27.3.08

Feliz Dia Novo

A vida passa mesmo assim
A gente passa pela vida
Se trombando, se batendo, se esbarrando
Se encontrando e se perdendo
Conhece gente nova e gente boa
Gente nova, gente à toa
Reencontra velhas caras
Recorta velhas aparas
E tudo passa
E tudo muda
Ou quase tudo
Joga fora o velho
Deixa o novo entrar
Todo dia é Reveillon

24.3.08

It ain’t gonna rain tomorrow

I see you looking out the window
The blues is on your face now
Watching the gray skies
Plumb clouds blocking your way

I tried to talk to you
You seem distant, just not there
Focused on something dark
Not even notice I’m around
It’s about time you get past that

Just get through it and get it out of your chest
After the rain there’s a rainbow
Cool winds to ease up your sorrow
Just remember, girl
It ain’t gonna rain tomorrow
It ain’t gonna be as dark
The sun is gonna shine again
I can promise you that

Rain drops rolling down the window
Tear drops rolling down your cheeks
But we’ll always have tomorrow
And it’s waiting for you just past midnight

Your mind is as clouded as the sky
There’s no more faith in your heart
The laughter we shared has died away
Yet I say, tomorrow is gonna be another day
Não tenho tido muito tempo para escrever. Escolhas que a gente faz na vida.
Então vou pedir ajuda ao meu grande amigo Greg para preencher esse blog com um belíssimo soneto. Vai daí, Greg!

A Instabilidade das Cousas do Mundo (Gregório de Matos)

Nasce o sol, e não dura mais que um dia
depois da Luz, se segue a noite escura,
em tristes sombras morre a formosura,
em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol, e na luz falta a firmeza,
na formosura não se dê constância,
e na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
e tem qualquer dos bens por natureza
a firmeza somente na inconstância.

Focker out!

29.2.08

Awakening

I had a dream

She was there
Walking right past me
I couldn't see her

The river went on
Never leaving its course
Until that day

Life was turmoil
Everything was falling apart

That was called for
I needed to get to know myself

I opened my eyes
The light hurt me
For a while
I finally could see

And I saw the planet
And the trees
And the birds
And I felt the wind
Caressing my skin

There were people around me
Talking, walking, living
And I finally realized:
"I can..."

That's when I finally saw her
Really saw her
People talked about her
All the time
But I saw her

And I was awake

28.2.08

Versos Escatologicamente Fáceis

Me saem os versos fáceis
Pulam para fora de mim
Como se meus dedos
Não tivessem força para contê-los

Digo que vomito versos
Mas não é uma boa metáfora
Embora, muitas vezes,
Os versos sejam como o vômito:
Mal cheiroso, amarelo, asqueroso

Mas o vômito, não
O vômito me sai com dificuldade
Faz doer as entranhas
De modo que não comparo
Nem crio metáforas
Ou uso qualquer outra figura

Mas eis que surge uma figura
Para bater de frente com a estrofe anterior:
O peido

Sim, meus versos são como o peido
Que escapole, se furta, se esvai
Provocando incômodo
O peido só é bem vindo na solidão
Aí então peida-se à vontade
Como se soltam os versos

Mas não são tão importunos
Os versos

Então decido de vez
Não uso figuras
Apenas digo
Versos fáceis
Fáceis de escrever
Fáceis de ler
Fáceis de lembrar
Fáceis de gostar e de detestar

27.2.08

Bonanza da Insatisfação

Estava sentado no sofá. Avaliava sua vida. Pensava na casa, na esposa, nos filhos. Olhava para a janela e pensou, sou um infeliz. Tinha tudo e não tinha nada.
De repente a janela começou a se abrir. Sentiu que seu corpo era puxado, como que por um vento, em direção à ela. De entreaberta a janela passou a se arreganhar. Agora sentia realmente que seu corpo era sugado para fora através da janela. Olhava em volta e percebia que todos os móveis e a TV continuavam lá, parados, enquanto ele já procurava algo em que se agarrar. A força da sucção aumentou. Percebeu nesse momento que sucção não era a melhor palavra para descrever o que ocorria. Estava sendo expulso de sua casa por uma força desconhecida, talvez magia negra.
Caiu do sofá. Seu corpo batendo pesadamente contra o chão e escorregando, escorrendo em direção à janela como se a sala estivesse tombando tal qual um navio em alto mar. Se agarrou ao sofá, mas a força estranha o puxava ainda mais forte agora. Sentiu seu peso diminuir e percebeu que a gravidade já não mais era suficiente para mantê-lo ali. Não conseguiu mais se segurar e, num estouro, foi cuspido para fora da sala, fora da casa, fora da sua própria vida.
Abriu os olhos. As luzes do quarto estavam apagadas. Sua mulher ressonava ao seu lado enquanto sentia a camisa do pijama grudada à pele pelo suor.
Melhor voltar a dormir, pensou, amanhã é segunda-feira.

24.2.08

Sou um elástico velho de várias pontas. Me estiquei em todas as direções. Tanto estiquei que perdi a elasticidade. Fiquei bambo. Minhas pontas soltas, sem força pra se recolherem de volta.
Sou uma ameba que lançou seus pseudópodes em tantas direções e com tanta força que não consegue mais fagocitar nada.
Uma caravela com muitos mastros, mas cada um aponta prum lado no meio de uma tempestade. Caravela despedaçada.
Um girassol em uma galáxia cheia de sóis. Cada pétala quer puxar a corola em uma direção.
Um rio correndo ao mesmo tempo para o Índico e para o Pacífico.

20.2.08

Forte

Olho pro teto. O sono chega devagar. Estou inconsciente. Sei disso pois vejo seu rosto sorrindo. Minhas mãos deslizam pelo seu corpo, subindo da cintura, acariciando seus seios e, finalmente, chegam até o pescoço. Você continua sorrindo. Minhas mãos envolvem seu pescoço fino.
Começo a apertar. Cada vez mais forte. Você se debate, mas meu peso te subjuga. Percebo que seus lábios começam a ganhar uma coloração púrpura. Sua pele perde o rosado. Está pálida. De repente, não se move mais.
Acordo. Vou pro trabalho. Aquele sonho me perturba. Mesmo morta, ainda me domina.

14.2.08

Maria estava preocupada com seu amigo, Antônio. Ele não parecia muito bem. Andava calado, amuado. Resolveu ligar pra ele.
- E aí, como é que cê tá?
Um suspiro do outro lado. E ele disse:
- O que dizer nessa noite tranqüila? - mais um suspiro. - Talvez que ela esteja tranqüila até demais pro meu gosto. Faz falta ter aquela pessoa do seu lado. Dividir o frio e o calor. Aí, dá uma melancolia gostosa. Dá uma vontade de Me perder naqueles pensamentos. Até percebermos que são só pensamentos. Depois a gente volta e vê que a realidade não tá nada mal, se melhorar estraga. Pelo menos até amanhã, ou depois, ou depois, ou depois...

13.2.08

2U's

Abri os olhos
He was there
Não via seu rosto
He'd turned his back on me

Gritei por ele:
"Quem é você?!
Me mostre seu rosto!!"
Nem um movimento
Only his voice:
"Who I am is irrelevant,
For you know me too well.
Yet, if I showed you my face
You'd probably die in pain."

Me levantei
And attacked him.
Mas ele sabia o que eu ia fazer
Before I could even think
Antes que eu fizesse qualquer coisa
And he assalted me with his elbows
E coices certeiros, castigando
My nose, my ribs, and my sack

Desisti, me sentei
I was panting and
olhando em volta
I saw a farmer's tool:
Uma foice!

I jumped at it and
De um golpe só
Cut off his head

Abri os olhos
The mirror or
O que sobrou dele
Shards of glass
No chão, me refletindo
My hands, my face, my life

10.2.08

Cada Um Com Seus Problemas

Sentou-se na mesa do café e acendeu um cigarro. Olhou em volta e viu um casal de homens trocando juras de amor. Pensou, se eu fosse gay, minha vida seria tão mais fácil. Nesse momento seu celular tocou.
- Alô.
Do outro lado da linha a voz de Fabíola estava trêmula.
- Jaime, onde cê tá?
- Tô tomando um chopinho em um café. O que aconteceu? Cê tá chorando?
- Preciso muito de você agora. Me dá o endereço que vou praí.
Jaime passou o endereço do café e, antes de deixar Fabíola desligar, ainda perguntou:
- Tem certeza que cê tá bem pra dirigir?
- Tô. - disse ela com voz de criança que perdeu um brinquedo.
Assim que Jaime terminou o primeiro chope, percebeu que Fabíola estacionava o carro na rua do café. Ela desceu do carro estabanada, tresloucada, parecia meio perdida. Deixou cair a bolsa no chão. Se abaixou para pega-lá e antes de se levantar novamente, aproveitou para pegar um cigarro. Se levantou cambaleante. Os óculos escuros escondiam os olhos vermelhos de pranto. Acendeu o cigarro enquanto caminhava até a mesa onde Jaime estava sentado.
Jaime a observava e admirava o fato de que, mesmo estando em pedaços, como ela aparentava estar pelo telefone, ela conseguia ser linda. Ele sempre achara que a beleza, interior e exterior, de Fabíola seria o suficiente para encher um estádio de futebol. Quem não pagaria um ingresso para estar em sua presença? E ele, um privilegiado, tinha aquilo todos os dias, sem precisar pagar nada.
Jaime se levantou para abraçar Fabíola. Ela chorava baixinho.
- A Lívia terminou comigo. - ela disse baixinho em seu ouvido.
Ele tentou acalmá-la. A apoiou para que ela se sentasse à mesa. Sentou também.
- O que aconteceu? - Jaime perguntou.
- Não sei. Ela me pediu um tempo. Pelo telefone. Sem explicação.
Agora Fabíola se recompunha. Usava um guardanapo para limpar as lágrimas por baixo dos óculos escuros. E acrescentou olhando para Jaime:
- Ai, Jaime, minha vida seria tão mais fácil se eu não fosse gay.

31.1.08

Subitamente

Faltavam poucas estações. Henrique havia se sentado no penúltimo vagão. Sabia que, quando o metrô parasse, aquele carro seria o mais próximo da escada e aguardava tranqüilamente quando o trem chegou à Estação Trianon-Masp. Foi quando ela entrou.
Henrique sentia o mundo à sua volta perder o sentido, se derreter. A única coisa no mundo, naquele momento, era ela. Ela se sentou em um assento em frente ao de Henrique. E ela também o olhou. A princípio ele nem percebera que ela o encarava de volta e quando o fez, desviou o olhar. Meu Deus! pensava, não consigo parar de olhar.
Não resistiu e voltou a olhar. Ela também ainda o fitava. Sorriram e ela se levantou quando o metrô parou novamente. Henrique entrou em um tipo de desespero interno. Por dentro, estava se debatendo, queria pedir para ela ficar, ou ir com ela, agarrá-la pelo braço! Por fora, mantinha a compostura, apenas a observava, mas se levantou também. E foi aí que percebeu que ela carregava uma pasta. Ela já estava fora do vagão, e ele se aproximou da porta para conseguir ler o que estava escrito na pasta: o nome e o telefone de uma firma de advocacia. Antes que a porta se fechasse, ele gritou para ela, que já se aproximava das escadas:
- Seu nome!
E ela respondeu:
- Daniela!

