e acendou um. Sua mão tremia um pouco. Os cabelos negros compridos da mulher balançavam suavemente, ele percebia as curvas das nádegas e dos seios se salientarem quando ela ficava de perfil para fazer um giro naquela passarela improvisada, observava cada detalhe do corpo daquela linda mulher.
Finalmente, ele desceu do carro, apagou o cigarro no chão com a sola do sapato e foi até ela. Ela, agora parada, as mãos na cintura, olhava para ele, sempre sorrindo.
- E agora?
Ele a agarrou e a jogou sobre o capô do carro, ainda quente, e atacou-a como um esfomeado a um prato de comida. Suas mãos percorriam e apertavam com força a carne tenra daquele corpo. Sua boca arfava, beijava, mordia. O cheiro vulgar do perfume da moça o embriagava ainda mais. Devorou a morena ali mesmo, sem nem tirar a roupa.
Fechou o zíper e se arrastou para dentro do carro novamente. Enquanto a moça se recompunha, ele ofegava dentro do carro e acendia outro cigarro. A moça o deixou seguindo para a cabine 8.
Dentro do carro, ele finalmente conseguia não pensar. Apenas saboreava aquele cigarro. O melhor dos últimos 3 anos.
Não muito tempo depois seu amigo ressurgia no retrovisor, escoltado pelas duas morenas. Os três sorriam muito e entraram juntos no banco de trás.
- Ferreira, me deixa em casa com elas.
O senhor de óculos, calmamente obedeceu. Alguns minutos depois, os três ocupantes do banco traseiro desciam. Ele, enfim sozinho, ligou o rádio e foi embora, acompanhando a bossa que tocava com um assovio baixinho, pensando no mar.

19.6.09

Olhar de Mulher

Seus olhos falam
Contam essa história que eu não canso de ouvir
Essa história que eu nem entendo
(Não foi feita pra entender)

O olhar me fala muito mais
Mais que essa boca rosa, linda
Me fala que você é uma mulher

Mulher!

Mulher que sente
Que ri, que chora
Que sofre, que goza
Que tem certeza
Mas nunca consegue se decidir

Seus olhos me dizem muito
Talvez mais do que eu possa absorver
E eu os ouço
Por que me falam tudo aquilo de que não me canso de ouvir

15.6.09

Madalena Não Se Arrependeu

Com seus 12 anos de experiência na corporação, Ronaldo não podia antecipar o que veria ao atender aquela chamada. A princípio, parecia algo corriqueiro para aquela região. Vizinhos disseram ter ouvido um estouro seco. Eram pouco mais de 5 da tarde de uma quarta-feira.
– Será que foi tiro mesmo? – perguntava Leonardo, seu parceiro.
– Deve ser. – respondeu Ronaldo, quase em tédio. – E pelo horário... um tiro só... deve ser mulher matando marido que pulava a cerca.
Ligaram a sirene e em menos de 10 minutos chegavam à rua indicada pelo rádio da viatura. Ronaldo conhecia a região muito bem. Além de fazer ronda por ali há mais de dois anos, morara naquele bairro por mais de cinco. Depois de ter se tornado sargento, decidira se mudar.
Ao entrarem na rua, desligaram a sirene. A viatura ia deslizando silenciosa e vagarosamente rua abaixo. Ninguém por ali: era tiro mesmo. Alguns moradores mais curiosos, esticavam olhos interessados de dentro de suas janelas em direção ao carro. Ronaldo, com o braço direito para fora do veículo, segurava sua pistola negra.
Enfim, Leonardo estacionou junto ao meio-fio. Desceram do carro e olharam em volta. Uma velha subia a rua lentamente.
– Boa tarde, minha senhora. – Ronaldo a abordou.
Explicou que averiguavam uma denúncia anônima e perguntou se a velha não teria percebido alguma coisa fora do normal naquela tarde, um barulho, um estouro talvez.
A velha disse ter ouvido um tiro. O som teria vindo da casa 32. Ela usou a palavra tiro, com a autoridade de quem já ouvira vários. Ronaldo então pediu que ela permanecesse próxima à viatura e instruiu Leonardo a ficar de olho.
Novamente, o experiente policial sacou a arma e caminhou em direção à casa de número 32, a uns 50 metros de onde a viatura estava estacionada. A casa tinha muros de tijolos, mas não havia um portão que a encerrasse. Ronaldo se encostou ao muro e deu uma olhadela rápida para dentro do lote.
Leonardo o acompanhava de longe, vez ou outra voltando o olhar à velha, à viatura e varrendo os arrededores. Se espantou com a cara de Ronaldo. Seu parceiro agora arregalava os olhos e guardava a arma no coldre. Olhava para Leonardo e dava de ombros como se não entendesse o que acontecia. Ronaldo sinalizou para que o colega permanecesse onde estava e entrou no lote.
Ele encarava uma menininha. Uma criança com rosto de anjo, sentada no degrau de cimento que dava para dentro da casa, cabelos negros amarrados num rabo-de-cavalo, olhos grandes, o rosto um pouco preocupado. Vestia o uniforme da escola pública e tinha um 38 nas mãos.
– Coloca a arma no chão e levanta devagarinho. – Ronaldo ordenou.
A menina obedeceu calmamente. Usando as duas mãos, colocou o revólver ao seu lado, sobre o degrau de cimento, com muito cuidado, como se fosse uma boneca de porcelana. Depois levantou-se e perguntou:
– Cê vai me prender?
– Uma coisa de cada vez.
Ronaldo, segurou-a pelo braço delicadamente e a conduziu até a rua. Leonardo já estava à entrada do lote.
– Fica de olho nela e não deixa ninguém entrar.
Voltou para dentro da casa e tirou novamente seu revólver do coldre. Caminhou em direção à porta de entrada. A arma à frente do corpo, sustentada pela mão direita inabalável. A porta estava aberta, mas bateu antes de entrar. Como ninguém respondeu, escancarou-a com um pontapé dando chance para seus olhos e sua arma vasculharem o que parecia ser a sala daquela casinha. Não havia nada de estranho ali. Um sofá velho, uma estante com uma televisão e alguns porta-retratos, um aparelho de som e uma máquina de costura.
Havia um corredor que saía da sala. Caminhou em direção a ele, sempre com a arma em riste. Três portas à direita e uma cozinha apertadinha ao fundo.
A primeira porta, entreaberta, revelava um banheiro. Azulejos e louças brancas, uma cortina de plástico e um armário com espelho na porta pregado à parede sobre a pia.
A segunda porta estava fechada. Bateu e perguntou se havia alguém. Sem resposta, entrou. Dessa vez, com mais calma, empurrando a porta devagar com a mão esquerda, enquanto o cano do revólver ia penetrando o quarto seguido de seu olhar atento. Um guarda-roupa sem porta, roupas de meninas, duas camas de solteiro, uma penteadeira e... dois pés que saíam de entre as camas. Um deles calçado com uma havaiana azul.
Guardou o revólver no coldre e deu a volta na primeira cama se colocando entre as duas. Um homem estirado de bruços no chão com um rombo no meio das ventas que atravessava a cabeça e saía do outro lado. Havia sangue respingado na parede e nas cobertas das duas camas e uma poça vermelha no chão: tiro à queima-roupa. O homem usava shorts e camiseta. E as havaianas.
Ronaldo voltou à viatura. Quanta papelada dava assassinato!
O nome da menina era Madalena. Era a filha mais nova de Vanderléia, que tivera outros dois filhos, Maria e Jesus, com Carlos, morto a tiros em uma briga de bar. Vanderléia era casada pela segunda vez com o agora também defunto Sebastião. Jesus, aparentemente trabalhara como aviãozinho dos traficantes da região. Fora preso havia pouco tempo. A irmã mais velha de Madalena era constantemente violentada pelo padrasto. Naquele dia, Madalena completava 15 anos. E para seu padrasto, a idade de poder “brincar” havia chegado. Madalena assistira calada Sebastião estuprar Maria. Muitas vezes. Ela sabia onde seu irmão havia escondido o revólver. Planejara tudo sozinha. Ao chegar da escola naquela tarde, subiu no telhado e tirou o embrulho de saco plástico preto de dentro da caixa d’água. Lá dentro estava o 38. Desceu com a arma e foi para a cozinha. Sentou-se à mesa, com a arma em seu colo e tomou um copo de leite com Nescau, enquanto esperava Sebastião. Sua mãe demoraria a chegar e Maria tinha aula à noite. Seu padrasto certamente seria o primeiro a aparecer. Terminou o copo de leite e foi se deitar em sua cama. Colocou o revólver sob o travesseiro. Cochilava quando foi despertada pelas mãos de Sebastião tocando seus pés.
– Chegou a sua vez, Madá. – ele olhava para ela como um bicho que olha sua presa, sua caça, sua comida.
– Não, seu puto. Chegou a sua vez! – foi a resposta da menina. E sem a menor hesitação, Madalena puxou o 38 de debaixo do travesseiro e deu um tiro certeiro no meio da cara do padrasto.

4.6.09

Quero seu amor
Esse amor safado
Esse amor risonho
Esse amor tarado

Quero seu amor
Seu amor chorado
Seu amor sofrido
Seu amor lavado

Quero seu amor
Não quero pedaços

Lápide

Acabou
Despeço-me
De vocês
Desses lugares
Até logo?
Não digo
Digo Adeus
A Deus
Antes a Ele
(Se é que Ele existe)

Acabou
Ponto final
Ou exclamação?
Certamente não são reticências
Sei que é o fim

Tudo que acumulei
Tudo que aprendi
Tudo que amei
Acabou

Alcançarei a paz?
Com Ele?
Com o universo?
Com a minha eterna não-existência?
Não sei
Só sei que...

Acabou
Subvivendo

Não por falta de condição
Nem por falta de estudo
Falta de orientação?
Também não.