29.1.08

Carnaval

Era sexta-feira. Enquanto metade da população paulistana arrumava as malas para descer para a praia, Cristina limpava os pés no capacho antes de procurar a chave na bolsa. Chovia muito. Era difícil equilibrar o guarda-chuva na mesma mão em que segurava a bolsa enquanto a vasculhava. Enfim, entrou em sua casa. Sua mãe dormia no sofá. A televisão estava ligada. Com muito cuidado acordou Dona Júlia.
- Mãe, vamos dormir na cama.
E foi conduzindo sua mãe até a cama. Depois de certificar-se que a janela do quarto de Dona Júlia estava fechada, voltou para a sala. Havia largado o guarda-chuva perto da porta e uma pequena poça se formara. Levou o guarda-chuva até a cozinha e pegou um pano de chão no armário para limpar a água na entrada da sala.
Depois de colocar o pano de chão dentro do tanque, voltou para a sala. Na televisão, dois comentaristas discutiam quem seria a escola campeã daquele ano: Mangueira ou Beija-Flor. Desligou-a e foi para seu quarto. Tirou os sapatos e o casaco. Como pode estar frio nessa época do ano? pensava. Sentou-se em frente ao computador e foi checar sua caixa de email. Vazia. Não conseguiu conter uma lágrima furtiva que escapou de seu olho esquerdo. Secou-a com a manga da blusa e deu uma olhadela em direção à porta do quarto, só para checar se sua mãe não estava mesmo por perto, e caiu em prantos. Sentia-se só aos 34 anos. Tinha poucas amigas com as quais quase nunca se encontrava. Precisava ficar com sua mãe.
Desligou o computador, colocou sua camisola e foi dormir.
Cristina havia se apaixonado uma vez. Noivara. Mas levara um duro golpe que a deixara seca, amarga, sem amor. E, mais do que isso, deixara-a com medo.
Ela conhecera Adalberto em seu primeiro emprego, logo que se formara em administração de empresas. Adalberto gostava de tudo que ela fazia. Queria ouvir tudo o que ela tinha a dizer. Não se cansava de fazer amor com ela. Depois de 6 anos de namoro, finalmente pedira sua mão em casamento e houve o primeiro e único conflito. Ele não aceitara muito bem o fato de que a sogra teria que viver com eles. Dizia que não se sentiria à vontade. Cristina insistia. Sua mãe precisava dela, afinal, Cristina era sua única filha.
Depois dessa primeira discussão, as coisas começaram a esfriar. Adalberto já não telefonava mais todos os dias e, praticamente, só se encontravam aos domingos, quando Cristina ia até a casa dele para assistir um filme ou transar. Mas nem isso acontecia mais com tanta freqüência. Não conseguiam mais encontrar um filme que agradasse aos dois. Transar era frustrante. Adalberto jogava seu corpo sobre o de Cristina e se retirava em menos de 2 minutos. Cristina queria conversar e ele reclamava. Teria que levantar cedo para trabalhar. Antes de adormecer, pedia que ela trancasse a porta ao sair.
Um dia Cristina recebeu um email de Adalberto. Ele dizia que havia se apaixonado por outra e que ela não precisava devolver a aliança. E Cristina desistira. Se o grande amor de sua vida não aceitava sua mãe, ninguém mais o faria.
E todas as noites eram iguais desde então. Cristina chegava em casa e levava sua mãe para o quarto. Abria sua caixa de email para perceber que estava sempre vazia e ia dormir. Às vezes chorava, principalmente no dia dos namorados.
No sábado Cristina acordou com o sol batendo em seu rosto. Estranhou. Não sentia o cheiro do café preparado por sua mãe todas as manhãs. Levantou-se devagar, se espreguiçando.
- Mãe? - chamou de seu quarto.
Não houve resposta. Se levantou e foi até o quarto de Dona Júlia. Encontrou um bilhete sobre o travesseiro.

Querida Cristina,
Desculpe por não ter tido coragem de te falar antes. Conheci um homem. Ele era casado, mas sua mulher faleceu essa semana e ele veio aqui hoje de manhã. Queria me levar para conhecer seu sítio. Não tenho mais idade para dizer não a ninguém. Volto na quarta-feira de cinzas.
Bom carnaval,
Mamãe

Ao terminar de ler o bilhete, Cristina não conseguia fechar sua boca. Se sentiu traída. Mas essa sensação foi rapidamente subsituída por outra: a de liberdade. Correu para o quarto e ligou o computador. Comprou a primeira passagem que encontrou para o Rio de Janeiro. Pagou uma fortuna e sabia que teria que pagar mais uma fábula de hospedagem, mas pensou, esse ano eu vejo a Mangueira entrar, nem que eu venda meu carro. Fez às malas e foi curtir o carnaval.

21.1.08

Lorena

Nome de cidade pequena
Rosto de princesa
Sorriso de fada

Seu cabelo dança ao vento
Suas mãos firmes no volante
Os olhos presos na estrada
Não percebem os meus
Te olhando, brilhando

Fala comigo e, aí sim,
Meus olhos se fartam
Da luz, tal qual a lua
Que também me hipnotiza
Me leva, me absorve

Hora de ir embora
As pessoas envolta
Desapareçam!
Eu quero captar só você
E levar comigo pra casa
Só o seu rosto
Só a sua voz
E o toque da sua mão

20.1.08

Um Beijo Roubado

Você insiste: não!
Seus olhos te traem
Sua boca te entrega

Meus braços contornam sua cintura
Puxo seu corpo pra junto do meu
Estamos pele com pele

Seu sorriso me pede
E eu te agarro forte
Te beijo, te tomo o ar

Sua língua na minha
Novos mundos, outras dimensões

17.1.08

Opostos

Júlio era do interior. Mariana morava na capital. Se conheceram no carnaval de Ouro Preto. Júlio estava indo para a casa onde estava hospedado e cruzou com Mariana descendo a ladeira. Estava muito cansado, mas a menina lhe chamou a atenção.
- Se eu fosse você voltava pra casa e ia dormir.
Ela parou e olhou para ele. Júlio havia sido tão espontâneo que ela se perguntou se já não o conhecia. Decidiu que não.
- Por que eu devo voltar pra casa?
- Por que eu estou indo dormir. Você não vai me achar lá embaixo.
Ela achou o cara meio pretensioso, mas pensou, que se dane, é carnaval. E o beijou.
Combinaram de se encontrar mais tarde. E o fizeram. Rodaram pelas ladeiras de mãos dadas, se beijaram encostados nos muros das igrejas, compraram artesanato juntos e no fim do carnaval trocaram emails. Bem, Júlio memorizou o email de Mariana já que nenhum nem o outro tinham canetas.
O carnaval acabou e voltaram cada um para o seu canto. Começaram a trocar emails diários. Mariana adicionou Júlio a sua lista de amigos no Orkut. Júlio adicionou Mariana a seus contatos no messenger. Passaram a bater papo todas as noites. Percebiam o quanto tinham em comum apesar de levarem vidas tão diferentes.
Júlio trabalhava na mercearia da família. Ia a pé para o trabalho e almoçava todo santo dia na casa da mãe, para onde também ia a pé. Quase nunca se lembrava de trancar o portão e gostava de andar a cavalo nos fins de semana.
Mariana trabalhava em uma firma de advocacia. Gastava 40 minutos para chegar até o trabalho de carro. Almoçava em um restaurante self-service e quando queria variar ia até o McDonald's. Andava sempre com o ar condicionado do carro ligado para poder fechar as janelas e se proteger da cidade. Gostava de ir ao cinema nos fins de semana.
Um dia Mariana convidou Júlio para passar o fim de semana em sua casa. Prometeu a ele que o levaria para conhecer a capital, os museus, os parques, os bares. Júlio topou.
Na primeira noite Júlio teve dificuldade para dormir. Mariana morava em um prédio alto no centro. O apartamento era bem pequeno. Fazia muito calor e o barulho que vinha da rua era intenso.
- Algum problema? - perguntou ela.
- Não. Só não tô acostumado com tanto barulho.
- Eu vou fechar a janela. É anti-ruído.
De fato, ao fechar a janela o barulho quase cessou. Talvez Mariana já estivesse acostumada por isso não havia pensado nisso antes. Mas Júlio ainda ouvia um barulhinho.
- O que é isso?
- O quê?
- Esse barulhinho. Será um grilo ou uma cigarra?
- Não. Acho que é a geladeira.
Riram e decidiram que não daria certo.

15.1.08

Homem de Areia

A duna parada. Tão grande e pesada. Imponente. Uma brisa leve. Um vento. Grãos que se movimentam. Se desgrudam do chão. Mais uma transformação. Grande ou pesado, nada é imutável.

Nem ninguém.

3.1.08

A Panela ou o Prazer

Ela estava sozinha em casa e decidiu fazer seu prato predileto: tutu de feijão. Se levantou do sofá e ainda hesitou. Pô, dá tanto trabalho. Mas resolveu que valia o esforço e rumou para a cozinha. Abriu a geladeira e viu primeiro a garrafa de coca. Encheu um copo. Estava meio sem gás, mas coca é coca. Deu uma goladinha feliz. Lembrou-se que havia feito feijão no domingo. Procurou o tupperware. Lá estava ele, o feijão, velhinho, perfeito para um tutuzinho.
Colocou a vasilhinha em cima da mesa e foi procurar os outros ingredientes: farinha para engrossar, uma salsinha, cebolinha e... não podia faltar uns pedacinhos de bacon.
Botou o feijão para cozinhar, colocou mais um bocadinho de água e deixou ferver. Pegou a estrela, velha ferramenta da cozinha mineira, e começou a esbagaçar os baguinhos.
E assim continuou acrescentando a farinha e os outros ingredientes, juntando também um pouquinho mais de tempero, de pimenta. Delícia, salivava.
Ficou pronto. Sentou à mesa e se fartou naquele banquete regando-o com coca. Depois do delicioso jantar, um cigarrinho e deitar em frente à televisão esperando o sono chegar.
No dia seguinte acordou e lembrou: a panela!
Foi até a cozinha e viu a panela seca, com os restos do tutu agarrado a ela, como um ex-amante que não pára de ligar.
O que tem que ser feito tem que ser feito. Catou a panela e colocou-a debaixo da torneira para amolecer o tutu. E esfregou e ariou e deixou tudo limpinho.
Muito trabalho? É, mas o sabor do tutu na noite anterior compensava tudo. E mal podia esperar para ter mais feijão de ontem na geladeira.
Sal e Água

Tem valor o pranto do amante? Tem sabor? O amante presente, mas sempre ausente e tão distante. Que lágrimas são essas?

Vai e chora. Derrama um rio. Eu rio. Cada gota é uma mentira. Os soluços, pura embriaguez. O seu peito não traz dor. Não traz afeto. Nem carinho. Não traz nada.

Poço vazio.
O Sonhador

O homem tinha um sonho. E sozinho ele sonhava. Só em seus sonhos soltos. Não se soltava. O sol se punha. Nada se somava. Até que, só, deu seu último suspiro. Fechou seus olhos. E sonhando se foi.

30.12.07

Só 7 Quilômetros

Não seria fácil levantar. Ângelo havia chegado às 4 da manhã. Como todo bêbado, estava otimista. Durmo 6 horinhas e levanto pra correr, havia pensado.
Acordou com o despertador e a cada apito, sua cabeça latejava. O aparelho tocou por quase um minuto até que Ângelo conseguisse alcançá-lo, se rastejando. Sua língua estava seca e grudenta. O gosto de sua boca era uma mistura de cigarro e saliva seca.
Com muita dificuldade abriu a gaveta do criado mudo e a vasculhou em busca de um Tylenol - colocado ali estrategicamente. Encontrou a cartelinha. Havia apenas 1 comprimido.
- Obrigado, Senhor!
Com mais dificuldade ainda se levantou. Estava só de cueca. Foi cambaleando, tropeçando, se escorando, até a cozinha. Segurava o comprimido com a mão fechada.
Abriu a geladeira e recebeu a primeira luz do dia. Seu apartamento havia sido planejado para ficar completamente escuro.
Na geladeira não havia muita coisa: 1 caixinha de leite, algumas frutas, 2 garrafinhas de água, algumas latas de cerveja e uma garrafinha de Gatorade.
Tacou o comprimido na boca e virou a garrafinha de isotônico. Enquanto o líquido descia gelado empurrando o comprimido esôfago abaixo, Ângelo pensava na noite anterior. Havia se divertido muito, bebido muito, dançado muito, fumado muito. Lembrava-se também de Natália. Conhecera a menina em um pub havia algumas semanas. Ela era linda: cabelos pretos e olhos de jabuticaba. Ela o impressionara com sua maturidade. Natália era 4 anos mais nova. Depois daquele dia haviam se encontrado algumas vezes e ela o havia convidado para um jantar entre amigos em sua casa. Ângelo congelara. Acabara de terminar um longo relacionamento e não pretendia se envolver tão rápido. Decidira então não ir ao jantar. Disse a ela que tinha um compromisso com a família, um aniversário, e que, infelizmente, não poderia ir.
Mas durante toda a noite, mesmo estando entre seus melhores amigos, só havia pensado nela. Pensava agora, cara, tá na hora de parar de fugir.
Nesse momento, o telefone tocou. Era Márcia, a amiga que o havia apresentado a Natália.
- Fala, Má.
- E aí? Como foi a balada ontem?
- Foi lôco.
- Pois é. Mas você dançou. A Natália beijou o Rodrigo, primo da Cláudia, ontem.
Pensou rápido. Não queria demonstrar a raiva que sentia.
- Ah...
- É. Mas ela disse que foi só um beijo. Que ele insistiu muito e acabou vencendo pelo cansaço.
- Sei.
- E aí?
- O quê?
- Não tá puto?
- Não , meu. Não temos nada um com o outro.
- Tá bom. Se esconde mesmo, meninão.
- Márcia, se liga. E deixa eu ir que eu vou correr.
- Tá certo. Vai lá. Beijo.
- Beijo.
Estava puto.
Abriu a persiana da sala esperando a luz do sol. O céu estava cor de chumbo. Abriu a janela e estendeu a mão para fora. Nenhuma gota, nenhuma desculpa: teria mesmo que correr. Vestiu-se e colocou o tênis. Antes de sair, checou o celular. Sem bateria. Conectou o aparelho na tomada e foi correr.
Sempre criava situações em sua mente para se incentivar a correr. Às vezes imaginava que receberia um prêmio milionário ao completar os 7 quilômetros. Outras vezes se via sendo recebido por uma multidão de fãs. E ainda havia ocasiões em que se imaginava desfilando em cima do carro do corpo de bombeiros. A música "Eye of The Tiger" também ajudava, mas só pensava nela no fim do trajeto.
Dessa vez, porém, não pensou em nada. Correu. Sentia suas pernas, cada passada, cada pisada, seu calcanhar pressionando a sola do tênis contra o asfalto. Percebia o peso de seus braços e o movimento de sua cabeça que pendia levemente para a direita devido a um pequeno desvio em sua coluna.
Ao concluir pouco mais da metade do percurso sentiu um pingo de chuva acertar sua cabeça. Pensou, tô fudido. Continuou correndo.
O pingo se transformou em chuvisco. O chuvisco rapidamente se convertou em um pé d'água. Não parou de correr.
Como toda chuva de verão, não durou muito. Mas Ângelo estava ensopado e continuou correndo até terminar os 7 quilômetros de sempre.
Chegou em casa e foi tirando a roupa. Planejava tomar um banho imediatamente, mas seu celular tocou.
Ao olhar no visor do aparelho o número que o chamava não era conhecido. Hesitou um pouco e acabou atendendo.
- Alô?
- Ângelo?
- Quem é?
- É a Natália.
Decidiu que não ia mais fugir. E nunca mais deixaria de correr.
O Corpo e A Mente

Ele sente
Ele vibra
Cada poro aberto
Cada pêlo enraizado

Ela planeja
Ela estuda
Cada neurônio ativo
Cada impulso controlado

Tudo se guia pelos sentidos
Dança, se movimenta
Leve e pesado
Não existe certo e errado

Tudo se guia pela razão
Administra, se detém
Forte e suave
Não existe certo no errado

No calor, se refresca
No frio, se aquece

Na necessidade, luta
Na riqueza, se poupa

Não faz contas
Sente até onde dá

Tudo no papel
Calcula até onde dá

"Quero ficar à toa
Deixo a vida me guiar"

"Quero ter o controle
Minha vida vou guiar"

"Não vivo sem dúvida
A graça do não saber"

"Não vivo sem certeza
O amanhã quero prever"

24.12.07

Desencaminho

Te reencontrar
Ontem ficou há não sei quanto tempo
Mas hoje ainda existe brasa
Assopro
Você me incendeia

Vivemos longe
Você aqui
E eu lá
E ainda tem mais

A cabeça nos segura
Nossos corpos quase se entregam
Alto lá!

Seus nós precisam ser desatados
Não há pressa
Nos descobrimos, redescobrimos
Na hora certa, tudo a seu tempo

21.12.07

Entra Em Mim

Seu olhar
Parece foi feito pra mim
E o meu nome
Soa tão bem na sua voz
Sou mais leve nos seus braços
Imensos abraços

O calor do seu corpo
Existe só pra me aquecer
E os seus pêlos, a sua pele
Te envolvem só pra me entorpecer

A sua boca
Os seus lábios e língua
Têm mais sabor na boca minha
Suas mãos e seus dedos
Que me exploram, me controlam

Nós dois juntos
Estou cansada e quero mais
Meu corpo molhado
Não é só transpiração
É inspiração

Por isso digo
Entra em mim
Entre gemidos
Entra em mim
Perco os sentidos
Entra em mim

Você é meu
E sua sou

20.12.07

Sujo

Unhas sujas
Tento escondê-las
São feias, grotescas
A poeira preta por baixo
Não quero revelá-las

Coloco as mãos no bolso
Cruzo os braços
Não há maneira
Elas acabam sempre aparecendo
E mostrando a sujeira que há em mim

19.12.07

Mais uma contribuição do meu querido André http://neuroghost.blogspot.com/:

Viajantes

Foste em viagem
E eu aqui permanecido
Como se tivesse ido…
Para dentro
E bem noto que o centro
De toda distância que se fez
Não é teu avião que partiu
Mas o "eu" mesmo que sumiu

Como se detalhasse os dias
A tua espera
Numa outra esfera
Também passada no estrangeiro
Este passageiro melancólico
Atônito, desatento de si
Exilado no país interior.

Foste embora por uns tempos
E eu aqui aos meus relentos
Mais distante de mim
Que tua distância do Brasil.


Distância

O amor é feito de distâncias
Vai longe quando perdido
Mas tão próximo se ampara
Quando vivido
Que nem distância permanece

Ausente
O apaixonado se esquece que um dia…
Um dia ele próprio existiu
Neste ponto então,
Só existe o amor sem distância
Entre ele…
E o corpo da amada.
Somos Comida

Não adianta
Pode passar creme
Fazer drenagem linfática
Passar a semana no SPA
Você sempre será o resto do que você foi um dia
Espero que você goste de "mexidão"

18.12.07

Terrorista Emocional

Lembro-me com carinho de cada uma das minhas 6 ex-mulheres. E lembro-me com muita clareza o que fez cada uma delas desistir de mim. A minha grande sorte sempre foi o meu charme inicial. Cativo sempre ao primeiro olhar, no primeiro bate-papo, no primeiro beijo, na primeira transa. O meu trunfo é a capacidade de me adaptar a cada uma delas. Porém, como disse alguém, o seu ponto forte é a sua fraqueza. E a minha é exatamente essa. Posso esmiuçar os detalhes de cada fim de relacionamento. Mas com certeza a minha inconstância (ou a minha adaptabilidade a novas situações) foi, certamente, ponto comum em todos os fins.
A primeira foi Priscila. Éramos muito jovens. Não éramos mais virgens, no entanto. Estávamos na faculdade. Acho que cursávamos o segundo ano. Acabávamos de descobrir o prazer do sexo livre e queríamos agora algo mais profundo. O fato de já sermos grandes amigos com certeza contribuiu para que acabássemos nos unindo nos laços nem tão sagrados assim do matrimônio. Sempre acreditamos, e, realmente, ainda acredito, que um casamento deveria ser baseado em bom sexo acompanhado de muita conversa. Mas, como já disse, éramos jovens demais e não estávamos preparados para as peças que a vida prega na gente. Eu com meus 22 anos, no auge de minha libido perturbada, não poderia esperar ser fiel a Priscila, por mais redondos que fossem seus seios perfeitos, por mais lourinhos que fossem seus pêlos pubianos, por mais rosados e doces que fossem seus mamilos, por mais suculenta que fosse sua bocetinha. Uma frase que repetirei sempre, e que como vai perceber, amigo leitor, não é minha, nem de ninguém, é de todos: se eu soubesse naquela época o que sei hoje... Na verdade, não adiantaria nada. Eu não pensava ainda com a cabeça de cima. E perdi Priscila comendo sua priminha do interior que havia vindo passar as férias conosco.
A segunda foi Renata. Também na faculdade. Nos conhecemos em uma festa. Era uma grande amiga de um grande amigo de Priscila. Estávamos em uma rodinha de amigos fumando maconha, quando isso ainda não era politicamente incorreto, ou pelo menos ainda não achávamos que era, que isso fique bem claro. E numa das voltas que o baseado deu, segurei sua mão. Eu juro por Deus! Acreditei ter encontrado a mulher da minha vida ali. O toque de sua mão na minha me fez arrepiar inteirinho - e o fato de ela não estar usando soutien naquele dia também ajudou. Renata era muito madura. E quando eu decidi largar a faculdade para abrir um bar próximo à universidade, a pretexto de ser fiel aos meus ideais, fez com que ela simplesmente se desinteressasse por mim. Senti muito sua falta, mas a cerveja me fez esquecê-la rapidamente e me trouxe Vera.
Vera era como eu. Adorava beber de segunda a segunda. Adorava trepar. Nos conhecemos no bar, obviamente. Nessa época eu já me preparava para fechá-lo. Já havia percebido o quão estúpido havia sido ao largar a faculdade. Na última noite em que o bar ficou aberto comi Vera em cima do freezer. E nos apaixonamos. Fiquei com ela até me formar. E daí nossos caminhos se transformaram. Ela continuou sendo de esquerda e eu me encantava com o neo-liberalismo defendido por minha chefe no escritório. Também me encantava com suas cruzadas de perna.
Minha chefe (nunca a palavra "minha" foi tão bem empregada) era mais velha, mais madura, divorciada. Me sentia um menino de novo com o quanto aprendia com ela sobre análise de mercado e kama sutra. Mas ela era séria demais. E no dia em que não consegui mais achar graça na sua carranca conservadora, ela percebeu a minha volatilidade. Me deixou antes que eu a deixasse. Melhor assim. Terminar relacionamentos nunca foi o meu forte. Acabar com eles sim. Destruí-los. Vê-los agonizar. Essa sim é a minha especialidade. Nunca acreditei em esforço para manter um relacionamento. Afinal, cresci assistindo filmes de Hollywood. Não se poderia esperar algo diferente de mim. O que me leva a Carolina.
Eu já com quase 30 anos pensava que havia chegado a hora de amarrar a coleira. E havia mesmo. Mas eu ainda não estava pronto. Talvez nunca esteja.
Conheci Carolina em uma viagem de férias. Minha primeira vez na Europa. Trombei com ela em uma badalada balada, badalada balada, badalada balada em... Barcelona. A princípio eu não tinha a menor intenção de beijá-la. Acho que ela também não. Estávamos os dois tão carentes de brasileiros - imagine, eu estava havia apenas 2 dias na Espanha - que só queríamos conversar sobre política, feijoada, pão de queijo e guaraná. Não que ela não fosse bonita. Era linda! Perfeita! Mas não foi isso que nos uniu a princípio. Foi simplesmente o prazer de conversar com alguém que falava sua língua. Alguém que entendia as piadas que você fazia. Alguém que tivesse algo em comum. E o tempo que passamos juntos na Europa foram os melhores 6 meses da minha vida. As conversas eram fantásticas. Falávamos de tudo: antigos casos, unha encravada, decoração, machismo, feminismo. O sexo era perfeito: nem filme pornô, nem novela das seis. Mas ao regressarmos ao Brasil, eu então com 29 anos, em pleno retorno de Saturno, comecei a reavaliar tudo. Reavaliava a minha vida pessoal, a minha vida profissional, mas não tomava decisão alguma em relação a nada. Simplesmente não conseguia. Meu terapeuta diz que eu não queria tomar decisões. Essa foi a maneira que encontrei, ainda segundo meu terapeuta, de sabotar mais um relacionamento. E eu dizia: não! A culpa é da minha mãe.
Quando cheguei nos 30, finalmente uma decisão. A de não mais me envolver se não fosse para sempre. Devo ter ficado solteiro por umas duas semanas, até conhecer Giovana. Entre Carolina e Giovana houveram outras por quem me apaixonei, mas não tão importantes como aquelas que considero minhas 6 ex-mulheres.
Giovana talvez tenha sido a mais importante. Ou talvez eu tenha essa impressão por ela ter sido a última. Nos conhecemos no trabalho. Como eu já disse, havia decidido ficar solteiro. Então, qualquer mulher que começasse a conversar comigo, passaria a ser tratada como uma freira. Sempre tive umas fantasias meio sacanas, sabe? O fato é que conviver com uma mulher bonita e inteligente diariamente sem nunca tê-la fodido vai contra a minha natureza. Pensava que Giovana não seria a primeira. Era casada à epóca. Ou melhor, morava junto, o que dava no mesmo. E estava cada vez mais desgastada pelo relacionamento. Aparentemente seu marido era apenas uma versão piorada de mim mesmo. Um pouco mais jovem, mais afoito, ainda não muito experimentado na arte de tornar uma mulher completamente satisfeita.
Sim, eu sei fazer isso. Mas me saboto. Já nem sei mais se faço isso inconscientemente, como afirma meu terapeuta, numa tentativa infantil de frustrar os planos de ter netos de minha mãe, ou se o faço deliberadamente.
Fato é que convivendo com Giovana diariamente tinha eu todas as oportunidades de mostrá-la o quanto eu era interessante se comparado ao cara com quem ela dividia o mesmo teto havia quase 3 anos. Eu era o cara bem sucedido que ela acabara de conhecer. Representava o novo com tudo que há de positivo nessa palavra. E também ficou muito fácil pra ela, com aquele sorriso de musa, aquele rosto de atriz de cinema, aqueles seios perfeitos, me convencer a abandonar os planos de ser solteiro.
Giovana tinha seu apartamento. Eu tinha o meu. Mas insistimos em morar juntos imediatamente. Fomos morar no dela. Pulamos algumas etapas importantes para a construção de um relacionamento saudável. Claro, tudo isso é um blá-blá-blá pré-fabricado. Estou racionalizando uma questão para mais uma vez fugir do fato de que na verdade sabotei o relacionamento. Morar com ela era muito fácil. Ela cuidava de tudo. Eu simplesmente sentava no sofá. Àquela altura eu já não podia imaginar que separaria mais uma vez. Já estava até pensando em ter filhos. Mas Giovana era forte demais pra deixar se levar em um relacionamento nitidamente sem futuro. Não seria o fato de ela ter mais de 30 que a faria aceitar qualquer um. E isso só me faz admirá-la mais.
Ela finalmente me botou para fora da casa e da vida dela há duas semanas.
E cá estou eu, escrevendo esse diário, como me recomendou meu terapeuta, esperando minha próxima vítima.