Mas não vivo
Nem sobrevivo
Subvivo
Vivo abaixo da linha
Da linha da pobreza?
Não! Blasfêmia!
Abaixo da linha do que eu sou
Abaixo da linha do que posso
Abaixo da linha 
Minha
Linha

Por quê?
Sem força
Sem vontade

15.5.09

Cozinha

Troppo
Tropeiro
Troputu
Tutu
Não troco nem pela lasanha

Italiana ou brasileira?
Mineira!

11.5.09

Tarde de Domingo

Deitados depois do almoço
A brisa que dança com o sol
Seus cabelos onde se perde meu rosto
Sua pele que envolve meu corpo

Esse dengo de deitar
Me dá e me tira o ar
Primeiro sonhamos
Nos embalamos

A segunda preguiça
Já no fim do dia
Me desperta o bacuri

Seu único ofício é brincar
E se enfia entre nós num pulo
O lençol, cabana pra três
Tanto amor, uma só cama
Paraíso No Inferno

Que lugar tão frio e escuro
Tão quente, o sol tão puro
Esses olhos que me destroem
São os braços que me acolhem

Empurrado, enganado
Recebido com tanto prazer
Acoado, apertado
Muito espaço pra viver

A cidade em minhas mãos
Não conheço lugar algum
Todos aqui são meus irmãos
Mas agora sou só mais um

Aqui reencontro o amor
Outra velha companheira
Sempre presente: a dor

4.5.09

O Que Ainda Não Aprendi



Me irrito 
Com quem erra
Onde tudo é tão fácil pra mim

Com quem ainda não viu
Tudo o que eu agora enxergo
Mesmo sabendo que antes 
Eu também não percebia

Com quem consegue
Vencer essas barreiras
Desatar esses nós
Que eu mesmo dei
E não sei desdar

Venho do trabalho
Parado no vermelho
Três garotos e uma bicicleta
Sem freios e sem corrente
Um deles se diverte guiando
Mas os outros dois empurrando
Também gargalham

O verde permite os carros seguirem
Os garotos se jogam na sarjeta
As risadas são descontroladas
E rolam de um lado ao outro
Se esbarrando, se trombando

O vermelho volta
E a brincadeira recomeça
O garoto da vez abre as pernas
Para dificultar mais o próprio equilíbrio
E todos riem

Será que a vida é assim tão simples?

Vou Te Beijar

Vem cá, quero te beijar. 
Mas calma. 
Não quero sua pressa de sempre. 
Vou te beijar diferente. 
Devagarinho vou saboreando cada milímetro dessa iguaria tão cara, tão rara. 
Vem dançar comigo. 
Eu sou seu homem, deixa que eu te levo. 
Vem deslizando no ritmo da minha língua, dos meu lábios. 
Olha o gosto, escuta o cheiro da minha pele tão perto da sua. 
Vem devagarinho.

17.4.09

Para Longe de Nossas Janelas

A mulher já vivia ali havia muito tempo, na esquina da Rua Iraí com o Largo José Cavalini. Ela dormia no chão. Vivia do que encontrava nas sacolas de lixo que se espalhavam pelas ruas quando ela passava. Estava sempre sozinha, mas sempre conversando. Conversava consigo mesma, com sua consciência ou com alguém cuja existência só ela percebia.
As pessoas se incomodavam. Era realmente doloroso e amargo observá-la ali, sozinha, aparentemente abandonada. Especialmente em dias frios. Me machucavam o edredon e o chocolate quente dos quais me beneficiava enquanto a assistia se cobrir com caixas de papelão.
Me lembro de quando a levaram. Já haviam tentado antes, muitas vezes, com menos energia. Funcionários da prefeitura, de quando em vez, vinham e conversavam com ela. Da janela do meu apartamento eu não conseguia ouvir o que diziam, mas entendia que ela não queria ir pelas sacudidas de cabeça de um lado a outro, pelo olhar confuso e perdido e pelo nariz torcido dos funcionários da prefeitura. Mas um dia não houve conversa. Chegaram em uma van. Dois homens desceram e a agarraram. Ela se debateu, mas foi dominada rapidamente. Levaram-na.
Não sei para onde ela foi. Sei que foi contra sua vontade para tornar nossa vizinhança um lugar menos desagradável.
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Sexta-feira 13. Saio da reunião com o coordenador padecendo de uma dor de cabeça moral. Ao invés de reprovar um aluno cuja preguiça e indisciplina o impediram de desenvolver  domínio de sua língua nativa, me é sugerido (e aqui uso de um eufemismo) dar a esse mesmo aluno aulas particulares. O coordenador ainda ressalta a compensação financeira. Aulas particulares, a essa altura do ano, valem o peso do professor em ouro.
Além de não ter tido apoio algum de meu ilustríssimo superior, sou obrigado a engolir os meus princípios goela abaixo.
Parto da escola em direção ao bar. Vou me encontrar com o meu orientador do mestrado. Assim que finalizar o curso, penso, não terei mais que me sujeitar a humilhação como me foi imposta hoje.
No bar quero colocar toda a minha indignação para fora. A conversa é mais fluida banhada em cerveja e cachaça. Meu orientador é todo ouvidos e apoio. Terminamos a noite abraçados ao violão, cantando a revolução que promoveríamos no sistema educacional brasileiro.

Sábado 14. Acordo e me levanto imediatamente. Minha cabeça lateja. Meu reino por uma xícara de café forte e uma Neosaldina. Na porta da geladeira encontro a conta do celular. Exagerei de novo. Vou ligar para o meu aluno. Oferecer aulas particulares. Pagando bem, que mal tem? Começo a revolução no ano que vem, quando voltar da minhas férias na Europa.
Fraqueza

Se eu te vejo
E não posso parar
Se eu te beijo
E tomo seu ar
Se desejo
Sem hora ou lugar
Me perdoa

Se te atraio
Te atiço a loucura
Se eu saio
A ausência te cura

Se te quero
Paixão retraída
Se sou bom
Mas não pra sua vida
Me perdoa

Se não falo
Tudo que sinto
Se me escondo 
Às vezes minto
Covardia, medo
Razão, ainda é cedo
Me perdoa

Rasgado

Dentro do carro, longe de todos aqueles olhos, finalmente se beijaram. As roupas, obstáculos intransponíveis. Para os corpos. As almas se entrelaçavam. Os cheiros, os gostos, se misturavam.
Um barulho na rua a despertou. Seus olhos o miravam e ela dizia para ele ir embora. Ela não podia mais ficar. Sabia que ele também não aguentaria mais. Ele era fraco, muito fraco. Ele não tinha mais palavras. Percebeu de novo o vazio de ser racional, de pensar e fingir não sentir.
-- Eu te amo.
Fechou a porta do carro e a observou sumir no infinito. Tudo perdia o foco enquanto um sabor salgado deslizava devagarinho por entre seus lábios.

3.4.09

Explico

Me instiga e provoca
Alumbra
Real com gosto de sonho
Inevitável
Nada mais importa exceto
Agora

Encaixe perfeito
Fato
De físico, de alma
Raro
Será ilusão?
Desperta

Olhos só pra mim
Desejo
Tempo que perturba
Vontade
Basta um segundo
Enlevo

Te levo se me levar
Aceita!
Estou aqui mesmo
Disposto
Pro seu corpo, sua alma
Entregue

29.3.09

Tangible Non-existence

The further I get,
The more I think.
The closer I am,
The more I feel.

There's something here
Still can't tell what
But I know I'm not alone
The clues, yet powerful, 
Are sometimes misleading

Some get scared
They say I should run
But I won't
Intuition tells me
I must stick around

23.3.09

Brilha Nos Olhos de Quem Vê

A realidade do diamante
A concretude do falso brilhante
Ora, existe a mesma verdade aqui
Quanto a evidente presença dali?

A pedra bruta mal trabalhada
Desarmonia no excesso ou na falta
Humilde vidro, valor: quase nada
Atenção, o cuidado, arte tão alta!

Às vezes me encanto, mera ilusão
Me engano, me enebria, me entrego
Com freqüência teimo, aceito, não nego

Mas sei, surpreso, incomum perfeição
O vidro ao qual raramente me apego
Única beleza que agora enxergo

22.3.09

Breathless



No silêncio vespertino do estacionamento, o fechar da porta do carro soou como retórica: nunca mais. Ele se foi e ela não pôde impedir. Os momentos de paixão que há pouco tinham sido tão intensos, agora pareciam ter acontecido anos atrás. Ele se foi sem precisar dizer que estava indo; ela soube pelo seu olhar. O mesmo olhar que lhe era direcionado antes com admiração, resolveu seguir em frente. Ela soube o por quê. Não podia mais lhe oferecer um coração dividido; ele pedia a eternidade, ela, por ora, lhe oferecia instantes. Ele se foi e ela sabia que havia falhado. Tinha fraquejado e, como havia aprendido em seus poucos mas longos anos de vida, fraquejar significava perder. Ele se foi e ela, por um breve momento, se sentiu realmente roxa, sem ar, sem poder respirar. Não entendeu como vinha respirando por tanto tempo, e agora, perdia o fôlego. Pensou em recuperar o corpo dele, mas já era tarde demais. Esperou, então, pelo cair da noite, onde, quem sabe, suas almas poderiam se reencontrar.



(contribuição especial de uma anônima)

21.3.09

Resolutividade

Ele se decidiu: 
“Chega!” 
Não dava mais. 
Marcaram de se encontrar 
E ela: 
“Assim você não é real.”   

Ela não enxergava 
Ele estava cego 
Seus olhos 
Seu corpo 
Sua alma 
Dela   

“Eu te entendo” 
Ela disse 
Ele suspirou 
“Cala a boca 
E me beija!”