17.12.07

Esperando

Raquel havia decidido usar seu horário de almoço naquele dia para ir ao banco. Havia recebido um bônus do escritório por ter sido escolhida a funcionária do mês. A grana extra, e inesperada, era muito bem vinda. Porém, Raquel reavaliava se era mesmo uma boa idéia trabalhar desse jeito. Ela estava agora à frente de 3 projetos no escritório, trabalhando com 5 equipes diferentes. Ela nem conseguia conversar com suas equipes pessoalmente. Tudo era feito via e-mail. Assim como fazia com seu marido e suas duas filhas. Precisava acreditar que aquele esforço compensava, mesmo não tendo tempo de fazer as unhas e pintar os cabelos. O problema era entrar no elevador, a única hora em que se via no espelho, e perceber os fios grisalhos, como penetras em uma festa: poucos, mas insistentes.
O bônus havia sido pago em cheque e Raquel pretendia usar sua quase uma hora de almoço para sacar o dinheiro e depositar a grana em sua conta. Não queria esperar os dois dias que o cheque demoraria para ser compensado. Raquel não esperava nem elevador. Quantas vezes já não havia subido, ou descido, os 8 andares do escritório só para não ficar parada. Além disso, aquilo dava a ela um certo alívio, deixava sua consciência mais tranqüila: estava se exercitando.
Por volta de uma da tarde, Raquel pegou sua bolsa e, já que o elevador estava em seu andar, não desceu pelas escadas. Ao chegar no térreo o acensorista lhe disse que precisava sair do elevador ali. Havia uma suspeita de vazamento de gás no subsolo, onde ficava a garagem, e o único jeito de chegar até seu carro seria passando por fora do prédio e entrando pelo portão automático por onde entravam os veículos.
- Conversa com o segurança na saída do prédio. Ele abre o portão pra senhora entrar na garagem.
Raquel passou rapidamente pela mesa onde ficavam os dois seguranças responsáveis pelo controle de entrada de pessoas no prédio. Eles disseram a ela que assim que a avistassem no monitor, abririam o portão. Raquel pensou, vou ter que esperar esses dois me perceberem lá. Pensou que perderia preciosos segundos.
Ao chegar ao início da rampa que descia para a garagem, percebeu como ela era íngrime. De dentro do carro não se notava. Percebeu também que um carro acabara de sair da garagem e o portão começava a se fechar. Se eu correr, eu pego o portão aberto, pensou.
A distância entre o início da rampa e o portão era só de uns 50 metros. Mas a inclinação e o fato de estar calçando sapatos de salto alto talvez houvessem desencorajado outras pessoas. Mas não Raquel. Partiu numa corrida cambaleante enquanto o carro subindo a rampa piscava os fárois enquanto subia em sua direção. Raquel desviu-se do retrovisor com muita agilidade enquanto soltava um sonoro palavrão. Quase em frente ao portão percebeu que a abertura não seria suficiente para sua altura. Então, fez o impensável: se jogou no chão e rolou por baixo do portão enquanto ele se fechava.
Seus joelhos ardiam muito, assim como as palmas de suas mãos. Seu sapato direito estava a uns 5 metros de seu corpo e a alça de sua bolsa havia se rasgado. Se levantou batendo as costas das mãos contra a saia, antes branca e agora coberta por uma poeira negra.
Como sempre fazia, passou direto pelo manobrista com um simples aceno de cabeça. Não conseguia esperar que ele buscasse o carro. Dessa vez, no entanto, percebeu que ele se segurava para não rir após assistir àquela cena digna de um filme de ação.
Entrou no carro e nem precisou esperar pelo portão. Já havia sido aberto.
A uns 16 quarteirões dali estacionou o carro. Estava, finalmente, em frente ao banco. Desceu um pouco atrapalhada. Pensava na reunião que teria às 2 horas e imaginava se sua secretária teria se lembrado de todos os preparativos.
Ao entrar no banco, percebeu que a fila estava bem curta. Fez o sinal da cruz. Porém, ao colocar a mão dentro da bolsa, notou que o cheque não estava lá. Lembrava-se de ter colocado ele dentro da bolsa. Estava solto, mas estava dentro da bolsa. Não tinha tempo para conjecturar, decidiu passar na padaria da esquina e comer uma coxinha. Não podia mais perder tempo.
Ao chegar de volta ao estacionamento do escritório e parar o carro, o manobrista veio a seu encontro:
- A senhora deixou cair esse cheque e esse batom quando deu aquele rolamento ninja na entrada da garagem.
- Ah, obrigado!
E foi para o elevador, agora liberado, meio enrubescida. Decidiu que participaria da reunião e sairia imediatamente para pegar o banco ainda aberto. Daria tempo.
Como havia planejado, houve tempo para a reunião e ainda para um bate-papo rápido com seu chefe sobre algumas coisas que ainda precisavam ser acertadas. Saiu rapidamente e em menos de 15 minutos estacionava na porta do banco novamente.
Para a sua satisfação, a fila ainda estava bem curta e foi atendida antes de completar a segunda ligação para sua secretária. Pegou a grana e foi se dirigindo para a porta. Assim que passou pela porta, um rapaz se aproximou:
- Moça, a senhora tem horas?
- Quatro e quinze.
- Hora de passar a grana pra cá.
Raquel não acreditava naquilo. Depois de todo o sacrifício para tirar o maldito dinheiro vinha uma filho da puta e a roubava. E o cara nem tinha se dado ao trabalho de esperar na fila.
Pensou em todo o tempo que havia gasto nos projetos, no tempo que poderia ter passado com sua família, nos dois anos seguidos sem férias.
Decidiu conversar com seu chefe. Tiraria férias assim que concluísse seus projetos. Sem desculpas, sem adiamentos.
E tinha que falar com ele agora. Não podia esperar mais nem um segundo.

15.12.07

A Estante

Tadeu estava enlouquecido com a tese de mestrado. Quanto mais lia a respeito do tema, mais sua pesquisa aumentava, e encontrava outro viés, e mais outro, e mais outro... Resolveu ligar para seu orientador.
- Alô!
- Professor? É o Tadeu.
- Tudo bem?
- Tudo. E com o senhor?
- Tava. Até você me chamar de senhor. Já te falei.
- Foi mal. Bom, eu tava querendo perguntar se o senhor... ou melhor, se você tem mais algum material ou alguma fonte que possa me ajudar lá na tese. Tô ficando meio perdido.
- Tá tendo dificuldade de cercar o tema, né?
- É. É bem por aí.
- Por que você não vem até a minha casa. Talvez você encontre alguma coisa na minha biblioteca.
- Não quero te atrapalhar.
- Imagina. Mi casa, su casa.
Tadeu achou meio estranho o tipo de ajuda oferecida pelo professor. Mas não estava em condições de julgar nenhum tipo de auxílio. Muito menos estava em posição de recusar qualquer coisa que fosse. Juntou suas coisas na mochila e foi para a casa de seu orientador.
Tadeu já havia estado ali em outras ocasiões. Uma vez para receber orientações, quando o professor tinha estado doente e tinha se ausentado da universidade por algumas semanas. Em outras duas ocasiões, havia estado lá para duas festas organizadas pelo professor. No entanto, nunca havia entrado na tal biblioteca. Nem mesmo sabia que ela existia. Sempre imaginava que o professor tivesse um enorme acervo de livros na área, mas nunca algo tão amplo que pudesse ser chamado de biblioteca.
A casa era bem grande e arejada. A porta de entrada dava para uma sala de estar enorme com um sofá em "L" e vários outros móveis. Uma televisão de plasma coroava a decoração. O professor o recebeu na sala. Vestia apenas um robe e tinha uma taça de vinho branco nas mãos. Tadeu achou um pouco estranho, mas pensou, bom, é domingo e o pobre homem também é filho de Deus.
O professor sorria muito enquanto guiava Tadeu até a biblioteca. Falava sobre os quadros na parede, comentava a decoração da casa... Tadeu apenas o seguia e ia respondendo com monossílabos as perguntas trivais que aqui e ali o professor o fazia.
- Bem, é aqui.
O professor abriu duas portas pesadas de madeira que ficavam no final de um corredor. A biblioteca na verdade era um escritório. Havia uma enorme mesa de madeira no centro, com uma cadeira bem alta. Esta mesa estava coberta de papéis com anotações que Tadeu mal conseguia decifrar. No canto direito havia uma outra mesa com um computador e à esquerda um aquário imenso com um único peixe dourado. Tadeu pensava na ironia que era ver aquele peixe, cuja memória mais antiga datava de menos de 5 segundos atrás, nadando sozinho naquele infinito de água. No fundo da sala havia uma enorme estante de livros. O pé direito da casa era bem alto, e a estante ia do chão até o teto, de ponta a ponta da parede recheada de livros. Próximo a porta de entrada, havia um sofá de dois lugares.
O professor entrou na frente de Tadeu e se sentou no sofá. Colocou a taça de vinho sobre uma mesinha de canto que havia ao lado do sofá e ajeitou o robe, como se este fosse um traje de gala.
- Bom, acho que você deve encontrar algo de útil aqui. Se não se importa, ficarei aqui com você enquanto procura. Esta sala tem um valor muito alto pra mim e não gosto de deixar ninguém aqui dentro sem que eu esteja junto.
- Claro. Não tem problema algum. Só não queria te atrapalhar em nada, nem interromper o seu descanso.
- Não se preocupe. Eu não tenho nada para fazer hoje mesmo. Enquanto você estuda, vou ler um pouco. - e pegou um livro que estava no chão, perto do sofá.
Tadeu finalmente encarou a estante. Era realmente gigantesca. Assustava só de olhar. Começou a zanzar de um lado para o outro lendo o que havia escrito nas capas dos livros. Tudo parecia ser útil e pensava, se houvesse uma maneira de eu simplesmente sugar toda a informação da cabeça do professor... Tadeu pensava que, obviamente, o professor teria lido todos aqueles livros. Além disso, conhecia a tese de Tadeu como ninguém. Provavelmente, conhecia-a melhor do que o próprio Tadeu. Por que ele simplesmente não sugeria um autor, um volume?
Tadeu olhava e olhava para a estante e simplesmente não conseguia decidir que exemplar puxar de lá. Pensava que deveria decidir rápido. Não queria tomar muito tempo de seu orientador. Mas ao mesmo tempo achava que seria julgado pela escolha que fizesse. Se eu pegar o livro errado, ele pode desistir de me ajudar, pensava. Arriscou uma olhadela por cima do ombro. Queria ver se o professor estava lendo de verdade ou se apenas o observava com seus olhos de juíz. O professor parecia bem absorvido pela estória.
Tadeu voltou-se novamente para a estante. Foi e voltou umas duas vezes até o final da parede coberta de livros até que viu algo que chamou sua atenção. O problema é que o livro estava na parte mais alta da estante. Não havia nenhuma escada à vista. A cadeira próxima a mesa tinha um estofado de couro impecável que realmente não combinava com sapatos sujos. Antes que tivesse alguma idéia ou criasse coragem para interromper o professor e perguntar como ele alcançava os livros mais altos, ouviu o homem dizer:
- Tadeu, preciso ver meu almoço. Quase me esqueci. Estava assando um peixe. Já volto.
Tadeu pensou, é minha chance. Primeiro pensou em tirar os sapatos e usar a cadeira mesmo. Mas previu que, mesmo descalço, seu peso deixaria marcas naquela cadeira tão sofisticada. Então decidiu usar a mesa. Agarrou-se a ela e tentou puxá-la para perto da estante. Mas a maldita mesa pesava toneladas e o máximo que conseguiu foi movê-la alguns centímetros ao preço de um barulho irritante de madeira atritando com madeira. Deixou um pequeno arranhão no assoalho. Sua idéia não daria certo. Precisaria de pelo menos mais uma pessoa para ajudá-lo a aproximar a mesa da estante. E ainda assim achava que o estrago no chão seria grande.
- Merda!
Tentou trazer a mesa de volta para o lugar. Gotas de suor começavam a brotar em sua testa e suas costas. Nem tanto pelo esforço físico, mas pelo nervosismo.
Olhou para a estante mais uma vez e percebeu que as prateleiras eram bem grossas. É minha única saída, pensou. Tirou o sapato do pé esquerdo e o colocou na segunda prateleira, mais ou menos na altura de seu joelho. Deu um impulso e se agarrou à prateleira mais alta com as duas mãos enquanto seu pé direito ficou no ar, tentando dar equilíbrio. Se esticou um pouco para a direita, tentando alcançar o livro e ouviu um rangido. Estancou. Nenhum movimento por parte da estante. Prestou atenção aos ruídos da sala para perceber se o professor se aproximava. Silêncio completo. Novamente, se esticou para a direita e ouviu outro rangido. Antes que pudesse se soltar da estante, ela pendeu para a frente e desabou, sobre Tadeu e sobre a mesa. Tadeu bateu as costas com força no chão. A estante teve sua queda interrompida na altura da mesa, mas centenas de pesados volumes caíram sobre o rapaz. Tadeu tinha a impressão de estar presenciando um terremoto, pelo barulho e pelos golpes que recebia de cada livro que acertava sua cabeça, seus braços e seu tórax. Tudo aconteceu muito rápido, mas para Tadeu os livros pareciam ser infinitos. Esperou tudo que havia para cair terminar de cair.
Tadeu sentia dor por todo o seu corpo. Começou a se mover embaixo da montanha de livros. Finalmente se desvencilhou de todos os obstáculos. Sua cabeça doía e ao passar os dedos entre os cabelos, percebeu que um pequeno galo se formava.
Ao se colocar de pé, analisou o estrago. A estante parecia intacta, mas os papéis em cima da mesa haviam se espalhado pela sala. A mesa havia se movido e deixado quatro riscos atrás de cada perna.
Virou-se para a porta e viu o professor parado observando tudo.
- Eu sinto muito, professor.
- Deve mesmo.
- Eu arruinei tudo.
- Não. Você pode encarar as coisas dessa forma, mas olhe em volta. Você simplesmente derrubou uma estante. Ela caiu sobre seu corpo. Tomou um susto e foi só. Mas você ainda está vivo. Os livros ainda estão aí. Pare de choramingar. Sacode a poeira do corpo e coloque tudo de volta no lugar.
Tadeu abaixou os olhos e foi arrumar a bagunça.

14.12.07

Feliz Aniversário

Marcos acordou com o telefone tocando. Era sua mãe que desejava um feliz aniversário. Ele mesmo nem se lembrava. Depois de desligar, se levantou e foi para o trabalho.
No escritório, o chefe o chamou:
- Marcos, pode vir um segundinho na minha sala?
Marcos foi pensando que estavam armando alguma surpresa. Estariam todos escondidos e quando ele entrasse: Surpresa!
Não foi o que aconteceu. Seu chefe tinha uma pasta nas mãos com os relatórios de desempenho da equipe:
- Marcos, você tem deixado a desejar ultimamente, viu?
- Tenho passado momentos dificéis. Vou melhorar.
- Já tivemos essa conversa antes e você sempre diz a mesma coisa.
- É sério. Estou reorganizando umas coisas. As coisas vão melhorar.
- Olha, por todas as coisas que você já fez pela empresa, eu vou te dar mais uma chance. Mas no mês que vem, vão haver cortes. E você está nessa lista. Sair dela só depende de você.
Marcos só olhava para baixo. Não conseguia encarar o chefe. A vontade dele era de subir na mesa e chutar a cabeça do filho da puta.
- Bom, é só isso. - concluiu o chefe.
Marcos se levantou e quando abriu a porta para sair, seu chefe disse:
- Ah, Marcos, ia me esquecendo. Feliz aniversário.
- Valeu. - respondeu secamente.
Ninguém mais no escritório se lembrou do aniversário de Marcos. Mesmo com os avisos no quadro. Havia um comunicado com o nome de todos os aniversariantes do mês. Marcos era o único que fazia aniversário em junho no escritório.
Por volta das 4 e meia resolveu ir embora. É meu aniversário, pensou.
Ao deixar o escritório naquele dia, Marcos decidiu se dar um presente e passou em um restaurante Tailandês. Um colega do escritório havia recomendado. Entrou no restaurante e sentou na primeira mesa vaga, próximo à janela. O garçom trouxe o cardápio.
Ao olhar os preços, Marcos se arrependeu de ter entrado ali. Chamou o garçom:
- Amigo, tem algum tipo de promoção para aniversariantes?
- Não, mas se você quiser posso cantar "Parabéns Para Você".
Marcos se levantou e deixou o restaurante. Antes de ir para casa, passou no drive thru do McDonald's.
No caminho para casa foi pensando, será que minha mulher preparou uma festa surpresa para mim? E foi imaginando entrar na sala, as luzes estariam todas apagadas, e, de repente, todos os seus amigos, incluindo seu chefe, estariam esperando por ele. Acenderiam as luzes e começariam a cantar "Parabéns". Teria bolo de chocolate, brigadeiro, salgadinho e muita cerveja.
Entrou em casa e se lembrou de que não era casado. Foi recebido por um silêncio de velório.
Tirou o sapato, desapertou a gravata e o cinto, pegou uma cerveja na geladeira e foi ver TV até o sono chegar.
Se Eu Fosse Poeta

Sou feliz: não sou romântico
Não choro por amor, não sofro
Mas e se eu fosse?

Pensaria no passado
Em tudo que deu errado
E usaria mais um "se"
Ou mais dois, ou mais três

Se tivesse percebido isso
Se tivesse dito aquilo
Se não tivesse dito nada

Mas "se" é coisa de gente fraca
Poetas, meninos apaixonados

Eu sou feliz:
Não escrevo versos
Prefiro ler jornal
Vinte e oito vezes
Eu girei em torno do sol
Outras pessoas
Outras coisas
Giraram em torno de mim

Algumas delas
Por girarem muito rápido
Saíram da minha órbita
E foram circundar outros astros

Outras ainda vêm chegando
Atraídas pelo meu campo gravitacional

13.12.07

Menina Imã

Seu olhar tem mil formas
Olhar de menina, criança
Olhos de feiticeira, encanta
Profundidade oceânica

Sua boca me hipnotiza
Lábios cor-de-rosa
Seu sorriso alimenta
Minha alma, meu espírito

Tudo que há em você
Me instiga, me excita
Aguça os meus sentidos

O desconhecido não mete medo
Atrai
A Terapeuta

Seu olhar me acompanha
Tenta me desvendar
Se falo, às vezes me apanha
Tenta me analisar

Eu só te observo
Te admiro, te desejo
Isso não nego

Suas palavras, esparsas
Gotas para a minha sede
Insisto em ser seu comparsa
Você escapa da minha rede

Não me calo e
Continua me observando
Por vezes aqui e ali
Com seus beijos vou sonhando
Amnésia

Acordo
Não sei onde estou
Tudo a minha volta
Móveis, objetos, quadros na parede
Tudo é estranho

Vejo um porta-retrato
Não sei quem são
Encontro um espelho
Não me reconheço

Esbarro em um diário
As linhas falam de amor
Uma estória que terminou
Não me lembro, continuo lendo

Muita dor, muito pranto
Decepção, desilusão
Fim de caso
Fim da página

Sobre a mesa, uma carta
Onde ela diz:
"Não dá mais!
Acabou! É o fim!"

Nada disso me toca
A dor no diário
A ruptura na carta
Não sei quem é ela
Nem mesmo quem sou

Melhor assim

11.12.07

Vantagens e Desvantagens

Luciana chegou em casa depois de mais um longo e cansativo dia de trabalho. Estava grávida de 8 meses, mas seguia trabalhando. E dizia que trabalharia até o dia do nascimento de Vitor. Queria aproveitar a licença maternidade inteira já com o bebê no colo. Havia calculado tudo com a ajuda de Carlos, seu marido. Iria até imendar as férias na licença para ter mais tempo com seu rebento.
Entrou no apartamento e foi tomar banho. Era muito difícil manobrar para entrar no box do chuveiro com aquele barrigão. Enquanto tomava banho Carlos também chegou. Já foi entrando no banheiro.
- Oba! Banho em família. - gritou ele.
- Nem vem. Já tem gente demais aqui dentro.
- Ah... então vou assistir.
Depois do banho, os dois sentaram na sala. Luciana adorava fazer drama em relação a carregar o bebê para conseguir arrancar pequenos favores de Carlos.
- Ai, amor, tô tão cansada. Parece que eu tô carregando uma mochila cheia aqui na frente. É até difícil equilibrar, sabia?
- Mas tá tão linda!
- Não sei onde você vê beleza aqui. Tô parecendo uma elefanta. Acho que minha barriga nunca mais vai voltar ao normal.
- Que nada. Cê tá maravilhosa e vai voltar a velha forma rapidinho.
- Quero ver. Amor, sabe que eu precisava ir no banco amanhã?
- É? - Carlos se levantou do sofá e foi pegar uma cerveja na cozinha.
- E é tão difícil ir até lá na hora do almoço. Sabe, eu preciso comer. O Vitor é uma draguinha.
- Sei. - Carlos já tinha um sorrisinho matreiro no canto da da boca.
- E ir ao banco me toma tanto tempo...
Carlos se antecipou ao pedido:
- Já sei. Cê quer que eu vá pra você, né?
- Ai, cê faz isso por mim, amor?
- Claro que faço. Agora me dá um beijinho.
- Mas sem assanhamento, viu? Cê sabe que eu não fico confortável.
- Só um beijinho, gata.
E ficaram ali de namorico no sofá até a hora de ir para a cama. Quando se deitaram, antes de apagar a luz, Carlos teve uma idéia:
- Gata, e se eu passar pra te pegar e formos almoçar juntos amanhã?
- Mas, amor, e o banco?
- Ué, melhor ainda. Você não vai perder o tempo de pegar ônibus para ir até lá. E tem mais. Você pode furar a fila com esse barrigão, né?
- Ok. Você venceu.
E foram dormir.
Estólia

Um menino de pouco mais de três anos pega um ônibus com seu tio para visitar seus avós no interior. O ônibus parte da rodoviária quando a noite já vai alta. Mas o menino não tem sono.
- Tio, lê uma "estólia"?
- Tá. Cadê o livro?
- Tá aqui.
- Ok.
O tio lê a estória. O menino ouve atentamente. Faz uma pergunta aqui e ali. Mas não quer interromper. Apesar de saber a estória de cor, não quer perder a fluidez. Então, apenas ouve com os olhos arregalados. A estória termina.
- Tio.
- Diga.
- Posso lê uma "estólia" também?
O tio ri um pouco.
- Claro que pode. Vou adorar.
O menino pega outro livro.
- Tio, vô lê a "estólia" dos animais.
- Que animais?
- O leão, a "gilafa", a onça...
- Legal. Lê aí, então.
O menino começa a acompanhar as linhas da estória com o dedo.
- O leão teve filhotes. Aí, a "gilafa" teve filhotes. E o filhote da "gilafa" "ela" amigo do leão. Acabou a "estólia". Sua vez, tio.
E entrega o livro ao tio. O tio lê mais uma estória e, ao terminar, pede ao menino que também leia outra. O menino responde:
- "Agola" não dá mais, tio. Tá muito "esculo".