13.3.09

O Último Cigarro

Deitado, respirava com dificuldade. Suas mãos agarradas àquela caixa de sapato. Sabia que não escaparia dessa e agora já nem se preocupava mais. Afinal, não restara ninguém. Tudo o que sobrara de todos aqueles que importavam estava naquela velha caixa de sapato. As fotos, as cartas... As cartas! Havia mais de 20 anos que não recebia uma carta. O envelope chegando com seu nome escrito à caneta. Não era necessário ler o remetente para saber quem o enviara. Costumava sentir seu peso, cheirá-lo e então guardá-lo. Abrir o envelope merecia toda a sua atenção, um acontecimento a ser saboreado. Chegava então do trabalho. Sua mulher terminava de preparar a janta enquanto ele tomava aquele banho frio. Um santo remédio. O havia curado da asma. Maldito cigarro! Bendito cigarro! Se não houvera parado de fumar, não teria sido deixado pra trás com aquele maldito enfisema. Abrir mão daquele prazer... Pra quê?!
As mãos fraquejavam, tremiam e ele tateava o interior da caixa buscando o velho fósforo de cartela. Guardara-o por 60 anos, desde sua lua-de-mel. Usara apenas um dos palitos. Ofegante, abriu a gaveta do criado mudo e encontrou atrás da bíblia o maço de cigarros que roubara do enfermeiro no dia da internação. Com alguma dificuldade, contando com a ajuda do ar parado do quarto, conseguiu acender um cigarro na primeira tentativa. Se sua mulher pudesse vê-lo agora... Ela certamente se transformaria em uma onça. Talvez o agredisse com tapas, com socos, com palavras. Chamaria todos os enfermeiros e médicos daquele hospital. Ligaria para os filhos e netos. E quando finalmente conseguisse a atenção de todos, choraria muito. E como era linda quando chorava! Ele sempre dizia que queria morrer primeiro para vê-la chorar em seu enterro. Que bobagem!
Uma crise de tosse violenta. Seu corpo pulava em cima da cama descontrolado. A caixa de sapato jazia no chão. De repente, a calma. E os bipes daquela máquina maldita deram lugar a um interminável apito anunciando o esperado fim.
Silêncio

Palavras escondidas
Não há versos, não há rimas
A voz tão recolhida
Não há termo que exprima

O folêgo que já me falta
Seus olhos, onde eu parei
No céu, a lua alta
Sua boca, que eu não beijei

Entre um minuto ao seu lado ou viver?
Não há dúvida
Por mais curto que seja o presente 
O sabor é único se estou com você

12.3.09

A Última Vez

Me lembro da última vez. Você saiu do banho naquele seu roupão laranja com uma toalha enrolada na cabeça. Sorria e me pedia calma: “Primeiro, quero secar o cabelo”. Eu estava deitado na cama. Te observava. Não dizia nada. Você nunca secou o cabelo na sua vida.
Desenrolou a toalha devagarinho e começou a puxar as mechas de cabelo entre o tecido, ora esfregando, ora dando tapinhas. Eu te chamava. Você nem olhava pra mim. Só sorria e me mandava esperar. Enrolou de novo a cabeça com a toalha e, percebendo que eu me mexia, parou ao pé da cama e colocou as mãos na cintura.
O roupão entreaberto revelava seus segredos mais perfeitos. Recostei-me na cabeceira da cama. Você se sentou ao meu lado. Olhou pra mim e me beijou devagar. Não me abraçava. Mantinha suas mãos ao longo de seu corpo. Só sua boca era minha naquele momento. E era o suficiente. Apesar de só os nossos lábios e línguas estarem em contato era como se todo o meu corpo e todo o seu corpo fossem uma coisa só. Talvez os olhos fechados ampliassem essa sensação. De repente senti sua mão por trás do meu pescoço. Puxava meus cabelos. Parou de me beijar e se esticou na cama deitada de costas. Pediu que eu começasse devagar. Sempre usava essa palavra: devagar.
Te observei por alguns segundos. Queria que sua imagem penetrasse minha alma através das minhas retinas. Toquei seus joelhos e você estremeceu. Beijei-os levemente, explorando-os e indo lentamente para a parte de trás de suas pernas. Agora usava vigor, com a boca entreaberta, permitindo minha língua escapar aqui e ali. Subia lentamente pela parte interna de suas coxas. O cheiro, o gosto, a textura da sua pele, tudo me fazia querer morrer naquele instante. Queria levar desse planeta só aquilo. Subia mais e ouvia sua respiração, agora mais profunda. Quando alcancei sua virilha, suas mãos seguravam minha cabeça. Parei de usar os lábios. Troquei o toque da minha pele por assopradas leves. Até que não resisti mais e deixei minha língua penetrar enquanto minhas mãos se divertiam passeando por toda parte do seu corpo a seu alcance.
É difícil descrever o que acontecia nessas horas. Mas me lembro que à certa altura você sempre me interrompia e, entre gemidos, dizia: “Agora!”

Racional

Minha cama é agora a razão
Se não faço o que fazia
Se não canto o que cantava
É só por que o mundo
Não pode parar de rodar

Calei todas as vozes sem som
Não sinto o que não se sente
Não vejo mais o que não se vê
(E se vejo, agora escolho fechar os olhos)

Não tem mais impulso
Nem desejo, nem capricho
Não tem mimo, não tem dengo

Não tem mais carpe diem
Nem busco sentido pra vida
Não tem mais filosofia estéril

Tomei minha vacina
Vou servir a pátria amada
O orgulho da família

Funcionário do mês
Uniforme bem passado
E um sorriso na parede

A nobre literatura morreu
Pra nascer o que é direito
Só tenho bom senso
E não sinto mais nada

Pra que minha vida siga adiante

Árido

No final do outono e no começo do inverno
Tudo é cinza, tudo é morte
Não existe movimento
A vida se reduz
Menos que um sopro

A terra não tem outra alternativa
Se agarra às últimas gotículas
E espera

6.3.09

Your House

Com a chave na fechadura ela começou a rezar. Ele costumava ficar em casa até mais tarde depois do almoço nas segundas. Mas isso era antes. Os hábitos haviam mudado.
Destrancou a porta e entrou soltando o ar pesado que carregava nos pulmões. Deixou cair a bolsa no chão da sala como tantas outras vezes. Não. Agora era completamente diferente. Subiu a escada que dava para o quarto. A cama de casal estava impecavelmente arrumada. Não resistiu, deitou-se nela.
Sentia o cheiro dele. Abriu o guarda-roupa e se sentiu engolida por tudo. Foi até o banheiro e se despiu -- sem se preocupar onde as peças que usava caíam. Entrou no chuveiro e deixou a água cair sobre seu corpo trêmulo de soluços. Sentia o chão frio em suas nádegas e a água quente em suas costas desprotegidas. Saiu do chuveiro e vestiu-se com o roupão dele. No armário do banheiro, o vidrinho de perfume a torturava.
Desceu as escadas novamente e foi até o escritório. Acendeu um incenso. Vasculhava os CDs. Sabia que nenhum daqueles eram seus. Eram todos dele. E viu um pedaço de papel sobre a mesa. Era uma carta de amor. Mas não era sua letra. Nem mesmo saberia dizer de quem era aquela letra que falava todas as coisas que ela um dia dissera.
Finalmente, vestiu novamente suas roupas e foi embora, deixando para trás as chaves do apartamento, a porta destrancada e um pedido de desculpas.

1.3.09

Névoa   

Primeiro, seus olhos 
Não! Seu sorriso 
Depois, sim, o olhar 
Uma lagoa 
Pra eu entrar, mergulhar 
Não tem jeito de chegar perto 
Tudo a sua volta é barreira 
Tudo a sua volta é repulsa 
Mas eu insisto 
Te cerco 
Por todos os lados 
E se me machuco 
Não me importo 
Se mais gente se fere 
Tarde demais
Pra ter você 
Até o errado é certo 

De repente desisto 
E você me chama 
Com essas palavras que eu não entendo 
Seus gestos dúbios 
Quer me agredir 
Ou vai me abraçar?   

E está em meus braços 
Enlevo 
Você se desfaz 
Névoa 
E me distraio 
Te vejo mais uma vez 
E agora minha língua 
Sua língua 
Meu corpo e seu corpo 
Contorcidos e entrelaçados 
Não há ar suficiente pra nós dois 
Suas mãos me procuram 
Minha boca quer beber tudo   

Mas você é névoa 
Se desfaz

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Reincidência  

Ela já foi e voltou 
Nem sei mais há quanto tempo 
Nem sei quantas vezes   

Mas é sempre a mesma coisa 
Ela se insinua, se mostra 
Começa devagar 
Às vezes nem tanto   

Seus lábios, seus olhos 
Suas mãos e sua voz 
Agarram minha alma 
Se apossam do meu corpo   

A príncipio não me convence 
Me defendo, me esquivo 
E então estou novamente 
Entregue e vulnerável
 
E ela se dissipa, se despedaça 
Vidro ou cristal?

TPM Masculina

Entraram no carro dela. O dele estava na revisão. Assim que ela girou a chave e as luzes do painel se acenderam, ele deu uma olhada no visor de cristal líquido: 
-- Caralho! 
-- Que foi? 
-- Eu não vi que tava atrasado. 
-- Cê não tá atrasado. Faltam 30 minutos. 
-- Normalmente eu já estaria no trabalho. 
-- Mas hoje não é normalmente. 
Ela engatou a ré e o carro começou a se mover. Ele levantou o joelho bruscamente e se agarrou ao painel. Ela respirou fundo. 
-- Que caminho é esse? 
-- O caminho certo. – ela respondeu sem olhar para o lado. 
-- Se você fosse por cima escaparia do trânsito. 
-- Mas a volta seria tão grande que eu gastaria o mesmo tempo. 
Ele resolveu ligar o som, mas não encontrou nenhum de seus CDs. Mudou para rádio e viu que nenhuma de suas estações estava programada na memória. Resolveu voltar a atenção ao trânsito novamente. 
-- Ué, essa avenida não é a Ricardo Jaffet? 
-- É. Mas aqui ela tem outro nome. E lá na frente ela vira Imigrantes. 
-- Não sei pra quê tanto nome. Coisa imbecil. 
-- Se seu pau fosse grande, cê também poderia colocar vários nomes nele. 
-- Dirige, tá? Era só o que me faltava. Eu tô atrasado, a porra da avenida tem três nomes, o farol tá vermelho e eu ainda tenho que ouvir minha mulher dizer que meu pau é pequeno. 
-- Eu não disse que ele é pequeno. Só não é grande. E agora você sabe como eu me sinto na TPM. É isso que cê tá sentindo agora. Ininterruptamente.

She Wears Purple

No, there hasn’t been a smile like that
And no eyes have been brighter
The way you tilt your head to get attention
Or throw you hands in front of me
Clumsy and beautiful

And why do you read me like you do?
You understand the languages I speak
And also the ones I want to learn
You listen to my songs
You know the words by heart
(I thought they were mine
But it seems I’m yours)

And as if all that wasn’t enough
There’s your white skin
The soft flesh around your bones
The delicate touch of your body when I hold you

And then you leave
An empty bottle of wine in my hands

17.12.08

A Rosa

Andava pela praça, como fazia todas as manhãs, quando a viu. Nunca, em toda sua curta existência, havia colocado os olhos em algo tão belo. Esqueceu-se de onde ia, o que faria. Esqueceu-se de si. A rosa o havia laçado. 
Seus pés, cada vez mais rápido, se moviam, levando-o para perto daquela rosa grande e vermelha. Estava a menos de um metro. Podia já sentir seu perfume. Agachou-se, olhou em volta. Sentia-se envergonhado por não conseguir controlar sua vontade daquela forma. Olhava em volta para ter certeza de que ninguém o vigiava.
Olhou para a rosa novamente. Tinha ainda pequenas gotículas de orvalho em suas pétalas que, embora dessem um ar melancólico à rosa, também realçavam sua perfeição. Tocava as pétalas, sentia o toque doce na ponta de seus dedos. Estava em enlevo.
Foi aí que se lembrou. Já havia estado ali. Já havia se ajoelhado frente àquela obra da natureza,  tantas e tantas vezes. E lembrava-se de como havia a descrito antes: ela era plástica!
Lembrava-se também dos espinhos. Mas queria tanto tê-la. Sabia também que a rosa morreria se dali fosse arrancada.
Decidiu não tocá-la. Levantou-se e seguiu seu caminho, voltando os olhos, vez ou outra, por cima do ombro, enquanto podia, tentando guardar cada detalhe daquele encontro.

16.12.08

A Correntinha

Encontrou aquela correntinha no meio da mudança. Era dourada, mas qualquer um perceberia que não era ouro. Sem valor algum. Financeiro. Mas como era cara naquele contexto. Quanta lembrança, quanta história.
Deixou-se levar por tudo aquilo. Mergulhava do alto e penetrava aquele mundo onde tudo era perfeito: o passado. Tudo o que vivera, tudo o que sentira, as coisas se encaixavam com tanta perfeição. O mundo parecia mesmo fazer sentido. Acreditava que havia chegado ao final da jornada. Havia alcançado o que havia de mais valioso, de mais importante. De fato, acreditava que tinha nas mãos a única coisa que de fato possuía algum significado.
Porém, escorregara, se desequilibrara. Que tombo. E tudo aquilo se tornou o que era aquela correntinha: uma lembrança de um tempo muito longe e feliz.
Viu-se em um dilema: guardá-la ou não?
Não precisou muito tempo para perceber que o certo seria jogar tudo fora.
Por razões e vontades que, embora compreendesse, não aceitava, as coisas estavam como estavam. E o fato de não aceitá-las, só prolongava seu sofrimento, tornando tudo aquilo, antes imaculado e lindo, em dor e mágoa. Guardar a correntinha mantinha vivo aquele sonho implausível concreto, real, mas inativo, congelado. 
Arremessou-a o mais longe que pôde dentro do mar escuro espalhado à sua frente. E em poucos segundos, a sua própria presença ali era comprovada apenas pelas partículas de poeira que dançavam no ar, deixadas para trás pelos pneus. 
E o vento continuava a soprar, a balançar o oceano. Os pássaros continuavam a voar pela orla. E a areia continuava a se deixar lamber pela língua branca e salgada do mar.
E mesmo aquelas partículas de poeira em mais alguns poucos segundos se assentariam, transformando qualquer lembrança de sua estada ali em nada. 

11.12.08

Nada Demais

Ela não é mais bonita
Nem mais charmosa
Nem mais gostosa

Ela não é mais sábia
Nem mais inteligente
Nem mais independente

Ela é só mais uma
No meio de tantas outras
Sem nada de mais
Ela não é demais

Mas nos meus olhos
Ela brilha!

28.11.08

Ticket to Ride

Ticket to Ride

Eu cheguei em casa e ela estava sentada na poltrona que eu herdara do meu avô. Estava usando um daqueles vestidos de hippie que tanto gostava. Era preto, de algodão, com retalhos multicoloridos na barra. Percebi que usava todos os seus anéis. E isso só acontecia em ocasiões muito especiais. Foi nesse momento também que notei a mala velha a seus pés. Era uma mala muito velha, de couro cor de ferrugem. Estava estufada. Junto a ela, aquela bolsa de renda enorme que usávamos para ir à cachoeira em dias de domingo. Uns vão à missa. Nós íamos à cachoeira.
Eu entrei e antes que fechasse a porta atrás de mim, ela se levantou. Colocou a bolsa no ombro. Agarrou a mala velha, com muita dificuldade, com a mão esquerda. Me mostrou uma passagem que tinha nas mãos. O bilhete era para São Paulo. Não disse nada. Me deu um beijo na testa. E saiu pela porta. O sonho acabou ali.

26.11.08

Swimming Pool Eyes

I watch you watch me
Clear water surrounds my body
A feeling so sweet to my soul

Big eyes staring at me
Lips smiling waiting for my own

For an hour or two, I wanna dive
Into those swimming pool eyes

17.11.08

Rádio Táxi

Andava por perto da Santa Casa procurando um táxi. Achou um ponto, mas não havia nenhum carro. Apesar de já ser quase madrugada, havia ali um homem trabalhando num desses carrinhos onde se encontra todo tipo de guloseima e cigarros do paraguai vendidos "picados".
-- Boa noite, o senhor sabe onde tem um ponto de táxi aqui por perto?
O homem do carrinho fritava uma salsicha. Com a espátula que usava para girar os cilindros de carne apontou para o ponto de táxi do outro lado da rua.
-- Ali tem um, ó. 
-- Ah, então aquele ali ainda tá funcionando.
-- Tá, sim. Espera um pouquinho que já já chega um.
Ao virar-se para atravessar a rua, percebeu que não seria necessário ir até o ponto de táxi. Um Santana branco se aproximava e não parecia carregar nenhum passageiro. Levantou o braço direito e o veículo encostou.
-- Amigo, quanto custa uma corrida até o Shopping Santa Cruz?
O motorista, um senhor beirando os 60 anos, mascava um pedaço de palito de dente. Em tom profético, olhando através do pára-brisa, como se a rua à sua frente lhe mostrasse a resposta, disse:
-- Ah, vai chegar nums 30, 35, viu?
O rapaz havia calculado mal. Havia estimado que a corrida não sairia por mais de 25 reais. Mas não havia outra opção. O metrô só abriria novamente depois das 4. Entrou no carro.
Observou que o Santana aparentava mais idade do que certamente tinha, assim como seu motorista, que agora checava com o rapaz o melhor trajeto até o shopping. O rapaz se sentiu reconfortado. Sempre se sentia desconfortável em sugerir aos taxistas o trajeto. Sabia que isso era necessário, pois nem todos os taxistas eram honestos. Assim, se não mostrasse conhecer a cidade, corria o risco de dar voltas desnecessárias. Ao mesmo tempo, nem todo taxista era desonesto. Dessa forma, comentar sobre o trajeto preferido poderia ofender o profissional.
Enfim, sentiu-se muito reconfortado por não ter que fazer aquela dolorosa escolha (entre comentar sobre o trajeto ou não). Tão reconfortado que resolveu puxar papo.
-- E aí, o Santanão é bom mesmo?
O taxista segurava o volante com a mão esquerda enquanto o Santana, sem reclamar, subia a 23 de Maio ultrapassando todos os poucos carros que faziam o mesmo trajeto, inclusive cortando pela faixa da direita. Com a outra mão, ele segurava o pedaço de palito de dente, já bastante mastigado.
-- Ééééé... Ele tá é muito judiado. Já rodei mais de 500 mil com ele. -- com gesto súbito olhou para o rapaz, segurando o palito entre o dedo médio e o dedão, enquanto pronunciava, com o dedo indicador em riste -- Mas nunca abri o motor dele.
-- E bebe muito?
O taxista agora sorria gostoso, mostrando os dentes.
-- Olha, se você dá partida no carro, ele já tá bebendo. Aí, tem gente que diz que aquele carro bebe mais do que esse, mas é o motorista, ué? Eu não quero nem saber. Enfio o pé.
-- Não fabricam mais, né?
-- Não.
-- Mas é um carrão, né?
-- Ah, é. Mas carro grande, também, tem que meter logo um gás. Se você comprar um carro grande, mete logo um gás. É a primeira coisa. Eu vou pegar uma Zafira agora.
-- E vai por gás?
-- Vooooooou...
Ficaram por alguns segundos em silêncio. O rapaz, um tanto quanto confuso, apreciava o estado lastimável do Santana, ao mesmo tempo que admirava o silêncio e a força do motor. O taxista então disse:
-- Sabe que eu tinha uma fuqueta 66? E eu colocava óleo diesel? -- agora ele gargalhava -- E ele andava! Eu não tinha dinheiro pra pôr gasolina. Então punha óleo diesel, ué? E as minas pagavam mó pau praquela fuqueta. Sabe que uma vez eu fui prum putêro lá em Viracopos com um amigo meu? Ele já morreu. Deixou uma bucetona duma mulher, rapaz. Até hoje sou doido pra comer a mulher dele. Sabe que foi assim: ele foi dormir e não acordou mais?
-- Infartou?
-- Sei lá. Só sei que a mulher dele acordou e ele tava lá durinho.
-- Bom, deve ser melhor, pra quem vai, morrer assim do que ficar sofrendo, doente.
-- É. Cê vê minha mãe. Um dia me deu um negócio e eu resolvi que tinha que ir na casa dela. Cheguei lá e ela tava lá vendo televisão. Ela gritou lá de dentro: "o portão tá só encostado". Eu entrei e pediu pra eu pegar um copo d'água pra ela tomar o remedinho dela. Fui na cozinha e quando voltei ela tava lá durinha.
-- Foi tranqüila, então?
-- Tranqüila. Já meu sogro... Entro na Botucatu?
-- É. Eu não vou no shopping mesmo não. Vou ali perto do Hospital São Paulo.
-- Ah, tá. Eu sofri pra caralho com meu sogro. Aquele cara era legal pra caralho. Mas sofreu pra burro, porra! Ficou no hospital e falava: "pô, cê vai me largar aqui? eu quero ir pra casa!" Mas, porra, o que eu ia fazer, caralho?! Eu falava pra ele que ele tava no hospital. Ali tinha uma equipe médica pra cuidar dele, porra. Aí, morreu. E aí vai falar que não cuidaram dele. Porra, caralho, ele tinha uma equipe médica cuidando dele. Se foi, era por que era pra ir, caralho. Mas ele era legal pra caralho. Chegamos.
Encostou o carro e conferiu o taxímetro. 
-- Aí, nem deu 30. Deu 26, olha aí ó!
-- É, e eu acho que tenho até trocado. Aqui.
-- Aí é bom, né? Valeu. Precisando é só chamar. Tamo sempre por lá.
O rapaz agradeceu e fechou a porta. O carro arrancou devagar e entrou à direita na Pedro de Toledo.