10.12.07

Contraste

Borboletas e abelhas voando por sobre as flores
Os ônibus cuspindo fumaça, estranhos odores
Pássaros buscando companhia para o verão
Meninos descalços, pedindo, sem educação

Moças conversam, gargalham, brincam
O guarda e o motorista, tensos, brigam
O colorido das folhas nas árvores frondosas
Placas de propagandas, um tanto enganosas

A cidade tem seus tons de cinza
Tem seus tons de verde, linda

9.12.07

What do you really feel?

Do you really feel what you say you feel?
Or do you say you feel like that because you expect people to expect you to say you feel the way you say you feel?
How much of what you say you feel is true?
How much of what you say is true?
How much of what you feel is true?
And if you really feel what you say you feel, can you choose not to feel it?
And if you don't, what do you get from saying you do?
And if you can choose what to feel, why do you choose what you say you feel?

Are there any answers to those questions?
Or have the questions answered themselves?
Natureza Morta

Quatro vassouras verdes
Penduradas em ganchos alaranjados
Combinando com o cestinho de pregadores
Também alaranjado
A bicicleta azul e verde
As paredes e o armário brancos
As roupas penduradas no varal
Os vasos de flor
De toda cor
E a barata morta no canto
Lindo!
A Pele

Sento no sofá
E caio no sono
Acordo com você

Suas pernas já me envolvem
Seus lábios me acariciam
Seus braços ao redor do meu pescoço

Entre nós
Só nossas roupas
Tiro sua blusa
Sinto o calor molhado dos seus seios

Você se movimenta
Me obriga a me despir
Entro no seu mundo
Duas almas em expansão

8.12.07

Alma, Substantivo Feminino

Sei lá o que eu quero
Sei que não é isso
Quero alguém que me olhe
Alguém que veja meus olhos

Um ser duro como rocha
Mas que chore ao meu lado
Que me peça ajuda
E que me socorra também

Alguém que brigue, que lute
Não um ser estático
Quero dinâmica, atitude
Energia com delicadeza

Quero alguém que me penetre
Alguém que adentre minh'alma
Anseio por alguém que me entenda
Sem eu ter que me explicar

Quero um abraço apertado
Daqueles que me enclausuram
Mas ao mesmo tempo protegem
Me sufocam, mas me deixam respirar

Quero não ter que dizer
Que é isso que eu quero

7.12.07

Chuva e Moto

Reinaldo havia combinado de visitar Léia e Pedro. Eles haviam acabado de ter seu primeiro bebê. Era um domingão no meio de feriado. Não havia trânsito algum. Eram onze horas da manhã quando acordou e o sol brilhava alto no céu. Ao abrir a janela todo o rosto de Reinaldo se transformou em um sorriso.
- Dia perfeito para andar de moto!
Pensava nas cervejas que tomaria com Pedro, no almoço que Léia cozinharia, nos risinhos e chorinhos da bebezinha, e na deliciosa trajetória até a casa deles, de moto.
Colocou uma bermuda, uma camiseta e calçou um tênis. Pegou o capacete e uma jaqueta jeans. Para a volta, ele pensou.
Já dentro do elevador, descendo para a garagem, dava uma conferida no visual. Estava admirado do tanto que havia rejuvenescido após 2 meses de ter se separado. Ainda pensava em sua ex-mulher, mas estava agora exatamente onde queria estar. Tá certo que se continuassem juntos ele realizaria o sonho de ter filhos muito mais cedo, mas a que preço? Cláudia era uma super mulher, mas eles dois juntos, definitivamente, não funcionavam. Eu posso esperar mais uns dois anos, pensava.
A liberdade que experimentava era algo totalmente novo e ao mesmo tempo atraente. E a moto representava tudo aquilo.
Lembrava-se rindo do dia que havia dito a sua mãe sobre a moto:
- Mãe vou comprar uma moto.
- O quê? Por quê? Você só pode estar querendo me matar. Viu, Nestor, seu filho quer me matar! Quer me matar!
Nestor, o pai de Reinaldo, apenas olhava para ele com um sorrisinho no canto da boca e acenava com a cabeça como quem dizia: Vá em frente! Virou-se para Mirna, a mãe de Reinaldo e disse:
- Agora ele é MEU filho, né? Quando ele se formou ele era nosso filho. Me lembro muito bem.
Reinaldo tinha que sair da sala para não gargalhar na frente dos dois.

Bons tempos o agora.

Ao chegar na garagem, não se conteve, namorou a moto por uns bons 5 minutos antes de subir e dar a partida.
Algumas voltas pelo bairro e muitas aceleradas depois, ele estacionava em frente ao prédio onde moravam Léia e Pedro. Tocou o interfone, falou com o porteiro e subiu.
Como havia previsto, havia uma bela mesa preparada: pães de queijo e almôndegas. Pedro já o recebeu entregando uma cerveja. Léia estava no quarto alimentando Giordana, a bebezinha. Ela era linda e, como todo bebê querido, muito desenvolvida para a idade.
Pedro e Reinaldo comiam e bebiam quando Léia saiu do quarto.
- E aí, Rê?
- Pô, sua cabeçuda, já disse para você não me chamar de Rê. Parece nome de mulher.
- Oi, Rê. Já fez as unhas hoje? - Pedro não deixava escapar uma oportunidade de sacanear Reinaldo.
Passaram o resto do dia rindo e brincando com Giordana. Lá pelas 6 da tarde, Reinaldo se levantou da mesa e proferiu as mesmas palavras que sempre dizia ao ir embora da casa de Pedro:
- É dura a dor do parto, mas...
- Brinca mesmo. Não foi você que experimentou. - Léia acrescentava. Os três caiam na gargalhada.
Assim que Reinaldo pôs a mão no capacete, um temporal se formou.
- Se fudeu! - disse Pedro quase caindo da cadeira de tanto rir.
- Cara, são essas coisas que valem a pena quando se tem uma moto: as estórias para as gerações futuras.
Se despediram e Reinaldo foi para o elevador. Enquanto descia, pensava, ainda bem que a roupa de chuva está no Top Case.
Ao sair do elevador, no entanto, percebeu um problema que se apresentava. Teria que correr até a moto, que havia ficado estacionada a uns 50 metros da entrada do prédio. Colocou o capacete sobre um dos sofás que ficavam no lobby, e foi falar com o porteiro.
- Ô chefe, eu vou na moto buscar a roupa de chuva. Cê abre o portão pra mim quando eu voltar?
- Sem problema.
Correu até a moto, abriu o case, pegou a capa, ainda deixou a chave cair no chão, pegou-a novamente, fechou o case e voltou para dentro do prédio.
Enquanto lutava para entrar dentro da roupa, a porta do prédio se abriu novamente. Uma mulher entrava um pouco cambaleante e sorridente. Estava um pouco "alta", mas Reinaldo ficou embasbacado com sua beleza.
- O que está acontecendo aqui? - perguntou ela com um sorriso no canto da boca.
- Estou lutando com minha roupa.
- Cê vai sair? Nessa chuva?
- Ué, cê num acabou de chegar?
- Mas eu vim de carro.
- E eu vou de moto.
- Ah, essa eu quero ver.
- Então você é minha convidada a assistir.
Terminou de colocar a roupa e a chuva se intensificou. Foi andando para o lado da porta bem lentamente e parou. Ficou olhando a chuva engrossar. Cacete! Nesse pé d'água até com essa roupa eu vou me encharcar, pensava.
- Então?
Ela havia se sentado no sofá. Reinaldo se virou e viu que suas pernas eram perfeitas. Tirou os olhos rapidamente dali. Tentou disfarçar.
- Não era eu que iria assistir você? - ela perguntou com um sorrisinho na boca.
- É, mas agora estamos assistindo a chuva. - tentou desviar o assunto. Sentia seu rosto queimando ao ter sido pego no flagra. Ela continuava sorrindo.
- Você mora aqui?
- Não, vim visitar um casal de amigos.
- Não é a Léia e o Pedro?
- É. Cê conhece eles?
- Claro. Sou vizinha de porta deles.
- Ah, legal. Conhece a Giordana?
- Ela é linda, não é?
- Linda.
Continuaram falando de Giordana. E Reinaldo finalmente se apresentou.
- Ah... meu nome é Reinaldo.
- Legal. - ela respondeu. Não sorria mais.
Reinaldo achou melhor ir embora. Foi se dirigindo para a porta quando ouviu a moça gargalhar atrás dele.
- Isso sempre funciona. - ela ria e ria.
Reinaldo não estava entendo.
- Desculpa. Dá pra explicar o que é tão engraçado?
- Você disse seu nome e eu fechei a cara. Todo homem fica puto com isso. - e ria mais.
Reinaldo sorria sem graça.
- Vamos subir pra casa da Léia e esperar a chuva passar. - ela propôs.
- É. Acho que é melhor, até a chuva parar.
Reinaldo começou a tirar a roupa de chuva, mas foi interrompido:
- Reinaldo, não tira essa roupa. Tá muito engraçado. A Léia vai rir muito. Cê tá parecendo um astronauta.
Reinaldo sorriu de novo e concordou com a cabeça. Ela abriu a porta do elevador pra ele e disse:
- E o meu nome é Patrícia, viu?

6.12.07

Sala de Espera

Era dia de dentista. Roberto já sabia. Acabara de se levantar e o celular tocara lembrando-o desse compromisso. Resolveu dar uma olhada nos dentes enquanto colocava pasta na escova. Pensava, o que será que ele vai dizer hoje, que tem placa, que tem tártaro.
Como a maioria das pessoas que já estiveram em um consultório odontológico, Roberto odiava visitar o dentista. Porém, ele não tinha medo do que o dentista fosse fazer. Não tinha medo de qualquer dor que pudesse sentir enquanto estivesse sentado... ou melhor, deitado, de boca aberta, a mercê do inimigo número 1 das fábricas de guloseimas. Não, isso não. O problema era a sala de espera.
A sala de espera de dentistas ou médicos é sempre a pior parte da consulta. Seja para quem tem medo da consulta em si, ou para quem simplesmente odeia esperar. Estar na sala de espera te emperra a vida. E para Roberto isso era uma tortura. Roberto sempre trabalhou como programador. Nunca teve que cumprir horário, mas trabalhava de 12 a 14 horas por dia. Ter que ficar em uma sala, parado, ao lado de pessoas estranhas, sem ter o que fazer era algo que ele mal podia suportar.
Mas dessa vez seria diferente. Roberto estava preparado para tudo. Levaria seu laptop. Poderia adiantar algum projeto em que estivesse trabalhando. Ou mesmo jogar paciência. Não, isso não ia rolar. Ele nunca conseguira jogar paciência, por motivos óbvios. Além do laptop, Roberto também levaria uma revistinha de Sudoku. Era sempre importante ter um plano B. E se existia algo que conseguia transportá-lo de onde estivesse eram os desafios de Sudoku.
Checou a mochila antes de sair de casa. O laptop estava devidamente armazenado dentro da mochila, juntamente com sua revistinha. Pegou as chaves do carro e deixou o apartamento.
Passou algum tempo no trânsito. Tempo esse que usou para se colocar em dia com as últimas notícias transmitidas pelo rádio de seu carro.
Enfim, chegava ao consultório. Estacionou o carro na garagem que ficava no subsolo e tomou o elevador. Em sua companhia, um senhor de espesso bigode e ainda mais espessas lentes nos óculos. O senhor lia uma revista e assobiava uma bossa nova. Mas Roberto estava concentrado no display do elevador. Enquanto acompanhava os números que iam crescendo, contava mentalmente: mil e um, mil e dois, mil e três, mil e quatro... No décimo andar, o senhor desceu do elevador. Antes que a porta se fechasse, Roberto ainda o informou:
- Esse elevador é muito bom. Leva apenas 5 segundos para subir cada andar.
O senhor o olhou por um momento, mas sem saber o que dizer, apenas acenou com a cabeça e seguiu seu caminho.
O elevador continuou subindo até o décimo primeiro andar, onde Roberto desceu.
Pegou a direita no corredor à sua frente e caminhou até a sala 1111. Era lá o consultório da Dra. Ângela. Entrou e se dirigiu a secretária.
- Bom dia! Tenho uma consulta agendada para as 8 horas.
- Bom dia. Só um momento, por favor - Roberto já esperava aquela resposta e foi se dirigindo para a poltrona mais próxima.
Mas antes que pudesse sentar:
- Senhor Roberto de Souza. O senhor já pode entrar. A Dra. Ângela o aguarda.
Por um instante, Roberto ficou paralizado. Tinha um olhar bobo e um sorriso idiota na face. Não acreditava na sua sorte.