12.11.08

Ruídos

Acabara de se deitar. Seu corpo se adaptava àquele colchão desconhecido esparramado no chão, enquanto Ronaldo, em sua cama, completamente adaptado, já roncava. A princípio Fábio não achou necessário usar a coberta dobrada a seus pés. Mas percebia que com o caminhar das horas, aquele quarto parecia ir ficando mais e mais frio. A porta estava entreaberta. A janela estava fechada, mas as frestas permitiam que uma leve corrente de ar frio atravessasse o aposento. Fábio decidiu puxar a coberta para cobrir o peito. Lembrava-se de sua mãe nessas horas.
Fábio e Ronaldo haviam conversado por horas. Muito tempo se passara desde a última vez que se viram. Muito papo para colocar em dia. Ronaldo decidira se casar com Ângela, mas ainda não haviam marcado a data para o casório e nem decidido se voltariam ao Brasil para uma cerimônia em família. Fábio continuava o mesmo solteirão solitário de sempre. Durante o jantar, Fábio revelara a Ronaldo que decidira parar de beber. Ronaldo não conseguia ver o menor sentido naquilo, mas como apoiava o amigo em qualquer coisa, disse em tom solene:
-- Não temos álcool, mas temos as palavras.
Depois do jantar, obviamente, fumaram um baseado. Para espanto e diversão de Ronaldo, isso Fábio não havia largado. E intrigado, não cansava de rir e perguntar:
-- Beber não pode. Fumar maconha pode?
Desciam a Singel a pé, às margens do canal, relembrando os velhos tempos, e gargalhando aqui e ali, até que chegaram ao apartamento.
Ronaldo dividia um pequeno apartamento em Amsterdã com um primo surdo. A deficiência do primo, se tornara uma benção para a convivência mútua. Ronaldo sempre fora muito barulhento. Agora, ninguém reclamava disso. O apartamento era realmente bem pequeno. O sofá da sala não serviria nem para uma noite. Mas Ronaldo mantinha um colchão velho de acampamento enrolado em cima do guarda roupa. Assim que chegaram, Ronaldo jogou o colchão no chão, e deu um travesseiro, um lençol e uma coberta a Fábio.
Depois de devidamente instalados, cada um em seu leito, ainda conversaram um pouco sobre animais de estimação. Ronaldo defendia o cachorro por sua fidelidade. Fábio, o gato, por sua integridade. Riam muito e se entendiam pouco.
Ronaldo, em certo momento, virou-se para o canto. Alcançou o interruptor do abajur sem nem olhar pra ele e desligou a luz:
-- Cara, vou dormir.
E como se essas palavras fossem mágicas, já roncava.
Fábio estava inquieto. Não era só o sono. O apartamento lhe parecia meio sombrio. O primo de Ronaldo não era exatamente o que se chamaria de um cara normal. Carregava sempre uma carranca na cara e o movimento que mais fazia era chacoalhar a cabeça de um lado a outro, em reprovação a tudo que pudesse ser reprovado.
Além disso, havia esse ventinho frio. Fábio não conseguia dormir. Às vezes tinha a impressão de estar perdendo a consciência. Seu corpo ficava imóvel por um longo tempo. Era como se todos os seus membros estivessem adormecidos, mas de uma maneira agradável. No entanto, ele não perdia a consciência. Seus ouvidos, como radares, patrulhavam todo o apartamento, trazendo à sua mente qualquer novidade que encontrassem: um assopro vindo da janela; a vibração da moldura causada pelo vento; um rangido vindo da cama de Ronaldo; algum outro ruído desconhecido, proveniente, provavelmente, do quarto do primo de Ronaldo.
Fábio sempre tinha problemas para dormir em lugares novos. Dizia sempre em sua defesa que o ouvido precisava se acostumar, selecionar os ruídos cotidianos dos ruídos que fugiam à normalidade da casa. E, ainda segundo sua teoria para a dificuldade em dormir em ambientes desconhecidos, cada casa, cada apartamento, cada quarto, tinha sua coleção de ruídos cotidianos. 
Agora, Fábio, já começava a entender aquele quarto. Já reconhecia um ruído leve que vinha do quarto ao lado, percebia a vibração da janela causada pelo vento. Ia então sentindo sua mente seguir o seu corpo e relaxar. Estava deitado de bruços com a cabeça voltada para a porta do quarto, que ficava na parede oposta à da janela. Nesse momento, era como se nem fosse ele mesmo que estivesse ali. Ele era apenas um corpo estático, anestesiado. Os ruídos iam ficando cada vez mais distantes.
De repente, uma vibração mais forte da janela o chamou de volta à consciência. "Alguém entrou no quarto," pensava. Tinha a nítida sensação de que alguém o observava. Seus olhos estavam abertos. Sabia que pela porta não havia entrado ninguém (seria impossível entrar no quarto sem se pisar no colchão onde estava deitado). Sabia também que a janela estava fechada e que não era possível abrí-la por fora sem a quebrar. 
Mas a sensação era forte demais. Alguém o observava. Conseguia ouvir Ronaldo ressonando, então não era ele que o observava.
"Não tem ninguém nesse quarto além de nós dois," pensava. No entanto, não conseguia mandar embora aquela sensação de que estava sendo vigiado, velado.
Começou a lembrar das histórias que ouvia, quando criança, da tia que ia sempre aos tais centros. Ela não era espírita, como a própria sempre repetia, mas tinha curiosidade. E depois que proclamaram-na médium, suas visitas aos centros passaram a ser mais e mais freqüentes. E ela contava como existia muita gente que era médium e nem sabia. Ela explicava que cada um percebia a presença de espíritos de um jeito: uns os viam; uns os escutavam; uns apenas sentiam uma pressão em seu peito que indicava algum tipo de presença.
Fábio não tinha coragem de girar a cabeça em direção à janela. Já se arrependera e se perdoara por ter aberto os olhos. Girar a cabeça para checar o outro lado do quarto não faria. Reuniu forças e coragem para dizer:
-- Tem alguém aí?
Não obteve resposta alguma, mas continuava com aquela mesma sensação.
Sua tia contava também que havia espíritos bons e espíritos maus, "como as pessoas," dizia ela. E que os espíritos maus buscavam atravessar o caminho dos vivos, por inveja, por ciúmes, por medo. E os espíritos bons velavam, protegiam.
Fábio não conseguia evitar imaginar agora uma nuvem negra entrando de supetão pelas frestas da janela às suas costas causando aquela vibração mais escandalosa que o trouxera à consciência novamente. Imaginava uma nuvem espessa que empurrava a moldura e se reunia numa forma humanóide, pairando sobre seu corpo, com dois pequenos círculos vermelhos no centro. Agora fechava os olhos. 
Suas costas estavam mais quentes no centro, como se alguém tivesse pousado ali a mão. Mas não sentia pressão alguma. A sensação de temperatura, no entanto, era inconfundível. 
A nuvem negra emitia uma projeção que tocava suas costas, causando aquela sensação.
Começou a rezar.
Subitamente, pensou em uma nuvem mais clara, quase branca que entrava da mesma maneira, empurrando as frestas da janela e causando a vibração. A nuvem branca também paraiva sobre seu corpo, como havia feito antes a nuvem negra. Não tinha rosto, mas parecia sorrir. E estendia uma projeção que tocava as costas de Fábio, onde ele percebia um aumento de temperatura.
Fábio gostava mais dessa segunda imagem e resolveu adormecer.

31.10.08

For as long as I'm around
You three will live in my heart
And when my body finally perishes
The three of you will live forever
Floating, dancing
In my soul

24.10.08

Words Words Words

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Words words words, words words words words words words. Words words words words words. Words words words words words words. Words words words: words words words words words. Words, words words words words!
Words words words words words. Words words words words. Words! Words words words words. Words words words words words words words words words? Words words words words words words words words words words words, words words, words words words words words words words words. Words words words words words. Words words words words words words words words? Words words words words words words words words words words words -- words words words words words words words words. Words! Words words words words words.

16.10.08

Seu Presente Pra Mim

Eu quero o seu olhar
O brilho dos seus olhos
Quero sua mente
A testa franzida pensante
Eu quero sua risada
O som da sua voz
Quero conversar
Entrar no seu mundo

Eu quero isso
E quero agora

Eu quero seu corpo
Seu beijo, seu gosto
Pra mim só o nada é demais

8.10.08

Auto-retrato

Lá na Vila Clementino
Num quarto bem pequenino
Um homem se acha menino

Nas noites, lua já vai alta,
Se entrega ao prazer do sonhar
Mas não quer dormir o peralta
Só quer escrever, quer cantar

Sofre sempre dos mesmos males
Aqueles que traz o amor
De repente, pula um salto
E decide: "Vô sê dotô!"

5.10.08

What Is Love Anyway?

My best friend is gay. She and her “roommate” had been bugging me for ages, trying to talk me into going to a gay club with them. They kept saying I’d enjoy the atmosphere (“lots of writers go there”, they'd say, like a writer wants to meet another freak) and the music (mostly 70’s and 80’s).
There were two things holding me back, though.
First, I thought I’d be in danger. I’m quite easygoing. Always have been. But I was a little self-conscious about going to a gay club. I was afraid guys would be coming onto me all the time. But then I thought: Hey, I’m not that attractive. When I go to straight clubs, girls don’t even look my way.
In fact, I need to work really hard to get a girl’s attention. And I’m just not the kind of guy who has that innate ability of starting conversations with strangers.
The other thing was that it was going to be the three of us there. I was afraid of being a third wheel.
You know, I really loved being single. At that time, I simply wasn’t able to see myself tied up to anyone. I love the freedom of going to places or staying home without having to negotiate with anyone. Also, the time you spend alone is so productive: you can read, you can write (and that’s what I do), watch those movies nobody else wants to watch, plan your vacation, spend a hundred bucks on a bottle of wine without feeling guilty... Perfect!
The only real problem in being single: going out with your friends who do have somebody. Couples are always in couples. When a couple goes out, either it’s going to be a romantic evening or they’re going out with another couple (whether they’re gay or straight... this seems to be standard behavior among human beings, regardless their race, creed, or sexual orientation).
I have a lot of friends who have somebody or are married. And I get along pretty well with them and, in most cases, with their partners, too. That makes me welcome to most parties, get-togethers, and the like, they throw. But I have lost count of the many times I was there among 3 or 4 couples. Sometimes it does feel weird. It’s like I ought to be somewhere else. Not there.
Anyway, I finally gave in. I remember I was still in school and it was Sunday night, which meant we couldn’t be long there. So I thought, why not?
The place was pretty cool indeed. The music was really nice and in the middle of the night there was a stand-up show by a hilarious drag queen. I had a ball. But something kind of awkward happened.
Alisson (my friend) had been getting some text messages on her cell from a mysterious girl. Her girlfriend, Danielle, was furious. She’d been trying to get Alisson’s cell all night. She wanted to check the contents of those mysterious messages. Alisson was also getting kind of pissed off. She felt Danielle was breaking into her privacy. Danielle would say that if Alisson would let her see the messages, she’d be able to trust her more and there would be no need for any of that.
Anyway, Danielle was a little high. We all were. We had had a joint in the car, before getting into the club. Also, we’d bought a bottle of J.D.’s as soon as we’d gotten in (Danielle and I are whiskey people, Alisson drinks expensive wine and cosmopolitans). That’s the picture. At a certain point, they grabbed me and decided I’d be the judge of that little quarrel.
“Jimmy,” started Danielle, “you love us both, don’t you?” She paused for a drag at her cigarette and then handed it over to me, “I mean, you and Alisson have known each other longer, but you care about us, and you are impartial by nature, so, what do you think about what’s going on?”
I had a long drag at the cigarette. They were there, watching me, waiting. Alisson nodded at me, approvingly.
“Well,” I took a deep breath, “I don’t think this specific matter concerns me and I don’t feel comfortable talking about it, let alone expressing my views on it.”
“Oh, come on!” Danielle threw out her hands. “As a friend it is your duty to be honest.” She was getting kind of loud there. “Come on, come on! Don’t be a wussy! Say what you think. That’s all I want from you.”
I don’t appreciate being called a wussy. So I gave her what she asked for.
“You wanna know what I think. Here it goes: If I were Alisson, I’d have broken up with you a long time ago for being so invasive.”
“But her behavior forces me to be invasive. She never tells me what’s really going on between her and that chick.”
“So you should break up with her, that is, if you feel she’s keeping something from you.”
“You see?” she was looking at Alisson who finally had something to say.
“But you don’t have to be so aggressive, Danielle. You pushed the girl at that party!”
Danielle dropped her glass and left us at the bar. Alisson gave me her own glass and went after her.
And there I was, alone, holding a cosmpolitan. In a gay club.
First thing I had to do was get rid of the drink. So I drank it all up at once. I put the glass on the counter and left the bar. Hitting usually happens in that area. I took a few steps out of the bar and found myself at the edge of the dance floor.
There’s this thing about me. I’m a man. I’m straight. But I dance. And I enjoy it. But I simply couldn’t do it. I already could see a guy staring at me.
I took a few steps back and found a wall towards which I could lean and wait. And, boy, did I wait!
Those two seemed to be nowhere I could see them. They were definetely not at the dance floor. They weren’t at the bar, either. Sweat broke out on my forehead. I wiped it off using the back of my hand. I started looking around. At the smallest sign of a guy looking at me, I’d keep my head down. I looked back at the bar once more, to check if they had been there again, I might’ve missed them, due to my dilated pupils, that’s when I saw her.
There was this girl at the bar. She was talking to this very skinny, tall guy, who was wearing outrageously tight pants and shirt. She was wearing a white jean jacket and regular blue jeans. Her blond her was tied behind her head. Too cool to care. She was holding a bottle of beer. And, I don’t know if this was because I was staring at her, but she decided to look my way, and she too saw me.
I was kind of oblivious to what was happening. Had I been a little more sober, or had she been a little less perfect, I’d have been able to realize she was actually looking back at me, and, as I’ve done many times before, I’d have looked way. But that was not what happened.
I was kind of drunk. But that was not due to the booze. It was her. I know it was. And, suddenly, she was smiling at me. I then realized I had been smiling myself. Apparently unconsciously. And I finally turned my back on her.
My heart was pounding. I was breathing real fast. What was I doing? Staring at the girl as if she’d been a painting or a TV screen. What a movie that was! But then it hit me. She was looking right back at me. She was smiling. I turned around again. She wasn’t there anymore. I started looking for her, on tiptoe, above everybody’s head. I barely missed her. I’m not very tall. I’m kind of short, actually. She was going towards the exit. Great, I thought, I just blew it before it even happened.
I can’t tell you how exactly this happened, but I was suddenly following her.
I thought she was leaving and I wanted to get another chance. I wanted to look at her again. I wanted to find out if she was really smiling at me. She turned right before getting to the door and entered the restroom. The guy who’d been talking to her stopped there, holding her beer.
I was relieved. She was not leaving. But there was another problem. Who the fuck was that guy? Was he really gay, a gay friend, her image consultant? Or maybe he wasn’t gay. Maybe he looked gay because he found it attracted women. Maybe they were an item. I had to find out.
I know that this wasn’t the smartest move of the night.
I just came up to him and asked, “Excuse me, are you gay?”
“Hell yeah!” was his answer and he grabbed me by the neck and pulled me. I’m a pretty agile man and I could duck before his lips even got close to my face.
“Sorry. I didn’t mean it like that. I just... I...”
He looked a little upset. He crossed his arms and looked grumpy.
“Look, man,” I continued, “I’m really sorry. It’s just that...”
“I know what you’re gonna say.”
“You do?”
“Course, I do, love. I saw you staring at my girlfriend.”
At that moment she came out of the restroom. He turned to her.
“Judy, let me introduce you to a friend of mine. Your name, darling.” He was looking at me seemingly bored.
“Jim... uh... Jimmy... hi.”
“Hi.”
“Well, you two have a good time," said her friend as he walked away towards the dance floor.
We were there. Looking at each other. For a moment, everything else ceased to be.