5.12.07

O Artesão

Um artesão tentava
Criar a mais bela escultura
Fazia e refazia a mesma peça
Aparava, limava, talhava
Não era boa o bastante
Nunca

E ele continuava trabalhando
Com formão, com martelo
Até que a peça sumia
E ele então recomeçava

Um dia desistiu
Parou o entalhe no meio
Decidiu não terminar a peça
Simplesmente a jogou longe
E nunca mais pegou no formão

Meses, anos, décadas se passaram
O artesão sempre se lembrava
Com pesar e com ternura
Da peça que jogara fora

Até que certa vez
Passando por um povoado
Distante e distinto de seu próprio
Encontrou uma feira de artesanato

Decidiu admirar as peças

E qual não foi sua surpresa
Ao rever aquela beleza
A mesma peça que antes jogara fora
Enfeitava aquela feira agora

"Quanto quer por esta peça?"
Perguntou ao vendedor
"Essa peça não está à venda.
Seu valor é incalculável.
Não se conhece o autor."

"Mas fui eu quem a fez.
Eu que a esculpi."

E o vendedor então
Entregou-lhe ferramentas
Depois, um bom pedaço de madeira
"Então faça algo para eu ver."

Mas o artesão já não sabia mais manusear as ferramentas
"Estou velho e sem prática."

"Sem saber se é verdade,
Se foi mesmo você quem a esculpiu,
Não poderia entregar-lhe a peça.
Por outro lado,
Se não mente,
E é, de fato, o artista
Não merece também a peça.
Desperdiçou seu dom."
Tecnologia a Serviço do Progresso

Liana começava a pensar em desistir. Era o quinto Cd que tentava gravar e não conseguia. Duas mensagens de erro, um Cd "queimado" literalmente - devido à velocidade excessivamente alta do gravador -, e outros dois que, simplesmente, decidiu-se: não seriam gravados. A pergunta era: quem decidiu? Liana pensava, eu não decidi. Foi o computador? Foi o Cd? Quem decidiu?
Resolveu, finalmente, ler o manual de instruções do gravador.
- Perfeito!
Estava em inglês. Ler os textos para o mestrado era uma coisa. Era sua área. Ela já conseguia prever o que as frases diziam antes mesmo de terminá-las. Era fácil, moleza. Mas ler um manual de instruções dissertando acerca de um aparelho que se revelava cada vez mais misterioso era uma estória completamente diferente. Mas não tinha outra opção.
Começou a ler o manual. A leitura era até bem fluente. Algumas palavras transbordavam. Seu vocabulário simplesmente não podia contê-las. E eram palavras relevantes.
- Já sei. Vou procurar um tradutor online.
Entrou na internet e por alguma razão a sua página inicial - obviamente o Google - não carregava. Clicou no botão atualizar do navegador. Nada.
- Mas será o benedito?!
Foi checar os fios atrás do computador. Nesse momento pensou que as pessoas que projetavam computadores eram um bando de idiotas. Onde já se viu todas as entradas e portas ficarem na parte de trás. O computador sempre "dá pau". Essas conexões deveriam ficar mais acessíveis.
Se agaixou e tentou entrar por debaixo da escrivaninha. Percebeu que não caberia. Deduziu que teria que arrastar a mesinha maldita. Ficou de pé para perceber as conseqüências de tal ato. Havia uma quantidade absurda de coisas sobre o móvel. Tantas eram as coisas que ela própria não se lembrava de ter colocado a maioria delas ali. Bibelôs, vasinhos coloridos, cristais, dois incensários de cerâmica, um mini-gaveteiro cheio de clipes para papel...
- Dai-me forças, ó Senhor!
Como se segurasse a própria vida, agarrou-se a escrivaninha e, com movimentos muito lentos e extremamente calculados começou a movê-la. Percebeu um anjinho de vidro se desequilibrar e parou subitamente. O anjinho foi ao chão e se estilhaçou. Nessa hora pensou em se sentar no chão e chorar. Lembrou de uma de suas músicas favoritas:
- Big girls don't cry
.
Foi até a lavanderia buscar jornal velho para embrulhar o anjinho estilhaçado. Enquanto o embrulhava viu um anúncio de apartamento com "lazer completo".
- Show!
Terminou de embrulhar o anjinho e deu a ele o funeral merecido. Abriu a tampa do lixinho do escritório e o jogou lá dentro. Voltou a encarar a escrivaninha:
- Decifra-me ou te devoro.
O telefone tocou. Era seu pai. Contava de seu último fim de semana. E já no fim da conversa perguntou:
- Como vão as coisas?
Liana descreveu toda a sua aventura mal-sucedida ao tentar gravar o maldito CD. Procurou evitar palavrões, mas em diversos momentos não se conteve, ao que seu pai gargalhava. Antes de desligar, ele disse:
- Sabe quando eu vou comprar um computador? No dia em que eles funcionarem como uma televisão: você aperta um botão, ela liga; aperta de novo, ela desliga.
- Ai, pai! Só você mesmo, né, figurinha?

4.12.07

insônia

mente torta
corpo impotente
pés sujos
braços pendurados
olhos avermelhados
barba por fazer
dedos inquietos
a tela continua em branco
até quando?

3.12.07

10 Minutos

Quero tentar escrever
Não sei sobre o quê
Meu tempo é curto
E o talento não é muito

Talvez falte só inspiração
Pra compensar, muita ação
Talvez essa fonte tenha secado
Seria uma pena, um pecado

Sem tempo
Sem inspiração
Quem vai salvar minha produção?
Longa Espera

Pedro havia trabalhado bastante.
Levantou-se às 6:30 em ponto e foi para o trabalho. De manhã, teve reuniões infindáveis sobre questões impossíveis de se resolver. Checou emails, deu telefonemas, recebeu telefonemas, respondeu emails, ajeitou o quadro que ficava perto do bebedor, e foi almoçar.
O almoço teve que ser rápido, pois assim que colocou os pés para fora do prédio onde trabalhava, seu celular tocou, lembrando-o que havia marcado de encontrar um cliente;
- Por volta da uma hora. - havia dito.
No caminho, comeu uma barra de cereal e tomou uma garrafinha de água. Depois de encontrar com o tal cliente, passou no McDonald's e pediu uma salada, para não pesar na consciência.
Voltou ao escritório para analisar custos e escrever relatórios. O que fez por boas três horas initerruptas. Com as conclusões da análise em mãos, encarou mais duas horas de reuniões, agora com um pouco mais de efetividade.
Antes de tirar o casaco de cima da cadeira para ir embora, ainda assinou dois comunicados que seriam passados para sua equipe.
Sorriu. Foi pra casa.
Entrou na sala e já foi tirando a camisa. Sua mulher o esperava:
- Nossa, amor!
Entrou debaixo do chuveiro e tomou um banho rápido, menos de 5 minutos. Saiu do chuveiro e disse para sua mulher:
- Agora é a minha vez de cuidar dela!
E pegou sua filha no colo.

2.12.07

O Varal

Leonardo acordou naquele domingo depois do meio-dia. Sabia que havia muita coisa para ser feita mas se permitiu ficar na cama até mais tarde. Pô, sou filho de Deus também, né, pensou. Quando finalmente conseguiu se colocar de pé, Tânia já o esperava na cozinha. Ela também havia se levantado há pouco tempo e o aguardava com o café pronto.
- Bom dia, meu bem!
- Bom dia.
Leonardo se abaixou para dar um beijo em sua testa. Ela sorriu para ele.
- Cê tá lembrando que tem que arrumar o varal, né?
- Tô. Pode deixar. De hoje não passa.
Tomaram o café da manhã e enquanto Tânia ia ler o jornal, Leonardo foi para os fundos da casa para iniciar os trabalhos dominicais, como ele chamava esses pequenos consertos que fazia pela casa, sempre aos domingos, pois era quando tinha tempo.
Olhou para o varal: estava todo embolado. Era um desses varais sofisticados com duas peças de plástico em cada ponta. Uma mesma linha ia e voltava de uma peça para a outra formando 5 varais. Com a última chuva, as linhas haviam se enrolado.
Leonardo, primeiro, desmontou as peças de plástico para soltar as linhas e fez a primeira constatação: as linhas estavam amarradas com nós. Cegos.
- Tânia! - gritou - será que você consegue soltar esses nós?
- Nem vem! - ela respondia também gritando lá de dentro - Fiz a unha ontem...
Leonardo pensava e não via outra saída: teria que cortar as linhas para conseguir arrumar o varal. Puxou novamente as peças de plástico para perto de onde ficavam fixadas e calculou a distância e o tanto de corda que precisaria. Ainda tentou mais uma vez soltar os nós. Usou as unhas, depois os dentes, e, finalmente, já estava futucando entre o nó com o canivete suiço que seu pai havia lhe dado. Nada! Os nós estavam mesmo muito apertados.
É, vou ter que cortar, pensou resignado. Tentou medir mais uma vez a distância entre as paredes opostas às quais ficavam fixas as peças de plástico. Não posso cortar demais, avaliava, ou vou perder a linha. Pegou o canivete, respirou fundo e...
- Seja o que Deus quiser!
Depois de cortar as linhas, tudo ficou mais fácil. Passou a primeira volta, fazendo o primeiro varal, passou a segunda, a terceira, a quarta e...
- Merda!
Havia cortado demais. A linha agora não era suficiente para formar 5 varais.
- Que foi? Por que cê já tá bufando? - era Tânia que havia ouvido o sonoro "merda" de Leonardo.
- Cortei demais a porra da linha.
- Pois é. Você devia ter analisado melhor. Não tem como emendar esse tipo de linha.

Quando a ação é definitiva, pensar duas vezes não é o bastante.

1.12.07

Malditos Sapatos

Lucas se levantou naquela segunda-feira muito calmo. Não havia marcado nada para aquela manhã. Era muito bom poder se levantar sem a sensação de estar perdendo a hora. Começou a visualizar todo o seu dia, as tarefas que o aguardavam.
Escovou os dentes e pegou o primeiro par de sapatos que alcançou dentro de sua sapateira. Sentou na beirada da cama para colocá-los e os sentiu apertar.
- Ah, vai esse mesmo!
Indo para a cozinha, começou a ficar agitado, topou o joelho contra a quina do sofá.
- Caralho!
Teve que se sentar para se recuperar da dor. Nem bem colocou a bunda no sofá, deu um salto. Tô perdendo tempo, pensou. E foi para a cozinha.
Sacudiu a garrafa de café e viu que havia sobrado um pouco do café feito no dia anterior. Posso esquentar com o leite no micro, resolveu. Pegou uma caneca e colocou um pouco de leite. Depois pegou a garrafa de café e completou a caneca com...
- Água! Que porra é essa?
Só então se lembrou que havia colocado água na garrafa na noite anterior, uma mania herdada do avô que dizia ser bom para manter a garrafa limpa. Desistiu do café. Pegou o paletó e desceu para a garagem.
Dentro do carro, andou cerca de 500 metros e empacou: o trânsito. Não conseguia parar de olhar para o relógio. A mão apertava a buzina freneticamente. Resolveu dar uma checada no visual. Ajustou o retrovisor em direção ao rosto:
- Cacete! Esqueci de fazer a barba.
Um hora depois, Lucas já estava na frente do computador. Lia e relia relatórios. A fome apertou. Resolveu tomar um café. Encontrou com Cibele no caminho para a máquina.
- Olá!
- Oi. Tudo bom? - ele disse sem olhar de verdade para Cibele.
Não que ele precisasse olhar para se lembrar do quanto seu rosto era perfeito, assim como seu corpo.
Cibele o seguia até a máquina de café e falava algo sobre o que havia feito no fim de semana, mas Lucas não a ouvia. Conseguia apenas ouvir seu estômago roncando e sentir o sapatos apertarem seus pés. Esperou a máquina encher seu copo e, desatento, se virou e acertou com o copo o corpo de Cibele.
- Caracas! Desculpa, por favor.
- Tá tudo bem. - ela disse fria, e foi para o banheiro se limpar.
Decidiu que o melhor a fazer era se sentar e esperar o dia passar. Assim, pelo menos os pés descansavam.
O escritório estava em reforma e haviam várias caixas sobre as mesas. Até o computador de Lucas teve que ser reposicionado para dar espaço para algumas caixas. Lucas era obrigado a se sentar meio de lado na cadeira para alcançar o teclado e precisava digitar vários relatórios. Com menos de meia hora teclando seus pulsos já doíam.
No fim do dia, Lucas, aliviado e cansado, tirava o paletó da cadeira para ir embora. Na entrada do elevador ainda se esbarrou com Solange, a gordinha espaçosa que trabalhava no almoxarifado.
- Oi pra você também.
- Foi mal.
Solange simplesmente grunhou e seguiu seu caminho. Lucas mal podia esperar para chegar em casa.
Dentro do escritório, Lucas nem percebia se era dia ou noite, e agora saindo do prédio, tinha uma grande surpresa: chuva. Mas não uma chuvinha qualquer, um pé d'água. E, claro, Lucas não havia pegado seu guarda-chuva.
- O jeito é correr. - e disparou.
O carro de Lucas ficava estacionado em um estacionamento a uns 500 metros do prédio onde trabalhava. Lucas corria, mas seus pés doíam a cada passo.
Finalmente, chegou ao carro. Tirou o paletó e a gravata. Tirou a camisa e colocou-a sob sua bunda para evitar molhar mais o assento. Tirou os sapatos e sentiu o alívio. Sorriu. Girou a chave na ignição, e, antes de sair do estacionamento, parou ao lado de um contêiner de lixo. Abriu a janela, jogou os sapatos dentro do contêiner, fechou a janela, ligou o rádio e foi embora cantarolando.