26.9.08

Crônica: a arte da digressão

Uma crônica bem escrita é uma delícia. O escritor te tira do seu mundo por um instante (muitas vezes pra te jogar de volta nele). A crônica te faz parar um pouquinho. É muito parecido com dar uma paradinha pra tomar um copo de café quentinho ou fumar um cigarro (quem fuma sabe do que eu tô falando).
E o mais interessante da crônica bem escrita é que ela não precisa ser sobre nenhum assunto específico. Muitas vezes, é difícil precisar sobre o que o texto se trata. Parece uma ode à escrita por si só.
Tem uma do Vinícius na qual ele fala da agonia do cronista de ter que escrever na última hora, por que, segundo ele, normalmente o cronista deixa pra começar a trabalhar no texto sempre na última hora. E ele diz que o bom cronista se enfrenta nessa situação. É o desafio maior, a pressão, o eustresse. Se eu tenho uma semana pra entregar um texto, e começar a trabalhar nele imediatamente, vai ser fácil demais (pra um bom cronista como era o Vinícius, né?). Mas se, ao invés disso, eu deixar pra escrever no último dia, a coisa muda de figura. Eu não posso mais pensar: "Ah, mais tarde eu começo." Por que mais tarde eu tenho que entregar a crônica pronta. E ele fala da agonia do editor que está esperando a crônica pra encerrar o jornal. O cronista nessa hora, invariavelmente, entra em contato com a sensação eminente de perder o emprego. E essa sensação, no caso do Vinícius, parecia ser a fonte de inspiração maior. E aí ele diz que começava a olhar pros lados pra achar alguma coisa sobre a qual escrever. Ele cita a cadeira. Poderia ser qualquer outro objeto, no entanto. Qualquer coisa que encontrasse o olhar do cronista.
E lendo essa crônica dele, pensando também em outras lidas de outros cronistas mais disciplinados, eu percebi um traço muito recorrente nesse tipo de texto: a tal da digressão.
O cara começa a escrever sobre uma coisa, muitas vezes só pra começar e no meio do caminho já te levou pra outro lugar. E acho que isso é o que torna a crônica uma delícia de leitura. É o mesmo que acontece quando se senta com um grupo de amigos pra bater papo.
Não existe linearidade alguma em conversa entre amigos. A não ser quando existe uma questão muito séria a ser tratada, é claro. Mas em geral é assim. A galera senta à mesa do bar, pede uma cerveja e o cardápio e começa a falar do trabalho. Aí tem a menina que sempre levanta a pelota sobre o que a fulana tava usando. O cara então, já solta uma piada machistinha pra alfinetar. E alguém de repente acha um tira-gosto no cardápio que parece interessante. E aquilo lembra um quarto elemento presente da comida que a vó dele fazia. E, de repente, o grupo está dividindo reminescências da infância. No fim da noite, paga-se a conta e cada um vai pra sua casa. Estão todos felizes, leves, prontos pro que der e vier no dia seguinte.
A digressão em textos mais formais, como ensaios ou dissertações, é mal vista. Mas é que ali há um foco, há uma tese a ser comprovada. E a digressão te tira da rota.
Então, na cabeça do bicho homem, há a necessidade das duas situações. É preciso ter textos sérios, como conversas sérias, em que decisões são tomadas baseadas em estudo, em teorias. É preciso também ter o texto leve, a conversa de bar, sem rumo, sem pretensões.
Outra forma de ver a digressão sendo usada com maestria é na tal da stand-up comedy. O cara sobe no palco, agarra o microfone e começa a conversar com a platéia. Não existe uma linearidade naquela conversa. O charme está justamente nessa falta de linearidade. Um assunto puxa outro sem critério. Pode ser por conexão de sentido, por similaridade sonora, não importa.
A crônica, a stand-up comedy e a conversa de bar funcionam como o pensamento. Aquele fluxo incessante de idéias, muitas vezes desconexas, que vão te levando do Nepal ao Chuí.
E por ser uma espécie de imitação de um ato inerente ao ser humano, acho que todo mundo, vez ou outra, deveria tentar escrever uma crônica. No mínimo, você vai melhorar sua habilidade lingüística. E quem sabe você não descobre que tem o dom de digredir do Vinícius.

14.9.08

Navio Tumbeiro
Capítulo X - Final

A mulher não sentia mais nada. Estava sentada recostada à parede com a menina no colo. Todos ali pareciam dormir e, embora seus olhos não estivessem fechados, ela também não parecia estar acordada. Seus olhos fixos mal piscavam vez ou outra. Sua respiração era lenta e superficial. Seus braços contornavam o corpo da menina, mas ela não fazia força alguma. Seu corpo todo, cada músculo, tudo completamente abandonado à força da gravidade e ao balanço constante daquele lugar.
Ela se moveu.
Muito lentamente colocou a menina no chão. Olhou-a mais uma vez e beijou-lhe a testa. Levantou-se novamente e caminhou até o príncipe. Ele também dormia. Seu corpo contorcido, suas mãos amarradas acima da cabeça, as feridas, os cortes. Ele não era mais um ser humano. Ninguém ali era.
A mulher olhou para a mancha negra no pé da escada. Lembrou-se do gigante tombado, seu sangue lavando o assoalho imundo. Lembrou-se também do velho carregado escada acima como um saco de lixo. Lembrou-se da morta e da irmã da morta. Lembrou-se do seu marido.
Olhou para a escada e dirigiu-se até ali. Muito lentamente subiu degrau a degrau. Chegou no alto da escada. Respirou fundo. Olhou para baixo e viu o escuro.
Começou então a esmurrar a porta à sua frente. E gritava, e amaldiçoava aqueles homens. Seus companheiros de viagem e de amarguras iam acordando com o barulho. Todos foram se aproximando da escada. Tentavam entender o que estava acontecendo, mas ninguém tentava conter a mulher.
De repente, a porta se abriu. O homem com o instrumento que cuspia fumaça estava ali. Ele e a mulher se encararam por um longo período. Um olhava dentro da alma do outro. Nenhum deles enxergava nada. A mulher deu mais um grito e se jogou em cima daquele homem, mordendo-o no rosto. Ouviu-se um estrondo e todos se uniram a ela, subindo as escadas, gritando, urrando. Não eram homens. Eram bestas.

5.9.08

Arriscado

Fico aqui imaginando
Por que você não me vê
Se me vê, por que não segura o olhar?

Não sei se posso te dar
Aquilo com o que sonha
Pois não me diz

Talvez, no entanto, sonhe
Dentro de seus tantos sonhos
Também com o que quero te dar
O perigo de viver um grande amor

1.9.08

Acomodada

Em versos te redimo
Daqueles que te criticam
Dizendo que você não ama
Que vive comigo
Por outras razões
Preguiça, vaidade, interesse

Razões... não há razão!
Há no seu peito muito mais coração
Do que na voz estridente que te aponta o dedo
Não enxergam a beleza do seu amor
Latente na capacidade de receber o meu
Navio Tumbeiro
Capítulo IX

Uma demonstração do que eles seriam capazes de fazer. O príncipe ainda estava de pé, mas não sobre as próprias pernas. As amarras que prendiam seus pulsos acima de sua cabeça impediam que seu corpo desabasse de vez. No lugar das lágrimas de antes, agora a única coisa que escorria pelo seu rosto magro e pela barba mal aparada era a cor vermelha de seu sangue. Seu olho esquerdo estava muito inchado.
Os homens subiram a escada e a porta os trancou do lado de fora. Algumas pessoas começavam a se movimentar. Uns iam para perto do enorme corpo sobre a poça de sangue. Outros iam até o príncipe e o olhavam espantados, levando a mão à boca e murmurando baixinho uns para os outros.
A menina chorava baixinho num canto. A mulher foi até junto dela e a abraçou. As duas choravam juntas. Um choro de menina e um choro de mulher.
A porta do alto da escada se abriu novamente. Colocaram um balde daquela papa branca no topo e o chutaram escada abaixo. A papa foi se espalhando pelos degraus sujos. Colocaram também um único balde com água lá no alto, mas não o chutaram. Em seguida, fecharam a porta mais uma vez.
A menina ainda chorava, mas a mulher a colocou no chão. Beijou seus olhos e pediu que não os abrisse. Levantou-se enxugando as próprias lágrimas e foi até o príncipe. Se deteve a alguns metros, como os outros faziam. Não conseguia dizer se ele estava apenas desacordado ou se também havia... Respirou fundo e chegou mais perto. O chamou. Ele não se moveu. Ela se aproximou um pouco mais e percebeu o peito do homem se mover lentamente. Mais uma lágrima escapulia do olho esquerdo da mulher.
Ela então subiu a escada correndo e trouxe o balde d'água para baixo. Rasgou um pedaço dos farrapos que suas vestes tinham se tornado e o umedeceu. Levou-o até a testa do príncipe e começou a limpá-lo. Passava com muito cuidado aquele pedacinho de pano úmido que rapidamente se tingia de vermelho e a obrigava a molhá-lo novamente no balde. Torcia-o e continuava a limpar o rosto do príncipe. Os olhos do homem se abriram lentamente. Ele olhava para ela. Ela interrompeu seu trabalho. O olhou de volta.
Ele abriu a boca muito lentamente e ela pode perceber que um de seus dentes da frente não estava mais lá. Ele disse com muita dificuldade que sabia quem ela era e que conhecera seu marido. Então acrescentou, entre esforços, que ele havia sido morto.
A mulher caiu a seus pés chorando.

30.8.08

Do Lado de Dentro

Ele entrou e a porta se fechou selando-o dentro daquele habitáculo. Olhou em volta. As paredes pareciam ser revestidas em fórmica bege. Nos cantos, 4 réguas de alumínio subiam do chão, revestido por 6 grandes placas de borracha negra, até o teto, onde se encontravam a uma armação quadrada, também de alumínio, que encerrava uma placa de acrílico branco responsável pela iluminação, ao deixar-se atravessar pela luz, branca e fria, emanada de quatro lâmpadas fluorescentes posicionadas acima.
Na mesma parede onde havia a abertura para a porta, um painel de alumínio cheio de botões e números. No canto oposto ao do painel, no alto, uma pequena redoma de vidro negro abria caminho pela placa de acrílico do teto para observar quem estivesse ali.
Apertou um dos botões. Sentiu um momentâneo aumento de peso e percebeu que começava a subir. No painel de alumínio, um pequeno visor negro com letras vermelhas começava a contar, 1, 2, 3. Sentiu uma sacudidela e percebeu que havia parado.
Olhou para o visor. Olhou para a pequena redoma de vidro no teto. Decidiu assobiar. E quase no mesmo segundo parou. Resolveu escutar. Seus olhos estavam abertos. Não ouvia nada. Não ouvia vozes ou qualquer outro barulho. Voltou a assobiar. Não assobiava música alguma. Apenas assobiava. Se impacientou. Parou de assobiar novamente e deu um passo para perto da porta. Não ouviu nada. Apertou novamente o mesmo botão que havia apertado antes. Nada aconteceu. Então apertou um grande botão vermelho que se encontrava na parte inferior do painel. Enquanto deteve o dedo sobre o botão vermelho, ouviu soar uma campainha estridente. Retornou à posição inicial e cruzou os braços na altura da pélvis segurando o pulso direito com a mão esquerda. Voltou a assobiar. Agora assobiava uma bossa nova. Nada aconteceu. Chegou perto da porta mais uma vez. Pressionou mais uma vez o botão vermelho. E outra e mais outra. Deu uns tapinhas na porta enquanto perguntava em voz alta se alguém podia ouví-lo. Nenhuma resposta. Começou então a esmurrar a porta. Na verdade, se revezava entre socos, chutes, e novas pressões sobre o botão vermelho. Se cansou. Sentia sua camisa grudando no corpo e sua respiração estava ofegante. Parou. Pôs as mãos na cintura e depois levou o pulso direito à testa para deter gotas de suor que começavam a se reunir sobre as sobrancelhas. Gritou mais uma vez. Agora gritava a palavra socorro sem nenhum embaraço. Resolveu sentar no chão. Lembrou-se do celular no bolso. Tateou com a mão esquerda e pescou o pequeno aparelho. Para sua decepção o pequeno visor do aparelho mostrava que ele estava fora de cobertura. Arremessou o celular contra a porta e gritou um palavrão. O aparelhinho se desfez em pedaços. Enquanto observava os restos do celular espalhados sobre o assoalho de borracha, a porta se abriu.
Uma senhora com rolinhos no cabelo e óculos na ponta do nariz o censurava com o olhar. Ele se levantou, ainda pensou em catar os caquinhos, mas de nada adiantaria e ele já se sentia embaraçado demais. A mulher entrou no elevador, medindo o rapaz de cima a baixo. Ele pediu desculpas pelo barulho e tentou explicar que o elevador provavelmente precisava de reparos. A mulher soltou ar pelas ventas e entrou no pequeno meio de transporte. Ele ficou lá, observando, vendo a porta se fechar. Percebeu pelo mostrador acima da porta os números irem diminuindo 3, 2, 1, T. Resolveu subir os 5 andares restantes pela escada.

29.8.08

Paixão do Metrô

Menina, não se assuste
Se eu, em desvario,

Que nunca te vi
Nem sei o seu nome
Não sei de onde vem
Nem me disponho a te seguir

Mas doido e trêmulo
Me atiro a seus pés
Te dedico um poema
E sorrindo te proponho:

"Casa hoje comigo?"

26.8.08

A Boca Cheia de Conselhos

Da próxima vez que eu tiver um conselho
Vou avaliá-lo com muito cuidado
Vou medir, pesar, pensar
Se o conselho for bom
Vou te dar

Mas antes de dizer pra você
Vou pra frente do espelho
Olhar bem no fundo nos meus olhos
E dizer o conselho primeiro pra mim
Vou ouvir

É provável que eu precise mais dele do que você

23.8.08

An Outline

One day I'll lie on the ground
I'll hand you a piece of crayon
I'll let you draw a line
All around my body
I'll let you choose the color
I'll just lie there
And wait till you're done
Yeah, I'll let you define me
Because I've been trying so fucking hard
But don't seem to be getting anywhere
So I'll let you do it for me
Because I trust you
Always have
Always will

But I know you won't do it
You're too busy now
Furthermore,
You'd say that ain't right
You'd even help me
Pick a beautiful color
Green, or perhaps orange
But then you'd smile
(And when you do it, it's unique)
And you'd say:
"Who are you? What are you?
Define yourself!"
I don't know right now
I hope I'll know then
When you hand me the crayon
In fact, I hope I'm able to do it myself
Because I know it's too late now
You've already dropped that piece of crayon
You did it a long time ago

20.8.08

Navio Tumbeiro
Capítulo VIII

Gritos e um estrondo. A menina chorava em seu colo enquanto a mulher a apertava com ambas as mãos e seus olhos percorriam todo o ambiente, captando tudo, tentando compreender o que acontecia. Todos estavam encolhidos no mesmo canto. Alguns se escondiam embaixo da escada. O príncipe segurava o rapaz dos baldes à frente de seu próprio corpo com a ajuda de seu sempre fiel companheiro. O príncipe tinha uma faca em sua mão direita. Apertava-a contra a garganta do rapaz dos baldes enquanto olhava em direção à escada. Do alto da escada, o mesmo homem branco de antes, o que carregava aquele instrumento pesado, fitava o príncipe. Ele segurava o mesmo objeto de antes, mas agora segurava-o com as duas mãos. A mão direita próxima ao corpo. A mão esquerda à frente, acompanhando o comprimento do objeto. A ponta do instrumento soprava fumaça e estava apontada na direção do príncipe. O homem branco dizia alguma coisa para o príncipe. Outros homens brancos estavam no alto da escada, mas nenhum deles ia além do limite das costas do primeiro. Permaneciam às suas costas, observando por cima de seu ombro o que acontecia. Apenas aguardavam. E ele permanecia lá, no alto da escada, imóvel, segurando aquele objeto que cuspia fumaça. O rapaz dos baldes agora tentava conversar com o príncipe. Gaguejava. Implorava por sua vida. Dizia que era como ele, e apenas servia os brancos para não apanhar. Dizia que de nada adiantaria matá-lo.
A mulher colocou a menina no chão e se levantou. Ninguém disse nada. O príncipe, seu companheiro, o rapaz dos baldes, o homem branco, os homens às suas costas, a menina, os outros homens, as outras mulheres, ninguém se movia. A mulher começou a caminhar lentamente em direção ao príncipe. Ele disse a ela que não se aproximasse mais. O homem branco gritou alguma coisa do alto da escada. Mas todos mantinham as mesmas posições. Ela se aproximou mais um pouco e parou. Andava nas pontas dos pés. Não sabia por que mas não queria fazer nenhum ruído. Prendeu a respiração e virou-se para o homem branco. Ele agora apontava o instrumento para ela. Ela observava a fumaça, que agora ia se dissipando no ar. De repente, a mulher sentiu um empurrão. Era jogada ao chão pelo companheiro do príncipe. Ouviu-se outro estrondo. O companheiro do príncipe estancou na base da escada. Passou a mão no peito e depois levou-a à frente do rosto para vê-la pintada com seu sangue. Seu rosto não aparentava dor. Todos os músculos de seu rosto pareciam ter se relaxado ao mesmo tempo. Até sua boca estava entreaberta. Levantou a cabeça lentamente em direção ao homem branco. O instrumento agora produzia mais fumaça e apontava para aquele homem que parecia ter adormecido em pé de olhos abertos na base da escada. Ele se virou para o príncipe com o mesmo rosto sem expressão e a boca entreaberta. O que contrastava com a face do príncipe. Suas sobrancelhas estavam apertadas. Seus dentes se atritavam e ele apertava com mais força o rapaz dos baldes. E assim, sem emitir nenhum som, sem dizer nada, o homem tombou sobre o próprio peito. Uma poça de sangue começava a se formar embaixo daquele corpo enorme e estático. O príncipe, de súbito, largou o rapaz dos baldes e a faca e ajoelhou-se chorando ao lado daquele corpanzil. O homem branco e seus companheiros desceram correndo as escadas. Agarraram o príncipe e o amarraram a uma pilastra. Ele não lutava, não se debatia. Amarraram-no com as mãos presas acima da cabeça e começaram a açoitá-lo. Uns davam pontapés entre as pernas. Outros, socos no rosto. E iam se revezando. O príncipe apenas chorava. Mas não eram os golpes que despertavam suas lágrimas.

14.8.08

Navio Tumbeiro
Capítulo VII

A mulher acordou. Estava escuro. Só se ouvia um ruído suave, compassado, de água em movimento, e um ranger leve e lento de madeira com madeira. Na medida em que seus olhos iam se adaptando à pouca luz, ela ia percebendo a silhueta do príncipe ainda em pé por trás da escada. Seu companheiro também estava lá.
A mulher não conseguiu voltar a dormir. A cada ruído vindo da porta ou das frestas no teto, seus olhos se abriam novamente. Ela sentia sua respiração acelerar com o ritmo das pulsações de seu coração. Olhava para a menina e pensava onde poderia escondê-la caso algo acontecesse. Não via nada. Começou a pedir aos santos que conhecia que protegessem aquela criança pelo menos. Lembrou-se de seu marido. E lembrou-se da mulher morta e da irmã da morta.
E era para ela que a mulher olhava agora. Uma mulher viva, mas sem vida. Seus olhos continuavam olhando o nada. Mas seus braços não mais abraçavam as pernas. Seu corpo não se balançava. Ela estava sentada com as costas apoiadas na parede. As pálpebras pareciam querer se fechar, mas não se fechavam. Apenas abaixavam-se levemente, num piscar de olhos cansado e lento, vez ou outra. Seu peito quase não se movia. Era difícil dizer se ela respirava. Durante aqueles poucos instantes, a mulher sentia exatamente o que a irmã da morta sentia -- ou talvez não sentia --, o que a fazia simplesmente não reagir, um estado de dormência da alma. Naquele breve momento, as duas mulheres eram uma só, dentro da mesma sensação de impotência, de indiferença, torpor.
De repente, a menina disse alguma coisa. A mulher se assustou. Virou-se para a pequena. Esqueceu-se da irmã da morta. Mas a menina ainda dormia. Havia murmurado algo nos seus sonhos. Sonhos certamente melhores do que a realidade a aguardando na aurora. Melhor seria não acordar mais. Nunca mais.
Voltou-se na direção da irmã da morta mais uma vez. Seus olhos não estavam mais abertos. Talvez sonhasse também.