30.11.07

É como diria meu velho e sábio pai:
"Rio espalhado não move moinho."

29.11.07

Se Jogar Na Vida II (versão fábula)

Era uma vez
Uma larvinha
Que vivia dentro de um casulo

Quando ela achava que nada mais fosse acontecer
Ela conheceu um besouro
Era bem fedido
Mas muito divertido

E os dois se apaixonaram

O besouro queria seguir viagem
Mas a larvinha hesitava:
"Meu casulo é tão confortável.
Aqui tenho tudo que preciso."

O besouro insistia:
"Sai, vem comigo.
O mundo é tão bonito."
A larvinha não saía

Ele então decidiu:
"Vou embora, você fica."
E botou o pé na estrada

Dias e dias se passaram
Nenhuma notícia do besouro
A larvinha se arrependeu

"Meu besourinho fedido,
Onde se meteu?
Tenho medo de sair do casulo.
Por que não volta?"
E chorava, e chorava

A luz do sol um dia
Meio que de brincadeira
resolveu acertar o casulo
E o derreteu inteirinho

A larvinha ficou muito assustada
Mas foi percebendo que
Em uma linda borboleta se transformara
"Puxa! Como sou linda!
E que belas asas!"

Não sabia mais onde o besouro estava
E pensou:
"Vou procurá-lo.
Com estas lindas asas,
Não vai ser difícil encontrá-lo.
E se nisso eu falhar,
Pelo menos estórias terei para contar."
E bateu asas e voou...

28.11.07

A Pé de Cabra

Procuro algo lá dentro
Tão difícil de alcançar
Algo escondido, guardado, talvez até aprisionado
Busco a inspiração
São noites em claro
Não há calma ou paz, tampouco há perturbação

O caminho pra dentro
Engolir-se e se entranhar
Um estupro de mim mesmo
Lá no fundo não há luz
Há uma escuridão profunda
Mas minhas mãos tateiam algo
Será que encontrei?

Agora é trazer pra fora
Rasgar a pele se preciso
Botar tudo ao sol
E deixar a luz me banhar

27.11.07

Hoje não estou muito inspirado, como deve ter dado pra perceber pelas porcarias que escrevi. Mas, nessas horas sempre tem um amigo do peito pra nos socorrer. Veja que, de fato, "os opostos se distraem, os dispostos se atraem." Do meu querido irmão André Oliveira:

Amor de Poeta
Eu fico aqui escrevendo coisas de amor
E percebo no final de cada linha...
Que não amo ninguém
Porque todo poeta não poderia amar como escreve
Esse amor que ele escreve é apenas poesia
E o amor é poesia que não se escreve
Quando escrito, vira um quase amor
E frustrado pelo quase amar
O poeta continua escrevendo
Porque se amasse
Ele não tinha mais nada o que dizer.

Procura-se
Um dia a gente acorda
O amor foi embora
Outro dia a gente dorme
Sonha que ele voltou
Depois a gente morre
Pelo amor que perdeu
Enfim a gente vive
Procurando amor
E ele se perdeu
Dentro da gente
A caminho do coracao
Escorregou pela veia errada
Foi parar na cabeca
E virou um pensamento
E quando a gente pensa que ama
É sinal que não sente nada

Visitem o blog dele: http://neuroghost.blogspot.com/
Lembrancinha

Picadas de mosquito
Nem me lembro de ter sido mordido
Mas são tantas
E por todo o corpo
Manchas vermelhas
Calombos na pele
Querendo me lembrar:
Aquilo de fato aconteceu
Mas não me lembro
De onde surgiram essas feridas?

E me coço dos pés às orelhas
Monótono

O que escrevo tá tão sem graça
Tento mudar a forma, ver se passa
Tudo parece já ter sido dito
Tudo aqui sai repetido
Será que a técnica falta?
Meu talento não tá em alta...

Preciso ler mais poesia
Conhecer outros autores
Navegar, conhecer outros humores
Encher essa caixa tão vazia

Caixa de um brinquedo só
Caneta Que Pulsa

Tudo que escrevo
Prosa ou poesia
Vem de dentro
Vem de mim

Minhas palavras são
Às vezes cruas
Meio quebradas
Indiscutivelmente verdadeiras

Hora faço sorrir
Mas também faço chorar
Escrevo sobre o que é

Se em momentos te assusto
Reflita sobre isso
O que escrevo
É sangue na veia

26.11.07

Vidas Fundidas

Duas almas antes em contato
Entranhadas, embaraçadas
Agora dois corpos em lugar nenhum

Energia emanada
Energia captada
Fluindo de um pro outro
Troca: uma via de mão dupla

Não importa a distância
Sempre capto a luz do seu sol
E devolvo na minha língua
Escrevendo mais poesia
Teclando Poesia

Escrever poesia é fácil
Pra digitar tem que ser ágil
Cada toque no teclado é um estalo
Toma seu juízo, quer roubá-lo

Quando o dedão
Muito de supetão
Acerta a barra de espaço
Me assusto, me desfaço

Aperto o Enter: bem normal
Pular uma linha é a ação
Nunca muda, sempre igual
Mas achar a interrogação
Dureza! Me faz passar mal

Acentuar é que é pior
Ficaria até com dó
De ver tentar Cecília
Sem nunca achar o cedilha

No final, às vezes até rimando
Continuo teclando e tentando
Com dificuldade: tudo é assim
Pra fazer você lembrar de mim
Como Te Quero

Não quero seu ouro
Disso não preciso
Sua alma é que me encanta
Seu corpo, sua voz quando canta

Não quero seu palácio
Nunca invadirei seu espaço
Quero seu sorriso
Ouvir sua gargalhada

Não quero ser seu dono
Te controlar, te ordenar
Quero que sua liberdade seja sua
Só sua, nunca minha

Não quero toda a sua atenção
Quero isso não
Quero só um pouquinho
Um minutinho
Pra te encher de beijinho

25.11.07

Epifania Feminina

Fernanda estava exausta depois de mais um dia de trabalho. Horas e horas em uma reunião que não chegava a lugar nenhum. Ia pensando em todas as providências que deveria ter tomado naquele dia, mas que simplesmente não tomou. E era ainda mais agonizante ter que pensar tudo isso dentro de um carro parado, agarrado em uma avenida de 3 pistas, mas que, por algum tipo de fenômeno, simplesmente não fluía. Decidiu acender um cigarro e ligar o rádio. Quem sabe assim conseguiria esquecer um pouquinho de tudo aquilo.
Mas às primeiras notas da canção, veio a lembrança:
- O teste! - gritou tão alto que o casal que se beijava no carro ao lado parou pra assistir.
Fernanda vinha tentando ter o primeiro filho há alguns meses. Ou pelo menos era isso que ela dizia pra quem perguntava do assunto. Na verdade, contados 14 meses. Começava a se preocupar. Na semana anterior havia estado em um laboratório para tentar descobrir afinal se havia algo errado com ela ou não. Mas, obviamente, com a cabeça cheia de coisas como estava, havia esquecido completamente de passar no laboratório para buscar o resultado. Conferiu as horas no painel do carro.
- Merda!
Já não daria mais tempo de voltar. E mesmo que desse tempo, o trânsito não permitiria. Desistiu. Amanhã eu pego, pensou ela.
Quase 40 minutos e muitas buzinadas depois, ela segurava o controle remoto para abrir o portão da garagem. Alguma coisa a fazia hesitar. Pensava que o Beto lhe perguntaria pelo exame. Ela conseguia visualizar toda a cena antes mesmo de ela acontecer. Ela entraria na sala e ele estaria jogado no sofá assistindo a reprise do jogo entre o time A e o time B. Ele explicaria que aquele jogo era decisivo para o time C e pediria a ela uma cerveja. Enquanto ela fosse buscar a cerveja, ele perguntaria sobre o exame e, antes que ela pudesse responder, o celular dele tocaria e ele iria para a sacada conversar com algum amigo em tom bem alto para que todo o prédio pudesse ouvir.
Não sei se quero entrar, refletiu. Engatou uma ré e saiu sem rumo. Não sabia direito onde queria ir ou o que estava fazendo. Simplesmente dirigia. De repente, o celular. Era o Beto.
- Oi.
- Onde cê tá?
- Tô com as meninas. - foi a primeira coisa que pensou - a Laura tava precisando conversar um pouco.
- Ah... tudo bem, então.
Ele nunca questionava e Fernanda imaginava se ele ao menos escutava o que ela dizia. Conversar com as meninas, ela pensava, nem sei qual foi a última vez que tivemos tempo pra isso. De fato, Fernanda e suas amigas andavam meio afastadas. Era dificílimo conseguir se encontrar com uma delas, imagine com todas. Deu de ombros. Virou o carro e foi pra casa. Quando chegou, encontrou Beto dormindo no sofá. Foi pra cama e dormiu com a mesma roupa que havia ido para o trabalho.
Na manhã seguinte, Beto já havia saído quando ela levantou. Tomou um longo banho e foi para o trabalho repetir tudo outra vez sem, outra vez, alcançar os objetivos que tinha em mente. Exatamente às 4 da tarde deixou o escritório. Dessa vez não esqueceria o teste.
Depois de enfrentar o dissabor das ruas, chegou ao laboratório. Alguns minutos de espera e finalmente o resultado estava em suas mãos. Estava paralisada. Não conseguia abrir o envelope.
Ligou para Angélica:
- Angélica, tá ocupada?
- Não, pode falar.
- Tá em casa?
- Tô.
- Vou praí.
Ao entrar no apartamento de Angélica já foi lhe entregando o envelope:
- Abre pra mim. Não consigo.
- Calma, menina. - enquanto falava, Angélica rasgava a lateral do envelope.
- E aí?
- Relaxa, tá tudo certo com você.
- Como assim? Me dá aqui esse treco.
Fernanda olhava e não conseguia entender. 14 meses tentando e nada. Agora com o teste na mão sua cabeça entrava em parafuso. Angélica filosofou:
- Cê já parou pra pensar que o problema pode ser o Beto.
- Será? Mas ele é tão saudável. Eu é que sou sedentária e fumo e não durmo direito.
- Cê tá viajando. Acho que cê devia conversar com ele.
- É.
Fernanda saiu da casa da Angélica mais confusa e amedrontada do que chegara. Como falaria disso com o Beto? Como ele aceitaria? Não conseguia prever a reação dele. Não conseguia prever a sua própria reação à reação dele. E aí resolveu.
Entrou em casa, desligou a TV e disse:
- Beto, acabou.